Binário com menos faixas de pedestres privilegia carros e traz preocupação, avalia UFSC

Proposta passa por ajustes finais e deve ser realizada na segunda quinzena de abril; prefeito universitário diz que obra tem "teor rodoviarista"

Maria Fernanda Salinet Florianópolis

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A diminuição de faixas de pedestres para a implementação do binário entre os bairros Pantanal e Carvoeira, em Florianópolis, é motivo de preocupação para a UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

O prefeito universitário, Hélio Rodak de Quadros, avalia que, diante do atraso da obra, o que está sendo realizado é um passo para melhorar a mobilidade urbana, mas aponta que “favoreceu muito quem está vindo de carro e o pedestre ficou prejudicado”.

Obras da Edu Vieira, em Florianópolis, se arrastam há anos – Foto: Leo Munhoz/NDObras da Edu Vieira, em Florianópolis, se arrastam há anos – Foto: Leo Munhoz/ND

Segundo Quadros, ao diminuir o número de acessos para quem trafega a pé, como as faixas e os semáforos, a obra adquire um “teor rodoviarista”, e a comunidade universitária, que vai a comércios e restaurantes próximos, reclama das alterações.

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“É um clima de insatisfação com a obra da Edu Vieira, a dinâmica da obra, o barulho, as escavações, as mudanças de travessias. Ela reduziu os pontos de passagem para pedestre. Tentamos dialogar com a prefeitura para investir em mais sinalização, faixas, semáforos, mas a prefeitura argumenta que isso atrasaria os carros”, explica.

No entanto, Quadros reforça que há quase 10 mil pessoas que caminham por ali, e que seria injusto ignorar essa parcela da população.

O que diz a prefeitura

Por outro lado, a prefeitura da Capital diz que trabalha com “conceitos urbanísticos que valorizam a mobilidade ativa e o transporte coletivo, que contemplam as recomendações elencadas como parte das estratégias de planejamento que vêm sendo continuamente adotadas”.

Além disso, reforça que mantém diálogo com moradores, representantes da comunidade local e a comunidade acadêmica, “a fim de ouvir sugestões e implementar possíveis ajustes após análise técnica”.

A proposta passa por ajustes finais e deve ser realizada na segunda quinzena de abril. O objetivo é transformar as vias de mão dupla, que sofrem com fluxo excessivo de veículos, em mão única.

Já em relação à diminuição de faixas de pedestres apontada pela UFSC, a administração municipal não se manifestou até a publicação deste texto. O espaço segue aberto.

Criação de ciclovias e corredor de ônibus

A UFSC e a prefeitura assumiram um protocolo de intenções em 2014, com diretrizes e contrapartidas, para a cessão de parte do terreno pertencente à universidade para a duplicação da rua Deputado Antônio Edu Vieira, no Pantanal.

Entre essas intenções estava a construção de ciclovias “ao longo de todo o trecho da obra até o Saco dos Limões, assim como as ruas no entorno da UFSC e as ruas internas”.

Porém, a desistência das empresas contratadas por meio de licitações ao longo dos anos fez a obra atrasar, como pontua Rodak de Quadros. Assim, “a prefeitura fez uma versão mais ‘seca’ para tentar entregar um capítulo da obra da Edu Vieira”, diz.

O prefeito Topázio Neto (PSD) explicou, em entrevista exclusiva ao Grupo ND, que a implantação do binário não se finaliza na liberação do trânsito, pois, segundo ele, outras obras serão realizadas, como calçadas, a adaptação de rótulas e a revisão das linhas de ônibus.

Mas neste momento, segundo Rodak de Quadros, ainda não está claro como a prefeitura vai priorizar o sistema de transporte público. “Se o ônibus não tiver uma certa preferência, vai ser mais um carro que vai ficar parado.”

Por isso, o Gipedu (Grupo Interdisciplinar de Pesquisa em Ecologia e Desenho Urbano), coordenado pelo professor Francisco Antônio Carneiro Ferreira, defende que o binário deve ser uma medida “transitória, até que se implante o Corredor de Transporte BRT, que deveria ser prioridade”.

Além disso, o grupo propõe a criação de ciclovias seguras e em rede para incentivar a locomoção por bicicleta. Em nota, o Gipedu diz que “cabe implementar o programa de regularização de calçadas das servidões, a fim de garantir maior segurança para pedestres”.

A Prefeitura de Florianópolis afirma que o binário prioriza a valorização da rede cicloviária, mas que, no momento, o espaço é compatível apenas com a implementação das ciclofaixas.

“Outros objetivos são evoluir na intervenção no local mediante um plano gradativo, implantando de forma evolutiva a melhoria dos pedestres, espaços para ciclistas e criação de corredores de transporte coletivo. Para tanto, estão sendo mensurados os recursos e as melhores estratégias que garantam de forma sustentável a implantação”, diz em nota.

Já a proposta do grupo é a criação de ciclovias, separadas fisicamente das pistas por onde circulam os carros, o que torna o trajeto mais seguro para os ciclistas.

Atualmente, nas principais vias no entorno da universidade há ciclofaixas, como a da avenida Desembargador Vítor Lima, e ciclorrotas, como a da avenida Lauro Linhares.

Binário deve reduzir tempo médio de deslocamento, diz prefeitura

A implementação do binário entre os bairros Pantanal e Carvoeira deve diminuir em até 60% o tempo médio de deslocamento na região, segundo os estudos realizados pela prefeitura.

O prefeito Topázio Neto explica que a redução ocorre porque o trânsito vai ter maior fluidez.

Para isso, a ideia da administração municipal é, além do binário, implementar ciclofaixas tanto na Edu Vieira quanto na Romualdo de Barros para fazer a conexão do Sul da Ilha com a região da UFSC e da Beira-Mar Norte.

De acordo com Michel Mittmann, secretário de Mobilidade e Planejamento Urbano, o principal ganho da obra do binário é a diminuição do tempo de viagem.

“Além das melhorias que o prefeito falou, como a mobilidade ativa, tem casos que a gente alcança até 90% de melhoria do tempo. Só dois casos que temos uma situação muito específica em que há um pouco de perda da velocidade geral do sistema.”

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