Memória: Clube do Cupido, a geração que brilhou e marcou época no futsal de Santa Catarina

Apesar de uma rápida trajetória, um clube de futsal marcou época em Florianópolis com importantes conquistas e craques da bola.

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No último dia 28 de novembro, o Clube do Cupido, criado inicialmente como uma equipe de basquete por intermédio de um grupo de garotos, filhos de famílias tradicionais de Florianópolis que se reuniam nas escadarias do antigo Largo Fagundes, completou 63 anos de fundação.

Craques para sempre do Cupido. Silvinho, Franz, Luiz Flávio, Beto, Tamino, Júlio Cesar, Borges e Aciolli. – Foto: Arquivo ND/divulgaçãoCraques para sempre do Cupido. Silvinho, Franz, Luiz Flávio, Beto, Tamino, Júlio Cesar, Borges e Aciolli. – Foto: Arquivo ND/divulgação

A equipe voou alto, conquistando vários títulos Citadinos, estaduais e marcou época por ser o primeiro clube do estado na modalidade de basquete a excursionar fora do estado. Era “um clube de meninos, mantidos por meninos” como se dizia na época.

Tempos depois, o clube pediu licença na FAC (Federação Atlética Catarinense) para nunca mais voltar. Mas calma, leitores. A história do Clube do Cupido não acaba por aí. Preparem-se, pois, agora outra grande aventura vai iniciar. Só que em outra modalidade: no futsal. Em nossa viagem no tempo, partimos para o ano de 1969. Ano em que o Rei Pelé marcou o seu milésimo gol no Maracanã; ano em que o homem pisou na Lua pela primeira vez e também o ano em que na maternidade Carlos Côrrea, aqui na Capital, nascia este jornalista. Enquanto que nos Estados Unidos uma turma se reunia para brindar a “Paz e o Amor” ao som das guitarras no festival de Woodstock, aqui na pacata Florianópolis, um grupo de esportistas assumiu o comando do tricolor, como já dito, para formar um time de futsal.

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Em pouco tempo, uma rica história de conquistas. – Foto: Memorial/Cupido/NDEm pouco tempo, uma rica história de conquistas. – Foto: Memorial/Cupido/ND

CUPIDO: A ORIGEM DO NOME. Mas antes de relembrar os feitos antológicos desta equipe no futsal, uma curiosidade: por que o nome “Cupido”? Segundo o ex-atleta Roberto Rosa de Freitas, de 72 anos e conhecido no esporte como Beto “Boca” que atuava em todas as posições da quadra como um verdadeiro curinga

“quando a equipe de basquete foi criada, em 1959, o maior sucesso nas rádios era a música ‘Estúpido Cupido’, da cantora Celly Campelo”.

Na mitologia, Cupido é o deus do amor (para os gregos, Eros), representado com asas, às vezes de olhos vendados, e provido de arco e flechas, para acertar os corações. O Cupido virou então o clube do amor. Dá para entender: jovens estudantes, bonitos e atletas…

Campeão do Torneio Carlos Passoni Jr, em 1975. Em pé Vado, Celsom Bento, Marinho, Samarone, Zulmar e Meira. Agachados. Beto, Biasoto, Lauri, Ivan, Pipico e Tamino. – Foto: Beto Boca/acervo/NDCampeão do Torneio Carlos Passoni Jr, em 1975. Em pé Vado, Celsom Bento, Marinho, Samarone, Zulmar e Meira. Agachados. Beto, Biasoto, Lauri, Ivan, Pipico e Tamino. – Foto: Beto Boca/acervo/ND

TIME VENCEDOR.  Com a bola “pesada” rolando nas quadras da capital, logo o Cupido começou a colecionar vitórias e títulos. Em 1969, logo na criação da modalidade de futsal, o Cupido conquistou o Torneio de Verão e o Torneio Acácio Garibaldi. Silvinho, Franz, Luiz Flavio, Beto, Tamino, Júlio Cesar, Borges, Aciolli, Érico, Trilha, José Carlos e Neném eram nos nomes dos craques que começavam a conquistar torcedores e impressionar o futsal de Florianópolis.

Com tantos dribles do Aciolli e gols do artilheiro Tamino, que segundo Sérgio da Costa da Ramos, colega colunista aqui do ND, era um

“um malabarista que se equiparava em talento e maestria, ao jogador Falcão, escolhido como o melhor do mundo tempos depois”

o campeonato estadual era questão de tempo. E o primeiro troféu veio no dia 30 de dezembro de 1971, diante da forte e tradicional equipe do 12 de agosto: vitória por 3 a 2. O gol da vitória foi marcado pelo “cracaço” Tamino.

Beto Boca e Acioli, ex-craques do Cupido valorizam a amizade. – Foto: ND/divulgaçãoBeto Boca e Acioli, ex-craques do Cupido valorizam a amizade. – Foto: ND/divulgação

32 COBRANÇAS DE PENALIDADES NA DECISÃO. Na incrível conquista do segundo título estadual do Cupido, no dia 16 de dezembro de 1974,  diante da fortíssima equipe do BESC que contava com craques como Jipão, Delpizzo, Guerra, Rosendo Lima como treinador e o jovem Renato Sá que mais tarde atuaria no Avaí, Grêmio e Botafogo, uma situação inusitada: após um empate em 0 a 0 no tempo normal e na prorrogação para um ginásio do Colégio Catarinense completamente lotado, na decisão por pênaltis, 32 cobranças foram realizadas para apontar o campeão.

Jornal O Estado dedicou página inteira para a conquista do estadual de 1974 – Foto: Jornal O EstadoJornal O Estado dedicou página inteira para a conquista do estadual de 1974 – Foto: Jornal O Estado

Melhor para o Clube do Cupido, pois o goleiro Júlio Garcia – que depois ingressou com êxito na política – defendeu uma penalidade e em seguida, Biasoto definiu a conquista histórica. Loucura na quadra com a invasão da torcida para festejar com os campeões Julio Garcia, Aciolli , Biasoto, Raul, Franz, Beto Boca, Mário César e Tamino. Ricardo, filho do ala Carlos Alberto Borges (Borjão ou Parrudo) criança na época, estava na arquibancada do ginásio torcendo pelo seu pai, falecido em janeiro de 2006. E consegue lembrar com exatidão a dimensão da festa e de alguns jogadores adversários chorando na hora da premiação.

“Foi uma loucura. Lembro do Renato Sá, que depois migraria para o futebol de campo em lágrimas ao receber a medalha de vice-campeão”,

relembra Ricardo.

UM TIME, UM GRUPO DE AMIGOS.  O já citado “cracaço” Tamino, ou Auri Silva, de 76 anos, lembra com saudades da época do Clube do Cupido.  “Éramos uma família, tanto que a amizade dos atletas perdura até hoje, quando nos reencontramos”, relembra o artilheiro. E guarda na memória a qualidade da equipe nas quadras:  “Nosso time era todo completo, não havendo destaque de melhor jogador. Todos eram bons de bola”.

Reuniões ocorrem entre ex-atletas e familiares para relembrar a época de ouro do Cupido – Foto: Acervo Cupido/NDReuniões ocorrem entre ex-atletas e familiares para relembrar a época de ouro do Cupido – Foto: Acervo Cupido/ND

Acioli Vieira Filho o Acioli, 75 anos (irmão do Mirinho e filho do Accioly que vestiram a camisa do Avaí) serve como exemplo da forte amizade dos tempos do Clube do Cupido. “Quando o Beto “Boca” veio jogar com a gente, eu não gostava dele”, afirmou entre risos o craque do Cupido. “Mas bastou jogarmos juntos para começar uma forte amizade”.

Mas a pergunta que não calar: se o time era feito por amigos e acostumado a conquistar títulos, por que terminou em 1975? A resposta vem novamente do Beto Boca, que tem na sua casa guardado vários objetos do clube como troféus e documentos: “Coincidiu que neste ano, a maioria dos atletas estavam se formando nos seus cursos da Universidade. Cada seguiu a sua carreira, o seu caminho”, descreveu Beto “Boca”, que alerta:

“O cupido -o personagem mitológico símbolo da equipe – quando flecha o coração de alguém, o amor é para sempre, por isso o clube do Cupido nunca vai morrer em nossas memórias, é um caso de paixão eterna”.  

Clube do Cupido marcou época na Capital. – Foto: reprodução/NDClube do Cupido marcou época na Capital. – Foto: reprodução/ND

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