De ‘gatos’ a rompimentos: perdas na distribuição de água em SC são maiores que em SP

29/12/2022 às 05h15

Entenda como fraudes, vazamentos e áreas de risco geram desequilíbrio e elevam tarifas dos catarinenses

Fernanda Lanzarin e Lorenzo Dornelles Florianópolis

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Quase metade da água que é tratada e destinada às torneiras dos moradores de Florianópolis se perde pelo caminho – seja no sentido literal, ou no financeiro.

O índice de perdas d’água na Capital, de acordo com os dados do SNIS, é de 43,8% – número maior que a média do Estado (34%), da região Sul (36,8%) e do país (40,2%).

O dado ganhou evidência depois das cobranças públicas feitas pelo prefeito de Florianópolis, Topázio Neto (PSD), à Casan. Além de contestar os índices de coleta de esgoto, o prefeito mencionou o indicador:  “O contrato prevê que as perdas de água sejam abaixo de 26%”, contestou.

Índice de perdas na distribuição de água em Santa Catarina – Arte: Leandro Maciel/NDÍndice de perdas na distribuição de água em Santa Catarina – Arte: Leandro Maciel/ND

Fraudes, vazamentos, áreas de risco: onde se perde a água

As perdas d’água se separam em duas vertentes: as ‘perdas físicas’ e as ‘perdas comerciais’.  O primeiro grupo abrange toda água que fica pelo caminho  no percurso entre as estações de tratamento e as torneiras dos moradores.

Como por exemplo os rompimentos de canos, que podem ou não gerar alagamentos nas ruas – como foi visto em episódios recentes em que adutoras romperam na Capital.

Esses casos são os chamados “rompimentos visíveis”. A preocupação é grande por conta dos possíveis transtornos urbanos e danos materiais que os alagamentos em meio a cidades proporcionam.

Entretanto, do ponto de vista financeiro, a preocupação financeira é ainda maior nos vazamentos “ocultos”, por mais que eles sequer interfiram no dia a dia dos moradores.

“Os vazamentos que chegam na superfícies são rapidamente identificados,  a própria população liga e as equipes vão lá resolver. O maior impacto vem dos ocultos, que é um grande problema porque geralmente eles são de vazão pequena e em locais enterrados. Pode levar muito tempo até serem localizados. Nesse meio tempo é muita água que se perde”, explica a engenheira sanitarista da Casan, Andreia May.

Segundo ela, é difícil mensurar a frequência que esses vazamentos ocorrem, mas é possível afirmar que os ‘ocultos’ são muito mais frequentes que os ‘visíveis’.

Já as perdas ‘comerciais’ referem-se a toda água que chega a ser consumida, mas que não gera receita para a companhia. São os casos dos ‘gatos’, ou fraudes, no sistema de água.

Mas vale ressaltar que nessa vertente também se encaixam outros fatores, como a inexistência de leitura em áreas consideradas de risco e insegurança, a não cobrança em áreas de vulnerabilidade social, a disponibilização em hidrantes por parte do Corpo de Bombeiros e uso de caminhões-pipas para abastecimentos especiais em momentos de consertos de rede.

Segundo informações da Casan, as perdas físicas de água oscilam entre 20 e 24%, enquanto as perdas comerciais entre 15 e 19%.

O que diz a Casan: Por que é difícil controlar os índices na Capital?

Na avaliação da Casan, o número de perdas físicas em Florianópolis está “dentro do aceitável” (na casa dos 20%). No entanto, ele se junta ao índice de perdas comerciais para se considerar as perdas totais do município – que chega aos 43%.

Para a engenheira Andreia May, alguns fatores justificam a dificuldade em se controlar o índice das perdas comerciais no município.

“Cidades maiores são mais difíceis de conter as perdas. Além das fraudes, que infelizmente ainda ocorrem com frequência, são muitas regiões de difícil acesso e uma alta parcela de população carente, onde as tarifas não são cobradas, e isso se contabiliza como perda também”, diz.

Cidade catarinense perde quase 80% da água

A média atual de perda de água em Santa Catarina está em 34%. São perdidos 309 litros de água por ligação todos os dias. Em São Paulo, por exemplo, que tem uma população seis vezes maior, o registro de perda é de 287 litros por ligação diária.

No topo do ranking dos municípios que elevam a média catarinense em perdas d’água está Vargem, uma pequena cidade com apenas dois mil habitantes localizada na Serra, mas que registrou 1.508 litros por dia em perdas por ligação.

Na distribuição o percentual de perdas chama a atenção: 79,1%. De acordo com Sandro Kunen, diretor da SAMAE do município, o alto índice é reflexo dos sistemas antigos ainda existentes no município. “Começamos neste ano a aplicação de asfalto em vários pontos e junto com isso a renovação das tubulações, o que deve diminuir o índice das perdas d’água”, explica.

Os municípios de Imaruí, no Sul do Estado, e Irati, no Oeste, também perdem a maior parte da água que tratam: 62,6% e 54,5%, respectivamente.

Como evitar as perdas?

Utilizar 100% da água que é tratada e obter inteiro retorno financeiro disso seria um cenário de retornos inimagináveis – principalmente para economia, saúde e meio ambiente. Mas essa é uma realidade utópica, pelo menos até onde se pode prever no momento.

“Por melhor que seja o sistema de abastecimento, a infraestrutura e a manutenção, haverá perdas de água”, pondera a presidente do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto, ao destacar que “não existe perda zero”.

No entanto, ela ressalta que é possível – e extremamente importante – amenizar essas perdas, se investindo em materiais, tecnologia e equipes.

É o que reforça a engenheira Andreia May, que menciona as “várias frentes de serviço”. Quanto aos vazamentos ‘visíveis’, o investimento é necessário no maior número possível de equipes dedicadas a isso. “Quanto mais agilidade, melhor”, diz.

Já para o problema dos vazamentos ‘ocultos’, acompanhar a evolução da tecnologia é fundamental para a evolução na área.

“Temos técnicas para identificar os rompimentos, como por exemplo o geofonamento – com a utilização de um instrumento que escuta ‘ruídos’ embaixo da terra. É também importante as ações preventivas e corretivas em tubulações que já estão velhas, assim como o controle de níveis de reservatórios e a medição de volumes de água”, detalha May.

Combater as perdas comerciais também é um grande desafio. “Nesses casos, é importante a troca de hidrômetros, que é um equipamento que se desgasta e vai perdendo precisão. E também investir cada vez mais em campanhas caça-fraude”, conclui a engenheira.

Inteligência Artificial é aposta para aprimorar o controle

Veio da Finlândia uma alternativa para amenizar perdas na distribuição de água no Estado. A Casan firmou uma parceria em maio de 2021 com a empresa ORUS, em busca do auxílio da Inteligência Artificial no controle dos vazamentos.

O projeto foi implementado no município de São Miguel do Oeste, que de acordo com os dados do SNIS também conta com um elevado índice de perdas na distribuição: 46,9%.

As ações tomadas no município incluíram a criação de um modelo matemático e a implantação do Sistema de Monitoramento e Análise dos dados, em tempo real.

O sistema permite a localização exata de áreas com vazamentos, possibilitando a resolução em menor tempo.  Segundo a Casan, o tempo para encontrar o vazamento caiu de cinco dias para poucas horas.

Com isso, a expectativa é de queda nos gastos e no trabalho para substituição dos materiais, “pois troca-se menos de 30% da rede do que a média tradicional”, avalia a Companhia.

Prejuízo coletivo: ‘gatos’ atrasam saneamento e deixam tarifas mais caras

Os famosos ‘gatos’ no sistema de água – fraudes que tornam as tarifas de água muito mais baratas apesar do maior consumo – atraem inúmeros moradores pelo Estado.

A percepção geral  é quase de um “crime sem vítimas”, já que o consumidor reduz os próprios gastos e não se importa em deixar de pagar a companhia responsável pelo serviço.

Porém, os transtornos são muito maiores. “Essas fraudes afetam as receitas das empresas, e isso diminui o potencial de investimento delas, dinheiro que poderia estar sendo investido na ampliação das redes de água e esgoto, por exemplo”, ressalta o professor de Economia e Administração da Univali (Universidade do Vale do Itajaí), Crisanto Ribeiro.

Ribeiro contextualiza, em números, a dimensão desse problema. “Só para se ter uma noção, estimativas dizem que uma redução de 10% das perdas de água de uma cidade ou Estado, em médio prazo, pode resultar no atendimento de toda essa população em água e esgoto tratado”, diz.

Além disso, o professor ressalta que o retorno da fraude de alguns não demora a pesar no bolso de todos – com o aumento de tarifas.

“Como esse item faz parte da composição do preço do serviço, a sociedade como um todo irá arcar com esse prejuízo”, alerta.