A previsão de ressaca e a passagem do ciclone Yakecan nesta semana no Litoral catarinense preocupam os moradores do Morro das Pedras, em Florianópolis, ameaçada pelo avanço do mar.
Clara Araújo mora há décadas com o marido na orla da praia – Foto: Leo Munhoz/NDSão cerca de 12 casas que estão em área de risco devido à erosão marinha. A moradora Clara Araújo, de 63 anos, vive com o marido há 42 na orla da praia. Sentada em bags (sacos de areia) usadas para a contenção do mar, ela conta que no último ano a casa tremia devido às ondas.
“Todos ficam apreensivos, com medo. Quem não mora aqui direto está vindo sempre para cá, com medo ou perguntando sempre. É uma incerteza da gente, né? A gente sabe que que dá para conter isso aqui”, afirma Clara. “Se não conter vai ser pior, vai comer até a estrada, vai tudo embora. Vai virar um monte de escombros.”
SeguirPrejuízos se acumulam
A situação se arrasta há pelo menos um ano em função de uma grande ressaca que atingiu as casas e provocou prejuízos — para Clara e o marido foram cerca de R$ 40 mil.
“A prefeitura diz que vai fazer a contenção, um ano isso. A minha casa sofreu bastante rachaduras. Acho que o meu prejuízo é o menor de todos, em torno de R$ 40 mil, quase R$ 50 mil de mão-de-obra, material, fora advogado, que foi cerca de R$ 5 mil”, explica.
As perdas de Lúcia Prazeres, de 61 anos, forma ainda maiores. Desde maio do último ano ela gastou cerca de R$ 130 mil em obras de contenção.
“Em nenhum momento, nesse período, a Defesa que tem todo esse mapeamento de quando vem ciclone, pegou o telefone, ligou e comunicou para nenhum de nós. Ontem, quando a gente viu a situação, mandamos buscar mais bags, porque nós vamos fazer uma linha de bag, porque a gente sabe que vem um mar alto”, desabafa.
Os moradores reivindicam a construção de um enrocamento para impedir que o mar avance ainda mais. No ano passado, após uma série de estragos, 14 casas foram atingidas e 11 chegaram a ser interditadas.
A casa de Lúcia é a primeira da rua e está há 52 anos na orla da praia. Além de contar os prejuízos, ela fala de como é difícil ver o avanço do mar na casa que tanto ama.
Lúcia Prazeres, de 61 anos, diz que já gastou R$ 130 mil entre mão-de-obra e prejuízos causados pelo avanço do mar – Foto: Leo Munhoz/ND“Eu chamei geólogo, eu já chamei o oceanógrafo, eu tenho verdadeira paixão por esse lugar e estou desolada, porque eu estou vivendo o que eu vivi há um ano atrás”, afirma.
Prefeitura diz que projeto está em elaboração
A prefeitura informou nesta terça-feira (17) que “o projeto para construção da proteção do talude de areia no Morro das Pedras está em elaboração”, mas não detalhou o que está sendo realizado nesta semana — a previsão é de mar agitado e ressaca nos próximos dias.
A comunidade acionou a prefeitura de Florianópolis na Justiça pedindo a realização de obras emergenciais para dar mais segurança aos moradores. A decisão do poder judiciário foi favorável aos moradores, mas a obra ainda não foi realizada.
Clara Araújo recorda que a casa tremia no último ano, quando o avanço do mar destruiu parte de sua casa – Foto: Leo Munhoz/ND“Há um trabalho e um dizer [da prefeitura] de colocarem bag para encher de areia e fazer a proteção das casas. E, posteriormente, o trabalho e luta da conquista das paliçadas [cerca feita com estacas fincadas na terra]”, diz o vice-presidente ACMP (Associação Comunitária do Morro das Pedras), Roberto Gercino dos Santos.
“Algumas casas fizeram com verbas privadas, mas o poder público sim, tem que fazer a sua ação e é isso que nós esperamos. A preocupação realmente é muito grande de toda a população e da comunidade do Morro das Pedras”, ressalta.
Previsão para próximos dias preocupa
Entre esta terça (17) até sexta-feira (20), a Defesa Civil estadual informou que o mar ficará muito agitado. A condição deve se intensificar principalmente na quarta (18) e na quinta-feira (19) quando o ciclone estará mais próximo da costa.
Além disso, a maré de sizígia provocada pela lua cheia deixa o mar mais agitado e as ondas maiores. As ondas devem variar de 2 a 3 metros de altura, com picos de 5 metros na Grande Florianópolis.
Morro das Pedras tem risco de ressaca e mar agitado nesta semana – Foto: Leo Munhoz/NDA Defesa Civil municipal está monitorando o ciclone que está em alto mar. O diretor da Defesa Civil de Florianópolis esteve nesta manhã no local.
“Ano passado, neste mesmo período, tivemos um sinistro bastante intenso no Morro das Pedras. Iniciamos agora o monitoramento tendo em vista a temporada de ressacas. A maré está recuada pela manhã, mas segue nossa preocupação, tendo em vista a previsão para as próximas 48 horas”, completa.
Monitoramento estadual
A Defesa Civil do Estado também acompanha a formação e o deslocamento da tempestade subtropical Yakecan entre a costa do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. As equipes de monitoramento seguem o fenômeno em tempo real.
Na tarde desta terça (17), os ventos atingiram velocidade superior a 75km/h no Estado: em Urupema, as rajadas chegaram aos 75,3km/h, em Siderópolis 65,8 km/h e em Rancho Queimado, na Grande Florianópolis, 62,1 km/h.
De acordo com a Defesa Civil estadual, até a noite de quarta-feira (18), o sistema pode se intensificar e ganhar características de tempestade tropical, trazendo ventos contínuos de 75 km/h.
Já as condições marítimas incluem ressaca e alagamentos costeiros, e o órgão já emitiu avisos meteorológicos.