Uma década da primeira estrela do JEC: heróis relembram o título da Série C

03/12/2021 às 05h50

Campanha histórica, acesso à Série B, goleada na final e título marcam o dia 3 de dezembro na história do Tricolor

Foto de Drika Evarini

Drika Evarini Joinville

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Sábado, 3 de dezembro de 2011. Um típico sábado de verão, com sol escaldante e muito calor. Poderia ser só mais um que passaria em branco sem nada de diferente para ficar cravado na memória por décadas, mas não para a torcida do JEC. Não para aquele elenco e para aquela comissão técnica. Não para uma cidade que viveu um campeonato mágico, uma campanha mágica, um título histórico.

No dia 3 de dezembro de 2011, depois de golear o CRB com a Arena Joinville lotada, o Tricolor comemorou seu primeiro título Brasileiro – Foto: Arquivo/NDNo dia 3 de dezembro de 2011, depois de golear o CRB com a Arena Joinville lotada, o Tricolor comemorou seu primeiro título Brasileiro – Foto: Arquivo/ND

Há uma década, o dia amanheceu e no peito do torcedor joinvilense, um misto de ansiedade, nervosismo e muita confiança. Todos esses sentimentos coloridos em preto, branco e vermelho, as cores que tomaram as ruas de Joinville naquele sábado de sol e explodiram na rua Inácio Bastos quando o ônibus, igualmente pintado tricolor “apontou” na rua.

Rua não porque naquele dia, naquele momento, transformou em um mar de gente. Naqueles metros que cercam a Arena Joinville, o ar se pintou de preto, branco e vermelho, as cores do Coelho. A fumaça transformava o ar, os gritos ecoavam pela zona Sul, o batuque contagiava quem estava dentro do ônibus.

Eram horas que antecederam um título, mas não qualquer título, era o primeiro, aquele que abria a porta de anos igualmente mágicos, aquele que vinha coroado com a melhor campanha de todo o futebol brasileiro. O título da Série C de 2011 mudou a história do Joinville Esporte Clube e de quem fez parte daquela conquista.

“Antes de chegar na Arena, o ônibus não conseguia passar com aquela recepção. No dia da final, jogar nos seus domínios, com a casa lotada e poder vibrar e fazer a torcida vibrar ao vivo, é algo inesquecível”, crava o técnico que “deu” ao Tricolor o seu primeiro título nacional. Arthurzinho escreveu com ferro seu nome na história do JEC e no coração do torcedor tricolor que não esquece do “Rei Arthur”.

Na lateral direita a velocidade e ofensividade de Eduardo eram duas das principais características de um time que coletivamente era quase imbatível, haja vista a campanha do Tricolor naquela Série C. Com o JEC marcado na pele, Eduardo também recorda com detalhes a chegada ao estádio. “Não passava nada, o ônibus simplesmente não conseguia passar, era muita gente. Foi uma sensação única”, recorda.

Torcedores lotaram a rua para recepcionar o time que já havia conquistado o acesso à Série B e estava prestes a levantar a taça de campeão – Foto: Arquivo/NDTorcedores lotaram a rua para recepcionar o time que já havia conquistado o acesso à Série B e estava prestes a levantar a taça de campeão – Foto: Arquivo/ND

Autor de um dos gols, Pedro Paulo era mais um que, do ônibus, sentiu a vibração de uma torcida que sabia o que estava por vir. “Desde o hotel, uma multidão nos acompanhou pelas ruas. Aí quando chegamos na Arena, quando dobrou na rua e vimos aquela massa, aquela loucura, a torcida gritando, em cima do ônibus, foi um negócio muito bacana. Quem viveu aquilo não esquece e lembra até hoje”, fala.

A melhor campanha entre todas as séries

O JEC vinha de um acesso conquistado nos tribunais em 2010. Naquele ano, o Tricolor foi eliminado pelo América-AM, mas o time do Norte escalou um jogador irregular e, no tribunal, o acesso veio para Joinville.

Em 2011, depois da desconfiança inicial na Copa Santa Catarina, a chegada de Arthurzinho para comandar o time começou a virada de rumo que transformaria aquele em um ano histórico. O título da Copinha veio e antecedeu a campanha absoluta do Coelho na Série C.

“Eu nunca vou esquecer do dia em que cheguei em Joinville. Peguei um táxi para ir à Arena e o taxista me reconheceu, perguntou: é o senhor Arthur? Confirmei e ele disse: está sabendo onde o senhor está entrando? Aqui ninguém fica muito tempo. Aqui eles não dão tempo, cobram demais. Se o senhor não tiver resultado imediato, vai embora. A minha sorte foi a Copa Santa Catarina. O JEC estava em terceiro e estava com dificuldade de ganhar a Copinha. Eu fiz uma reunião com os jogadores e disse: ou ganhamos a Copinha ou não vamos ter credibilidade nenhuma porque o JEC é o time mais forte e tem a obrigação de vencer. No jogo seguinte empatamos fora contra o Concórdia e depois as coisas foram acontecendo. A Copinha foi o diferencial, quando chegamos na C, o time tinha entrosamento, credibilidade e confiança”, conta Arthurzinho.

Arthurzinho foi homenageado pela torcida e deu ao JEC o primeiro título nacional da história do clube – Foto: Arquivo/NDArthurzinho foi homenageado pela torcida e deu ao JEC o primeiro título nacional da história do clube – Foto: Arquivo/ND

E tudo isso foi colocado em campo. Jogo após jogo. No grupo 4 com Brasil de Pelotas, Santo André, Caxias e Chapecoense, o JEC tinha uma missão difícil pela frente. Primeiro jogo, empate fora de casa contra o Brasil de Pelotas, seguido de dois bons resultados em casa, vitória contra a Chapecoense e contra o Santo André.

Contra o Caxias, no Rio Grande do Sul, empate e novo empate contra o Santo André, também fora de casa. Voltando para Joinville, o baque: derrota para o Caxias por 4 a 2 na Arena Joinville.

Mas seria o único baque, a única derrota, de todo o campeonato. Mas, um revés importante para a sequência da campanha. Depois, o Tricolor viajou ao Oeste de Santa Catarina para enfrentar a indigesta Chapecoense, pedra no sapato tricolor, time que o Joinville não costumava vencer fora de casa. O resultado? Vitória por 2 a 0 e goleada na rodada seguinte por 5 a 2 contra o Brasil, na Arena.

Classificado na vice-liderança do grupo, o JEC chegou à segunda fase no grupo com Chapecoense, Brasiliense e Ipatinga. Foram 5 vitórias e um empate.

O jogo do acesso, em Brasília, rende um capítulo à parte. Partida na segunda-feira, à tarde, Mercado Municipal lotado, torcida se espremendo para acompanhar o jogo nos telões instalados e uma cidade inteira parada, em plena segunda-feira, por horas, durante o jogo e até a chegada dos jogadores durante a madrugada. O 4 a 1 na capital do país rendeu ao JEC o tão sonhado acesso e, de quebra, a vaga na final.

O CRB até tentou, mas empurrado por uma nação tricolor, o JEC não deu chance ao time alagoano. Duas vitórias, 3 a 1 fora de casa, 4 a 0 na Arena Joinville que abrigou mais de 20 mil pessoas e o grito de “É, campeão!”, que parecia irromper pelo Estado.

No jogo de ida, Ricardinho, Glaydson e Aldair balançaram a rede. Em casa, Lima, Eduardo, Pedro Paulo e Gilton deram motivos de sobra para o torcedor sorrir na arquibancada. Era o primeiro título nacional da história do Coelho que, naquela Série C, desbancou todos os times do país e, de taça na mão, ainda cravou a melhor campanha entre todas as séries do futebol brasileiro.

Em 16 jogos, foram 11 vitórias, 4 empates, 1 derrota, 38 gols marcados e 16 gols sofridos.

“Só perdemos um jogo. Foi uma campanha inesquecível porque os times da Série C são do mesmo porte, não é como a Série A que tem times com investimentos diferentes. Disputamos um campeonato parelho, de igual pra igual. É inesquecível”, ressalta Arthurzinho.

A virada de chave e o acesso

A camisa 9 do Tricolor tinha peso e história. Aos gritos de “Uh terror, o Lima é matador”, o atacante se tornou o maior artilheiro da história do JEC. E uma figura desse tamanho tinha que fazer parte da primeira grande conquista nacional do time.

Artilheiro do Campeonato Catarinense daquele ano, Lima  lembra que existia muita expectativa do grupo para o acesso. Mas, antes de iniciar a Série C, uma lesão, uma cirurgia e muita incerteza. O destino no futebol, no entanto, não segue uma lógica e o camisa 9 voltou, marcou, ajudou o time na campanha histórica e lembra com detalhes do jogo que, para ele, foi a virada de chave.

“Fomos para Chapecó, eles eram líderes, não perdiam em casa. Eu ainda estava machucado e muita gente não acreditava no nosso time. Vencemos por 2 a 0, depois disso, falamos no vestiário: vamos subir. Lá foi o ponto de partida”, relembra.

O jogo diante da Chapecoense é quase unanimidade quando se trata de momentos marcantes daquela campanha. “Lembro que quando acabou o jogo, o Lincoln veio me abraçar dizendo que queria agradecer, ‘a gente nunca ganha aqui’, disse. Ali eu senti que o time pegou confiança porque derrotou um adversário que praticamente temiam, as coisas foram se ajeitando e deu no que deu. Sou muito orgulhoso do que aconteceu”, ressalta Arthurzinho.

Para Pedro Paulo, a derrota para o Caxias em casa, a semana de trabalho e a vitória contra a Chapecoense formaram um conjunto crucial para a conquista do Tricolor.

“Perdemos para o Caxias e, geralmente, na segunda tínhamos folga. Mas, o Arthur deu treino na segunda, ficamos chateados, mas fomos para o treino. Estava chovendo, eu subi e fui correr sozinho. Eu tinha vindo de uma desclassificação com o Remo no ano anterior e, correndo, conversando com Deus eu falei: não é possível que vou ser desclassificado de novo. Senti uma coisa positiva que venceríamos a Chapecoense no domingo”, recorda.

Em 16 jogos, o JEC perdeu apenas uma partida naquela que foi a melhor campanha entre todas as séries do futebol brasileiro – Foto: Arquivo/JECEm 16 jogos, o JEC perdeu apenas uma partida naquela que foi a melhor campanha entre todas as séries do futebol brasileiro – Foto: Arquivo/JEC

“Durante a semana já falávamos disso, a nossa semana de trabalho foi muito diferente por tudo que esse jogo representava. Na nossa roda antes do jogo, o Ronaldo Capixaba falou que nós venceríamos, e ele nunca falava nada. Por isso pareceu uma confirmação. Fizemos um jogaço, todos que estavam lá, lembram. Ali vimos que não tinha mais volta, subiríamos”, lembra.

A vitória em Chapecó veio, a classificação para a segunda fase também, as vitórias continuaram e chegou o jogo que poderia marcar o acesso à Série B. Brasília, calor e a chance de mudar a história do JEC. Em Joinville, Mercado Municipal lotado, empresas liberando funcionários durante a tarde, clima de decisão. A mística da maior cidade de Santa Catarina chegou até a capital do país.

“Nós tínhamos a informação que seria transmitido no Mercado Municipal, passaram pra gente no vestiário as imagens de como estava. Vendo aquilo não tinha como não voltar com o acesso”, lembra Lima.

“Nós soubemos na preleção, sabíamos que o Mercado estava lotado e sabíamos como a cidade ficaria. Falamos: não tem volta, vamos pra cima deles”, complementa Pedro Paulo.

“Em Brasília estávamos com uma gana, tão preparados, nos comprometemos a correr um pelo outro sem reclamar porque sairíamos com o acesso. Nenhum clube do mundo conseguiria tirar aquilo da gente”, fala Eduardo.

O comprometimento deu resultado. E que resultado. 4 a 1 no placar e festa pelas ruas de Joinville, festa que se arrastou pela madrugada, até a chegada dos jogadores, por volta das 4h. No estacionamento da Arena Joinville, uma multidão esperava os heróis que, de Brasília, trouxeram uma vaga na Série B na bagagem, a vaga na final e ainda dariam o título a toda uma cidade.

Arena lotada, faixa “desvirada”, título e história

Uma verdadeira multidão. O maior público da história da Arena Joinville e, no entorno do estádio, quem não conseguiu ingresso se uniu para assistir ao jogo que daria o primeiro título nacional da história do JEC. Dentro do estádio, cerca de 20 mil pessoas cantavam e empurravam um time histórico para o baile final.

O público na Arena Joinville no dia 3 de dezembro de 2011 ainda é o maior da história do estádio – Foto: Arquivo/NDO público na Arena Joinville no dia 3 de dezembro de 2011 ainda é o maior da história do estádio – Foto: Arquivo/ND

Antes da goleada que sacramentou e coroou um trabalho praticamente perfeito, um momento emocionou Arthurzinho: a virada da faixa da União Tricolor. Com um então passado turbulento e dolorido, a torcida, em protesto, usava as faixas de cabeça para baixo, uma demonstração da insatisfação com os resultados que não condiziam com a história do clube.

Após o acesso, o ritual foi alterado e, na hora de colocá-las, jogadores e treinador estavam lá para ver, com os próprios olhos, uma ação simples, mas que tinha um peso e uma representatividade enormes.

“Aquilo me incomodava, eu falava que precisava virar aquela faixa. Ali eu senti uma sensação diferente. Nós estávamos ali parados antes de começar o jogo vendo as faixas colocadas de forma normal. Foi uma sensação diferente, especial”, recorda. Mas ele ganhou mais. E merecia.

“Tem umas coisas que me deixam muito orgulhoso. Na final, eles apareceram com uma bandeira com o meu rosto. Geralmente não colocam o técnico como um protagonista e eles fizeram isso por mim”, fala.

“A gente tinha que assumir a responsabilidade, a faixa de cabeça para baixo vinha de uma época atrás, mas tínhamos uma oportunidade de desfazer isso e quando aconteceu, soubemos que teria a virada de faixa. É uma sensação de dever cumprido, de entregar para a torcida, para a cidade, o que todos tanto queriam”, completa Pedro Paulo

O título parecia inevitável, e era. A energia da torcida era combustível para o time, que atropelou o CRB em casa por 4 a 0. Autor de um dos gols, Pedro Paulo lembra do clima diferente daquele grupo.

“Eu já senti o título após o primeiro jogo lá em Maceió, por tudo que nós fizemos lá, a forma como jogamos, a vitória, eu pensei: vamos atropelar esses caras. Essa era a nossa ideia. Eu joguei por 22 anos, mas esse time jogava com alegria, a gente se divertia jogando futebol. O Arthur conseguia fazer isso com a gente, era lazer com responsabilidade”, diz.

E o gol na final marcou a vida do zagueiro. “Eu ganhei dois títulos naquele ano e fiz gol nas duas finais, na Copa SC e na Série C. Aquele gol foi marcante, um dos gols mais importantes da minha vida, fica cravado na memória. Até hoje, quando entro na Arena eu me vejo correndo, arrancando e fazendo aquele gol”, conta.

Eduardo marcou um dos gols da goleada em cima do CRB em uma final com a Arena Joinville lotada – Foto: Arquivo/NDEduardo marcou um dos gols da goleada em cima do CRB em uma final com a Arena Joinville lotada – Foto: Arquivo/ND

Para Eduardo, que também deixou o seu gol, o título teve um sabor especial. “Para mim foi um gosto especial porque foi em cima do meu time do coração e ainda marquei um gol. Eu tenho um carinho muito especial pelo Joinville, estar na história do JEC é muito importante, é um marco importante na minha vida, foi onde retomei minha carreira. O JEC veio, mudou a minha vida, me abriu as portas, foi daí que voltei para a Série A. Um dia quem sabe eu volto para encerrar a carreira”, diz o lateral que marcou na pele o carinho pelo Tricolor, com um Coelho entre as suas tatuagens.

Ídolo, maior artilheiro, camisa 9… a história do JEC se funde com a de Lima. “Para mim é muito gratificante entrar para a história do clube, ficar marcado para o torcedor. Se tem um clube que marcou a minha vida foi o Joinville. Se passaram 10 anos, vão se passar 20 e o torcedor vai lembrar de mim, desse título. É um carinho que vou levar para o resto da vida”, garante.

Responsável direto por uma campanha épica, Arthurzinho guarda em um lugar especial da memória a conquista com o JEC. “Eu fico lisonjeado e orgulhoso pela situação em que eu cheguei aí. Chegar com time consolidado, com torcida já prestigiando, com o clube financeiramente saudável, você tem pouco trabalho para executar. Chegamos sem credibilidade, clube em baixa, jogadores desacreditados, a própria torcida não se sentia à vontade e nós fomos construindo isso tudo. Foi uma conquista. Foi tijolo por tijolo e eu me orgulho muito. Eu já ganhei outras coisas, mas essa foi uma das maiores, nós não tínhamos nada”, finaliza.

O primeiro título veio com uma campanha incomparável e a torcida teve, depois dessa conquista, que mudou os rumos do time, anos maravilhosos, de vitórias e conquistas. Três anos depois, o torcedor estava comemorando a Série B, seu segundo título nacional e a tão sonhada vaga na Série A.

Mas, foi em 2011 que tudo começou. Foi com esse time, com essa campanha e com esse trabalho que iniciou a melhor fase do Tricolor. Uma década da conquista que, pode não ser a maior quando se fala em peso de divisão, mas certamente é a conquista cravada no coração do torcedor tricolor.

A conquista que não sai da memória do torcedor

Felipe Feltrin acompanhou toda a campanha do título e lembra da emoção do título e do ano tricolor – Vídeo: Divulgação/ND

Danuta Malavolta lembra da campanha, da importância do elenco e do técnico para a conquista marcante da história tricolor – Vídeo: Divulgação/ND

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