A edição foi totalmente atualizada – Foto: João LombardoNa noite de 30 de outubro de 2003, quando Florianópolis estava mergulhada num apagão que se prolongou por três dias, vinham à luz, na região serrana, os primeiros vinhos elaborados nas altitudes de Santa Catarina. Naquela noite, em São Joaquim, um pequeno grupo de vitivinicultores pioneiros e pesquisadores abria as primeiras garrafas dos vinhos elaborados com uvas Chardonnay, Cabernet Sauvignon, Merlot, Tempranillo e Syrah cultivadas acima dos 900 metros com relação ao nível do mar. Foi um momento mágico, um marco no nascimento de uma nova região produtora de uvas e vinhos em Santa Catarina e no Brasil.
Daquela noite histórica até os dias de hoje, várias mudanças ocorreram na vitivinicultura das altitudes. Castas clássicas francesas, vistas inicialmente como as mais promissoras na região, passaram a dividir os campos com variedades italianas, que se adaptaram muito bem ao clima e solo dos terrenos elevados. E estão gerando belos vinhos. A propósito, diversos estilos de vinhos passaram a ser produzidos na região: espumantes, brancos, rosés, tintos e vinhos doces naturais. Em julho passado, os produtores construiram a nova região foram brindados com a aprovação, pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial – INPI, da Indicação de Procedência (IP) Vinhos de Altitude de Santa Catarina.
Em duas décadas de existência, pode-se dizer que a vitivinicultura de altitudes caminhou a passos largos, apresentando ao mercado vinhos de excelente qualidade. Detalhes dessa história podem ser vistos no livro “Gourmandises Catarinenses”, cuja segunda edição, atualizada, acaba de chegar ao mercado.
SeguirEscrito por este colunista e idealizado pelo publicitário Roberto Costa, da Propague, a primeira edição do livro foi lançada no final de 2013. Este ano a obra traz novas informações e detalhes não apenas sobre a vitivinicultura de Santa Catarina, mas também sobre a produção de cervejas artesanais e destilados. Além disso, conta a história da formação e desenvolvimento da culinária catarinense, desde o homem do sambaqui até os dias de hoje, passando pela chegada dos imigrantes, a partir do século XIX. Os ingredientes, pratos da tradição e a nova culinária, construída com produtos Premium elaborados no estado, podem ser vistos nas páginas e em 64 receitas preparadas por renomados chefs. Um grande voo sobre a gastronomia catarinense.
Os vinhedos de altitude – Foto: MarkitoO vinho
Na área do vinho, Gourmandises Catarinenses informa que no apagar das luzes da década passada havia mais de 500 vinhedos nas altitudes, cobrindo uma área de aproximadamente 270 hectares. A IP Vinhos de Altitude de Santa Catarina foi a segunda, na área de vinhos, reconhecida no estado. A primeira foi a IP Vales da Uva Goethe, na região Sul. Segundo o presidente da Vinhos de Altitudes Produtores Associados, Humberto Conti, a produção de vinhos finos na região, neste momento, gira em torno de 1 milhão de garrafas. Há cerca de 150 rótulos elaborados ali, conta a obra.
A Cabernet Sauvignon continua sendo a casta mais plantada nas altitudes. Inicialmente foi a aposta. Gourmandises Catarinenses mostra que, por problemas de amadurecimento completo em áreas mais elevadas, a variedade sofreu uma redução considerável nos plantios, quase metade. Uvas como a Sauvignon Blanc e a Pinot Noir tiveram as áreas ampliadas, mostrando a vocação da região para elas. Diversas castas italianas foram plantadas. A Montepulciano e a Sangiovese, ambas tintas, se adaptaram muito bem. A Garganega e a Vermentino, brancas, também. Cerca de 15 variedades italianas frutificam nos campos de altitude. Há cerca de 60 diferentes castas europeias plantadas na região.
Vinhos estruturados são produzidos nas altitudes – Foto: MarkitoNa vitivinicultura em geral, o livro mostra que há cerca de 188 municípios catarinenses produzindo uvas nas regiões Sul, Meio-Oeste, Planalto Serrano, Vale do Rio Tijucas e Vale do Itajaí. A produção anual de vinhos gira em torno de 35 milhões de litros, majoritariamente vinhos de mesa, feitos com uvas híbridas e americanas. São 95 empresas vinícolas registradas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA. O livro apresenta e desfila os rótulos de 29 viticultores e vinícolas em operação.
Cerveja
São produzidos cerca de 60 estilos de cervejas no estado – Foto: MarkitoGourmandises Catarinenses também conta a história da produção da cerveja em Santa Catarina. Relata que, em 2020, havia 175 cervejarias catarinenses com plantas físicas registradas no MAPA. Uma atividade em franco crescimento. Quarenta e oito estilos de cervejas produzidas no estado são descritos em detalhes, na obra, que apresenta também 27 cervejarias locais, em operação.
Destilados
Santa Catarina é um importante produtor de cachaças de qualidade. O livro conta que, no estado, há cerca de 2 mil produtores da bebida, a maior parte informal. São produzidas cerca de 150 marcas de qualidade em território catarinense. Santa Catarina também elabora um destilado emblemático, o steinhaeger, à base de sementes e raízes, entre elas o zimbro e o trigo.
O marreco é um clássico catarinense – Foto: MarkitoCulinária
A culinária indígena, as influências, receitas e técnicas das 24 etnias que hoje habitam o estado contribuíram para a alicerçar a cozinha tradicional de Santa Catarina. O livro mostra as contribuições que alemães, italianos, africanos, poloneses, tiroleses, ucranianos, sírios, libaneses, gregos e japoneses, entre outros povos, deram à gastronomia catarinense. Mostra ainda que ingredientes como o aipim, o milho, os pescados e frutos do mar, o pinhão, o frango e a carne suína são basilares na culinária do estado.
Mas o pato também brilha em receitas contemporâneas – Foto: MarkitoGourmandises Catarinenses registra também a nova fase da culinária catarinense, inaugurada com a produção de ostras. Vieram nessa esteira vieiras, siri mole, cortes de pato, embutidos, queijos e chocolates finos e conservas, entre outros produtos. Com eles, uma legião de novos chefs edificam uma nova e sofisticada culinária em Santa Catarina. Um show de receitas encerra o livro, de 232 páginas, com fotos de Markito e André Moeck, design de Juan Rivas Beasley, produção e apoio editorial de Antoninha Santiago e Martin Lacava.