Florianópolis é um diamante que precisa ser lapidado em relação à sua vocação náutica. E as alternativas para a indústria náutica na Capital foram discutidas no terceiro seminário do Super 17, evento do Grupo ND, com patrocínio da Schaefer Yachts, em comemoração aos 17 anos do jornal ND.
Construção da marina de Florianópolis e avanços náuticos foram debatidos no Super17 – Foto: Unsplash/Divulgação/NDForam quase três horas de troca de ideias e busca de soluções sobre o assunto, na manhã de sexta-feira, reunindo o empresário e dono da Schaefer Yachts, Marcio Schaeffer; o secretário de Estado de Turismo, Evandro Neiva; o comodoro do Iate Clube Veleiros da Ilha, Luiz Fernando Beltrão; o secretário de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia de Florianópolis, Juliano Richter; a vice-presidente da Acif (Associação Empresarial de Florianópolis), Solange Borguesan; e o coordenador de turismo do Floripa Sustentável, Mané Ferrari.
O prefeito Topázio Neto lembrou que historicamente Florianópolis é ponto de parada de navegadores, mas essa relação foi se perdendo com o passar do tempo, e agora há urgência para que se retome.
“Estudamos nos livros de história que Florianópolis sempre foi boa parada para os navegadores lá nos anos 1500, quando o Brasil foi descoberto, e na rota sul todo mundo parava aqui, onde os navios paravam para coletar água e continuar viagem. Sempre tivemos essa relação importante com o mar e fomos perdendo, principalmente nos últimos 40 anos. Mas a gente tá retomando essa vocação”, destaca.
O prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, falou do potencial da Capital para o transporte marítimo – Foto: Leo Munhoz/ NDO prefeito frisa que a indústria náutica vai muito além de lazer e esportes, mas atua na geração de empregos e no fomento da economia. “Náutica é atividade econômica pela pesca. Florianópolis é uma das poucas cidades do Brasil que ainda mantém pescadores artesanais na beira da praia. E conseguimos, finalmente, pelo Plano Diretor, regularizar os ranchos que estavam em áreas de proteção na beira da praia.”
Topázio também aproveitou para falar sobre a importância náutica para a cidade. Citou como exemplo as dificuldades legais e ambientais enfrentadas para desassorear o canal da Barra da Lagoa, no Leste da Ilha.
“Não posso admitir que a gente não consiga fazer um desassoreamento, mínimo que seja, para que não coloquemos em risco os barcos da cooperativa que passam ali todos os dias com o risco de encalhar, porque o canal foi se fechando e, em alguns lugares, temos somente 40 cm de água”, revela. Tudo isso porque se entende o prejuízo da sustentabilidade, mas ninguém aqui vai colocar em risco o maior patrimônio da cidade em prol de qualquer coisa”, garante Topázio.
Ele ainda revela prazos importantes a respeito das licenças para a construção da marina. “Esperamos até o fim do ano ter as licenças em definitivo, para que possamos iniciar a construção da marina já no início do ano que vem. Uma marina supermoderna, que vai trazer um equipamento diferenciado para a cidade, não só do ponto de vista turístico, mas também da indústria náutica e do cidadão comum, que não tem barco”, conta.
“As pessoas acham que a marina é só para quem tem barco. Ela vai ter 440 mil metros de área de parque – 110 mil de parque público. Vamos ganhar 11 campos de futebol na beira-mar, quadras de esporte, áreas de contemplação, lugar para pet, para caminhada, para corrida. Os moradores que vão poder aproveitar a marina.”
Estado concentra 70% da produção nacional de barco
O presidente do Grupo ND, Marcello Petrelli, também destacou a indústria náutica de Santa Catarina, a maior do Brasil, pelos barcos, qualidade, competência, emprego, com renda e arrecadação. Santa Catarina concentra 70% da produção nacional de barcos a motor, se consolidando como o Primeiro Polo Náutico do Brasil. Segundo dados do Observatório Fiesc, nos últimos seis meses, o Estado vendeu US$ 33,0 milhões de barcos a motor para países como EUA e a Itália, mantendo o título de maior exportador do país de embarcações.
O presidente executivo do Grupo ND, Marcello Corrêa Petrelli, abre seminário – Foto: Leo Munhoz/ ND“Precisamos transformar essa identificação e transformar essa compreensão da sociedade, formadora de opinião, o quão importante é a indústria náutica para o setor de desenvolvimento, para o setor turístico e também para o lazer”, enfatiza Petrelli.
O seminário sobre vocação náutica é justamente para discutir o setor e tudo que ele representa, afirma. “Infelizmente, depois do aterro, Florianópolis virou de costas para o mar. Não teve a visão daquele momento de deixar os equipamentos voltados para o mar e hoje se tem dificuldade de construir trapiches, marina nem se fala, além dos desafios políticos”, reconhece.
“Eu volto a dizer que deve ter a aliança com o setor empresarial do bem, ético, responsável; aliança com o setor público responsável; com as entidades; e, principalmente, com a boa imprensa, para que a gente possa ter força, coragem, persistência e insistência para que as coisas aconteçam.”
Planejamento macro para o transporte marítimo
O empresário e fundador da Schaeffer Yachts, Marcio Schaeffer, lembra que Florianópolis precisa parar de adiar a implantação do transporte marítimo.
“Todo ano vejo políticos falando assim: vai sair o transporte marítimo. Isso vira campanha política. E falam como se fosse começar amanhã. Tem que ter planejamento e estrutura bem montada, com pontos de embarque e desembarque e acessibilidade, muito além de trapiche, e proteção do nosso vento sul. É assunto muito sério”, afirma.
“Temos que pensar o transporte marítimo como ligação de regiões, de culturas. Você vai privilegiar o transporte marítimo, a náutica esportiva, o comércio local e todos os empregos que você vai ter diante disso. E não vai fazer amanhã, é necessário um planejamento macro”, assegura.
Marcio Schaeffer, empresário e fundador da Schaeffer Yachts, criticou o atraso para a implantação de uma marina – Foto: Leo Munhoz/ NDSchaeffer defendeu o impacto positivo da futura marina na ilha. “É um sonho da cidade. A náutica é para todas as classes sociais. Não interessa o tamanho do barco, é estar navegando naquele clima do mar”, sustenta. E assegura que os navegadores são os maiores protetores do ambiente, pois querem o mar limpo”, falou.
Schaeffer ainda critica o atraso da implantação de marinas na Capital, dando exemplos de marinas da região mediterrânea.
“Há cidades que a marina é o ponto de encontro, tem um sistema de saneamento muito bem feito, é uma vergonha que ainda estejamos falando de saneamento básico, algo já deveria ter sido feito há muito tempo”.
O empresário também critica as estruturas náuticas em Florianópolis, que são muito precárias, “até inexistentes, diria”. Eu conheço bem a náutica e, o sonho de todos os paranaenses, é pegar o barco e vir para Florianópolis, aportando na Beira-Mar”, diz. “Não deveríamos estar aqui debatendo a construção da primeira marina, e sim da décima”, complementa.
Vida náutica fomenta a economia local como geradora de renda e empregos
O Comodoro do Iate Clube Veleiros da Ilha, Luiz Fernando Beltrão, levou contribuições que justificam e reforçam o desenvolvimento náutico. O clube, fundado há 80 anos, criou sozinho, por necessidade, sua marina e, tem 425 barcos de três a 24 metros guardados lá. “Mas o importante é o entorno dessas embarcações. Temos serviços de fibra, motores e transporte. Temos duas empresas em Florianópolis especialistas em transportes de embarcações”, revela.
Evento reuniu especialistas para debater o setor náutico – Foto: Leo Munhoz/ NDConforme Beltrão, a vida náutica é muito além de lazer, pois fomenta a economia local. “Se começarmos a falar de tudo que a náutica gera vamos ver coisas que ninguém pensou. Na parte econômica direta temos 152 marinheiros particulares. Então, já são mais 152 empregos”, calcula.
“Temos no clube, 16 áreas locadas para prestadores de serviços, oficina de fibra, de pintura, de polimentos, marcenaria, manutenção, loja de seguros náuticos. Tudo isso para dar exemplos de atividades que a náutica chama. É um futuro para a cidade, gera oportunidades”, sentencia.
Beltrão também destaca a importância dos esportes náuticos. “A vela não é um esporte tão popular, mas temos tradição de esporte náutico, apesar de sermos um clube relativamente pequeno. Fazemos de três a cinco campeonatos de vela regionais por ano. E para o futuro, precisamos de infraestrutura”.
Futura marina vista como marco positivo
Para a vice-presidente da Acif (Associação Empresarial de Florianópolis), Solange Borguesan, a marina é um pontapé inicial e será um marco com impacto positivo de renda, de empregos e prosperidade para a cidade.
“A Acif tem 109 anos na história de Florianópolis. Percebemos a força do empresariado e vejo que é fundamental fazermos um planejamento de curto a longo prazo. E quando se pensa a longo prazo, temos que entender de onde estamos saindo e para onde queremos chegar. A iniciativa privada tem toda essa disposição de se unir com o poder público e a sociedade civil organizada para juntos pensarmos onde queremos chegar”, avalia.
Florianópolis deveria unir tecnologia e navegação, disse vice-presidente da Acif, Solange Borguesan – Foto: Leo Munhoz/ ND“A marina vai chegar e será um marco positivo de renda, de empregos e prosperidade. À medida que a gente se coloca como referência e com qualidade nos serviços que oferece, todo o sistema náutico cresce e se classifica. Precisamos pensar em incentivos fiscais para as empresas porque vai impactar de fato positivamente”, opina Solange.
Poucos passos para a marina sair do papel
Secretário-executivo de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia de Florianópolis, Juliano Pires atualizou a situação da futura marina de Florianópolis em relação às licenças. Segundo ele, no começo do ano, foi obtida LAP (Licença Ambiental Prévia) e agora está sendo organizada a documentação para entrada na LAI (Licença Ambiental de Instalação), que permite iniciar a obra. A marina da beira-mar consiste num investimento de R$ 250 milhões, 100% privado. Ainda conforme o secretário, o empreendimento também exigirá a LAO (Licença Ambiental de Operação).
Juliano Richter, secretário de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia de Florianópolis, deu um prazo para a entrega da marina – Foto: Leo Munhoz/ ND“Recebendo a LAI, damos início ao processo de construção. Serão quase 150 mil metros quadrados de área pública urbana à disposição do cidadão. A empresa tem até cinco anos para desenvolver o empreendimento, mas quando começar a injetar os primeiros reais, quer terminar o mais rápido possível. A estimativa é de dois anos e meio”, afirmou.
Para o secretário, a marina terá tanto sucesso quanto o aeroporto.
“Hoje todo mundo que vem a Florianópolis e chega no nosso aeroporto se sente muito satisfeito com o melhor aeroporto do país. A marina de alguma forma vai apresentar esse início de movimento para a cidade”, projeta.