O grande volume de água criado com as chuvas que assolam Santa Catarina rompeu novamente a barreira que impedia o rio do Brás, em Canasvieiras, Florianópolis, de desaguar no mar. A corrente poluída de água sofre com o depósito de esgoto bruto, o que rendeu à Casan (Companhia Catarinense de Águas e Saneamento) uma multa de R$ 1,5 milhão ainda neste mês.
Rio do Brás estoura de novo após ser estancada sua foz há uma semana.
Posted by Itacir Ambrosi on Monday, December 19, 2022
Uma situação semelhante ocorreu no começo de dezembro e deixou a praia suja e cheia de plantas. A Prefeitura de Florianópolis criou uma barreira para “manter a segurança dos moradores”, desfeita na tarde desta segunda-feira (19).
SeguirAlém da sujeira gerada, há riscos à saúde da população local e à balneabilidade da praia, que deve ser afetada sobretudo neste verão, com temporais e grande fluxo de turistas.
“A praia está novamente poluída, lamentavelmente. Isto é um crime ambiental. As pessoas precisam ser avisadas para não entrarem no mar”, lamenta a moradora Marize Pereira da Costa, que gravou o vídeo do momento em que a barreira se rompe e lamenta a repetição de um problema antigo.
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Presidente do Instituto SOS Rio do Brás, o geógrafo José Luiz Sardá afirma que a situação é recorrente no verão e pede uma solução definitiva em vez das paliativas adotadas.
“Em 2018, a prefeitura fechou a foz do rio de vez, despejando muita área para resolver o problema de balneabilidade. Apareceram plantas macrófitas, indicativas de fósforo e nitrogênio que dificultam a oxigenação do ambiente. Desde o início deste ano, a prefeitura não fez a limpeza das plantas”, afirma.
Sardá explica que o instituto deseja que a corrente volte a ser aberta, como sempre foi, mas com a despoluição, que afeta também seus afluentes, como o Rio Papaquara, hoje assoreado.
“O rio Papaquara tinha cinco metros, hoje tem meio metro. Quando os afluentes são despejados, ficam estagnados no leito. Tem um fedor que incomoda a população”, conta.
A SOS Rio do Brás busca a revitalização de toda a região, com uma trilha ecológica. Há conversas com a prefeitura para um experimento de usar oxigênio dissolvido no rio. A ideia é despoluir, dragar e construir molhes. Há ainda o pedido para que a multa aplicada à Casan seja revertida diretamente à solução do problema no local.
De acordo com Paulo Horta, biólogo e professor da UFSC (Universidade de Santa Catarina), análises feitas antes das chuvas apresentaram resultados preocupantes quanto a presença de efluentes não tratados para o rio do Brás.
As análises constataram que há esgoto residencial lançado diretamente na água. Horta acredita que o fechamento se dê em razão da temporada de verão que se aproxima, para garantir a balneabilidade do espaço.
O último relatório de balneabilidade divulgado pelo IMA-SC (Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina) aponta um ponto impróprio para banho na praia de Canasvieiras, em frente à Avenida das Nações.
O que diz a Casan
A prefeitura de Florianópolis multou a Casan pois constatou a inoperância da EEE (Estação Elevatória de Esgoto) na rua Madre Maria Milac, junto ao leito do Rio do Brás. o município afirma que não havia nenhuma bomba em funcionamento, o que permitiu o vazamento de esgoto bruto na água.
A Companhia, por sua vez, afirma que a URA (Unidade de Recuperação Ambiental), opera dentro dos padrões ambientais. O presidente da SOS Rio do Brás, José Luiz Sardá, discorda.
Procurada pela reportagem do ND+, a Casan afirma que “é responsável pelo abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto. O que ocorre com a chuva não tem relação alguma com a URA. Quem monitora isso é a prefeitura”.
A empresa ainda diz que Canasvieiras possui cobertura de coleta e tratamento de esgoto 96% – os outros 4% serão atendidos quanto entrar em operação a ETE do bairro Ingleses. As casas não atendidas pela rede, entretanto, precisam ter tratamentos de esgoto individual, uma vez que despejar clandestinamente é crime ambiental.
O que diz a Prefeitura de Florianópolis
“O Município informa que está acompanhando, por enquanto, a cheia do Rio do Brás, como também os impactos da chuva em toda a cidade. A última ação feita foi emergencial e de manutenção da foz, por conta das fortes chuvas ocorridas na ocasião”.
A reportagem segue disponível para novas explicações.