O atraso do Contorno Viário da Grande Florianópolis é uma realidade montada no passado e ainda instaurada no presente. Com as incertezas da entrega da obra, há uma preocupação em voga e plenamente justificada: o futuro da estrutura que, com tamanha defasagem, vê os problemas margearem os 50 quilômetros de extensão da via.
Obras no entroncamento entre o Contorno Viário e a BR-101 no trecho Norte – Foto: André Viero/NDTVPensado no longínquo ano de 1998, lá se vão 25 anos entre o que foi idealizado e o que deverá ser entregue. Paralelo a expectativa pela entrega, paira a certeza de que muitos problemas se desenham no entorno uma vez que o corredor cortará quatro municípios e influenciar em todo o eixo da região.
O governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), em entrevista concedida ao Grupo ND, falou sobre o tema. Sem dar muitos detalhes, revelou que a SIE (Secretaria de Infraestrutura do Estado) está “cuidando do assunto”.
A fala do chefe do Executivo de Santa Catarina, inclusive, realça o sentimento de que o problema é bem maior e o Estado não está assertivamente preparado para estruturar as vias de acesso tão cedo.
A SC-281, por exemplo, já apresenta problemas estruturais envolvendo os moradores de São José. A SC-407, que conecta a BR-101 até o município de Antônio Carlos, é outra que vai precisar de atenção.
Confira o trecho da SC-281 que liga a BR-101 até Angelina:
Veja o trecho da SC-407, que dá acesso da BR-101 até próximo do Contorno Viário:
De prontidão sobre essa realidade e uma das instituições mais ativas em busca de soluções para tamanha ineficácia, o Grupo ND mergulhou fundo no tema para expor os problemas, entender a demora e, mais que isso, constatar uma quase inevitável alteração de prazo na entrega da obra que é esperada há, pelo menos, 11 anos.
Caminhoneiros alertam para gargalos
“Eu sou caminhoneiro há mais de 25 anos e conheço cada centímetro desse trecho da Grande Florianópolis, na BR-101. A sensação que eu tenho é que, com o Contorno Viário, nós só vamos mudar o gargalo que vai deixar de ser essa parte da entrada na ilha para transbordar nos acessos”, revelou João Guilherme de Arantes Silva, 53 anos, caminhoneiro e natural de Passo de Torres, extremo Sul de Santa Catarina.
Quem também segue essa linha é o motorista Juarez Antônio Cruz, natural de Santo Amaro da Imperatriz, que encara a travessia até a Ilha de Santa Catarina, todos os dias, pelo menos, duas vezes. Ele vê a BR-282, por exemplo, como outro local que já não suporta o atual fluxo.
“Não tem estrutura nenhuma, tem vezes que é carro, caminhão, moto, bicicleta, pedestre e animais dividindo, praticamente, o mesmo espaço. Eu não sei qual é a mágica que eles estão pensando que vai acontecer, que tudo vai ser resolver com a entrega do Contorno”, refletiu Juraez.
Trecho da BR-282, que liga a Grande Florianópolis à Serra de Santa Catarina – Foto: Leo Munhoz/NDPreocupação com os reflexos
Essa situação foi repetidamente externada pelos representantes das entidades envolvendo os transportadores rodoviário de cargas. É quase um reflexo inverso do que foi, na essência, idealizado em torno da obra: desafogar o trânsito dos arredores.
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Para o prefeito de Biguaçu, Salmir da Silva, são dois tipos de problemas, pelo menos, que são efeitos do Contorno Viário da Grande Florianópolis.
“O primeiro é em função da demora, o congestionamento vai aumentando a cada ano que passa. O segundo é que toda a obra traz um transtorno para a mobilidade onde a obra é cortada. Nós sofremos muito e ainda vamos sofrer com a execução em Biguaçu. Vias locais têm um impacto negativo muito grande porque as ruas não têm estrutura para veículos pesados. Tudo isso traz um desgaste e um problema para a região, como um todo”, observa.
Assim como os caminhoneiros que trafegam rotineiramente pelas rodovias catarinenses, o secretário-executivo da Câmara de Transporte e Logística da Fiesc (Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina), Egídio Martorano, alerta que o “alívio” causado pela conclusão deve ser temporário.
“Devemos chamar atenção que o Contorno Viário não é a solução para o problema do congestionamento na Grande Florianópolis, pois exige de um planejamento sistêmico integrado, que passa pela melhoria de qualidade e eficiência do transporte público”, inclui.
O presidente da Federação, Mario Cezar Aguiar, levanta, também, a necessidade de cobrança nos poderes para que sejam realizados ainda mais investimentos.
Presidente da Fiesc, Mario Cezar de Aguiar – Foto: Leo Munhoz/ND“Esperamos que os nossos parlamentares cobrem o governo federal e a ANTT [Agência Nacional de Transportes Terrestres], principalmente, para a liberação de outras obras que podem melhorar a segurança, mobilidade e trafegabilidade da BR-101”, explica.
Já o presidente da Facisc (Federação das Associações Empresariais de Santa Catarina), Odílio Guarezzi, aponta que a rodovia não será usada apenas por condutores que trafegam do norte ao sul do Estado, mas também pelos motoristas que vão para as cidades da Grande Florianópolis e aponta a necessidade de investimentos nas vias de acesso.
“Como está a SC-281 para receber esse trânsito pesado que vem do Contorno, está pronta? Não pois está meio duplicada e sem infraestrutura nenhuma ou tipo de proteção e estrutura para receber. Como está a chegada da 281 ao município de São José? Continua uma via urbana que desemboca em uma sinaleira e já está totalmente congestionada sem o trânsito da nova via. Isso acontecerá também com a SC-407, via Antônio Carlos, e já ocorre com a BR-282. Infelizmente, parece que a esfera federal não conversa com a estadual”, exemplificou.
SC-281 é uma das rodovias que liga o Contorno Viário até a BR-101 e que já apresenta lentidão devido ao grande número de usuários – Foto: Marcos Jordão/NDAlém disso, o presidente da Fetrancesc (Federação das Empresas de Transporte de Carga e Logística do Estado de Santa Catarina), Dagnor Schneider, aponta que os problemas rodoviários são responsáveis por frear o crescimento econômico catarinense.
“Nós temos cinco portos na margem da BR-101, sendo uma região altamente desenvolvida financeiramente e corremos sérios riscos de um gargalo econômico em decorrência da falta de infraestrutura rodoviária para facilitar a fluidez para esses portos e travar o crescimento econômico. É imprescindível que tenhamos um planejamento mais acelerado a alternativa da BR-101”, conclui Schneider.
Obra não inclusiva
Em meio ao debate sobre as consequências da urbanização da BR-101, chama a atenção que o Contorno Viário – insistentemente celebrado como a maior obra rodoviária de infraestrutura do Brasil – não prevê a circulação de bicicletas.
Pelo contrário, de acordo com a Arteris Litoral Sul, a orientação é para que ciclistas evitem a região uma vez que não comporta espaço e tampouco velocidade para a travessia de ciclistas no local.
A empresa, ainda reitera, que trata-se da versão “final” da obra e, dessa forma, não há previsão de incluir um espaço para bicicletas.
Confira a nota da Arteris
O Contorno Viário de Florianópolis foi projetado para ser uma rodovia expressa, cujo principal objetivo é desviar o tráfego pesado e de longa distância do eixo principal da BR-101, na região metropolitana da capital catarinense. Nesse sentido, seguindo com o objetivo principal da via, a circulação de bicicletas no local não é indicada como segura e o projeto em execução, aprovado por todos os órgãos competentes, é o final.
Ceasa aguarda conclusão para mudar de endereço
Além da expectativa das entidades ligadas ao transporte rodoviário de cargas, a Ceasa (Centro Estadual de Abastecimento) também é parte interessada na liberação da rodovia.
Unidade do Ceasa, em São José, está cercada de área residencial, que impossibilita expansão – Foto: Ceasa/Divulgação/NDDe acordo com o diretor-presidente Rudinei José do Amaral, o órgão vem projetando uma maneira de deixar a unidade situada às margens da BR-101, em São José, para ser realocada próxima ao Contorno Viário.
“A Ceasa ficou no meio da cidade que também não suporta mais o comercial que recebe mais de 1 mil carros e conta com a circulação diária de 6 mil pessoas. Então, ficou pequena e, junto com o governo estadual, estamos estudando a possibilidade de transferência”, explicou o diretor-presidente.
Apesar disso, o local exato para a unidade ainda não está definida, mas o representante explica como será benéfico para o transporte de alimentos para outras cidades da região da Grande Florianópolis.
“Uma pessoa de Paulo Lopes leva uma hora para chegar até a Ceasa e com o Contorno Viário deverá levar menos tempo. Acreditamos que o nosso movimento vai dobrar a partir do momento que o rodoanel estiver funcionando. Além disso, os comerciantes que vêm de cidades vizinhas poderão diminuir esse tempo de até 30 minutos para chegar aqui”, exemplifica Rudinei José do Amaral, que ainda sonha com o aumento físico da unidade.
Unidade de São José recebe mais de 6 mil pessoas diariamente – Foto: Daniel Queiroz/Arquivo/NDAções para entregar o Contorno Viário
Na edição desta quinta-feira (3) do material do Contorno Viário, o atraso da década, a reportagem do Grupo ND trouxe a repercussão acerca de um relatório, elaborado pela Fiesc, apontando para uma demora de, pelo menos, mais seis meses para além da última data estabelecida.
De acordo com o diretor de Operações Sul da Arteris, obras do Contorno Viário estão 83% concluídas – Foto: Leo Munhoz/NDA previsão é do engenheiro e consultor da Federação, Ricardo Saporiti em que percorreu toda a obra. Além da Arteris, que refutou a ideia do adiamento, o ministro dos Transportes, Renan Filho; o governador Jorginho Mello; juntamente de outras lideranças locais, asseguraram a entrega da obra.
“Não temos nenhum motivo para não acreditar. As obras estão andando, está tudo caminhando e dezembro de 2023 é o nosso objetivo”, aponta o presidente da Arteris, Sérgio Garcia.
“Teve uma evolução muito grande, desses 80%, mais da metade foram feitos nesses últimos dois anos e meio. Mostra que foi um aumento muito grande e faz a gente acreditar no prazo”, acrescenta.
O entendimento é compartilhado pelo ministro Renan Filho, que esteve na Grande Florianópolis e realizou a visita à obra. Para Renan Filho o prazo será cumprido.
“Aqui tem oito túneis, diversos viadutos, tem uma área de solo mole, o que acaba dificultando a obra. Mas essa obra será entregue esse ano e vai surpreender o povo catarinense. Ninguém nem imagina a magnitude desse investimento que está sendo feito aqui, que ao ser aberto, ele vai mostrar que o Brasil pode chegar muito mais longe do que as pessoas imaginam”, explica Renan Filho.
Com o objetivo de não deixar que a atual paralisação nas obras do trecho Sul seja um entrave para a entrega do Contorno Viário dentro do prazo definido, Antonio Cesar Ribas, diretor de Operações Sul da Arteris, explica que a estratégia é utilizar as empresas que já estão envolvidas nas atividades.
Ouça:
Ainda de acordo com Ribas, a previsão era que a obra estivesse com 85% concluída, mas atualmente está em 83%. Além de acordo com as empresas que já estão na obra, o diretor aponta ações que estão sendo estudadas para seguir o prazo como, por exemplo, trabalho em três turnos e aumento das equipes.
Além disso, ele sinaliza que reformar o cronograma das atividades é complexo em decorrência da necessidade de respeitar a etapa das obras. Por fim, aponta que a concessionária está agilizando trabalhos de sinalização com o objetivo de liberar atividades no trecho dentro do tempo determinado.
Confira:
Termo de Ajustamento de Conduta
Com uma década de atraso, prefeituras ingressaram com ações cobrando a entrega, que resultou na construção de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) que prevê o pagamento de uma multa diária por parte da concessionária de 5 mil vezes o valor da tarifa de pedágio, ou seja, R$ 23 mil diariamente por descumprimento do prazo atual, que é dezembro de 2023.
“O município tem a convicção que é necessário a aplicação das multas porque foi sentado e negociado, inclusive com Ministério Público e Justiça Federal. Entendemos que a maior penalidade é contra as pessoas. Então, não existe mais tempo para discussão pois é necessário ser cumprido. Por outro lado, que seja multado para que possamos mobilizar todos para conclusão”, aponta o prefeito de Palhoça, Eduardo Freccia.
À margem da entrega
Com uma obra postergada por mais de dez anos, é natural que a sociedade da Grande Florianópolis e de Santa Catarina torça o nariz toda vez que o assunto “prazo” vem à tona.
Além dos 11 anos de delay sobre o prazo inicial, foram, pelo menos, seis prorrogações de datas desde que a região virou um grande canteiro de obras da concessionária.
A partir de um trabalho de imersão na obra e no tema, o sentimento da reportagem do Grupo ND é de que a conclusão dos trabalhos, inevitavelmente, será adiada.
Ainda com base no que foi constatado o entendimento é que se a entrega for feita, será de maneira paliativa ou com detalhes a serem finalizados.
Esse pessimismo é reiterado pelas entidades e a população, conforme mostra a enquete levantada pela reportagem.
90% dos leitores acreditam que o Contorno Viário não será concluído em 2023 – Foto: ND+A resposta precisa ser dada pela concessionária. E precisa ser logo, uma vez que o prazo está correndo.