Neste mês de outubro, o elevado acumulado de chuva que atingiu Santa Catarina, impactou também alguns bairros de Florianópolis, e como de costume, um dos locais mais afetados foi o Rio Vermelho, no Norte da Ilha. De acordo com pesquisadores, os alagamentos são fenômenos naturais dessa região e soluções de engenharia, como a macrodrenagem, não conseguirão acabar com o problema por completo.
Alagamento no bairro Rio Vermelho, em Florianópolis – Foto: BIANCA TARANTIN/ESPECIAL PARA O NDUm estudo realizado por Edna Lindaura Luiz, mestra em geografia pela UFSC e doutora em Geografia pela UFRJ, Larissa Anjos Santos e João Paulo Oliveira da Rosa, licenciados em geografia pela UDESC, lança luz sobre as áreas propensas a alagamentos do bairro, os riscos enfrentados devido ao desenvolvimento urbano desordenado, assim como trazem propostas para diminuir a vulnerabilidade dos moradores.
Baixo escoamento e subida do lençol freático
O estudo apresentado no I Congresso Brasileiro de Redução de Riscos de Desastres em 2019, apontou que os alagamentos no bairro Rio Vermelho estão relacionados ao escoamento superficial nos terrenos mais baixos e à subida do lençol freático devido à grande precipitação.
SeguirUm mapeamento geomorfológico identificou quais são as áreas úmidas susceptíveis a alagamentos. Além disso, foi apontado que na planície e cabeceiras de nascentes quase sempre possui água livre sobre seus terrenos por causa de seu baixo gradiente de escoamento.
Áreas susceptíveis a alagamentos no bairro Rio Vermelho
De forma resumida, as áreas mais afetadas pela chuva estão localizadas no terraço marinho da planície do rio João Gualberto, nas depressões inter-dunares que fazem limite com as dunas de Moçambique, além das planícies flúvio-lagunares ao sul.
Moradores antigos sabem que precisa chover durante vários dias, o que tem sido frequente ultimamente, para acontecer alagamentos no terraço marinho, e que a drenagem é muito lenta porque é resultado da subida do lençol freático.
Por isso, esta região era aproveitada pelos colonos açorianos para pastagens para o gado bovino ou deixada para regeneração da vegetação nativa. Quando ocorria um episódio de alagamento, eles simplesmente levavam o gado para pastar em outro local, era um conhecimento que permitia conviver com a dinâmica natural sem sofrer perdas.
Mapa Rio Vermelho – Foto: Edna Lindaura Luiz, Larissa Anjos Santos e João Paulo Oliveira da RosaCrescimento desordenado
Os estudiosos contam como a crescente demanda por moradia em Florianópolis a partir dos anos 90 resultou em um parcelamento do solo irregular, desprovido de planejamento e fiscalização, criando áreas de risco para os futuros moradores.
Os pesquisadores apontam que muitos arruamentos e loteamentos foram criados em áreas deprimidas, por falta de conhecimento sobre a dinâmica natural do local. Como resultado, em períodos de bastante chuva, os moradores ficam vulneráveis aos alagamentos.
Além disso, o estudo observou que a construção de ruas e edificações no terraço marinho pode dificultar o escoamento das águas pluviais, aumentando o risco de alagamentos em áreas que anteriormente não eram afetadas, como é o caso da servidão Maurílio Nunes.
Loteamento pode gerar mais áreas de risco
Os estudiosos alertam que atualmente, a construção de canais de drenagem em áreas úmidas para implantação de loteamentos, representa a criação de mais áreas de risco no Distrito do Rio Vermelho.
Além disso, a presença de aterros em certos trechos pode representar barreiras ao escoamento das águas de inundação, o que, segundo os estudiosos, expande o problema para locais diferentes das áreas loteadas.
De acordo com os pesquisadores, soluções de engenharia como a macrodrenagem, não conseguirão acabar com os alagamentos por completo, por isso devem ser implantadas também medidas não-estruturais que diminuam a vulnerabilidade dos moradores.
Alternativas para reduzir vulnerabilidade
Dentre as alternativas propostas, está a avaliação das áreas de risco e criação de normas de ordenamento territorial pelo poder público, que evitem a criação de novas áreas de risco. Também é possível remover a população para locais mais seguros e propor usos alternativos para terrenos ou edificações com maior grau de risco.
Os pesquisadores também propõem educar a comunidade da região sobre a dinâmica do meio ambiente local, para que seja possível realizar uma gestão das áreas de risco pelos próprios moradores.