Cidades como Nova York, Jacarta e Cidade do México ganharam os jornais nos últimos meses por estarem supostamente “afundando”. Isso porque um estudo publicado em 2022 aponta que, nos últimos cinco anos, as localidades solaparam de milímetros a centímetros por ano.
Pesquisadores que atuam em Florianópolis procurados pelo ND+ apontam que a Capital de Santa Catarina enfrenta problemas de solapamento – mas são pontuais e provocados por problemas de engenharia. E criticam o alarmismo gerado em torno do suposto afundamento de cidades inteiras.
Edificação de estruturas em cima da lama e areia é a principal responsável pelo afundamento de terrenos – Foto: Anderson Coelho/Arquivo/NDO estudo em questão, conduzido por três pesquisadores e publicado no jornal Geophysical Research Letters, analisou alterações no solo de 99 cidades costeiras entre 2015 e 2020, estabelecendo uma média anual de afundamento – ou não – para cada cidade. O fenômeno tem o nome técnico de subsidência.
SeguirO trabalho não analisa as flutuações no solo da Ilha de Santa Catarina. A única cidade brasileira avaliada é a cidade do Rio de Janeiro. Em toda a América Latina há também Caracas (Venezuela), Antofagasta (Chile), Buenos Aires (Argentina), Maracaibo (Venezuela) e a Cidade do Panamá.
Os estudiosos concluem que “parte do solo da maioria das cidades está solapando mais rápido que o aumento do nível do mar”. O cenário resulta no agravamento de problemas de inundação. Tianjin (China), Semarang (Indonésia) e Jacarta (Indonésia) estariam afundando mais rapidamente que as demais, em valores superiores a 30 milímetros por ano.
O que estaria acelerando o afundamento
A conclusão dos pesquisadores é de que a ação humana acelera o processo devido, principalmente, à retirada de água do solo. A extração subterrânea foi a responsável pelo solapamento de pelo menos 200 locais em 34 países durante o último século. O estudo completo pode ser conferido neste link.
Quando se retira muita água do solo é liberado espaço entre os grãos de areia. Então o solo se adapta à carga que está sobre ele e acaba se compactando, explica João Carlos Rocha Gré, professor do departamento de Geociências da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).
“Os grãos arenosos que formam o terreno têm espaços vazios entre si onde se cria porosidade e permeabilidade. Quando chove, a água penetra no solo e se estabelece na camada. E essa água, muitas vezes, se transforma num aquífero”, explica Gré.
“Quando a captação da água subterrânea é muito extensa, os espaços vazios preenchidos de água secam. Se não houver carga, fica estável. Mas caso se construa um prédio, ocorre movimentação dos grãos para se acomodar. Vai prensando e os espaços vazios se tornam cada vez menores, rebaixando o terreno”, detalha.
O município de Sete Lagoas, em Minas Gerais, viveu este processo intensamente. A extração intensa das águas durante 60 anos provocou a subsidência do município, com registro de rebaixamento de até 30 metros, segundo estudo conduzido por Isabela Dasmasceno e Isabela Oliveira de Campos.
Cajamar, em São Paulo; Colombo, em Curitiba; Bocaiuva do Sul, no Paraná também enfrentaram este processo.
Escola Anísio Teixeira, na Costeira, que atende 550 alunos, foi interditada pela prefeitura de Florianópolis por problemas com rachaduras – Foto: Reprodução/Facebook/ND‘Acomodação de terreno’ explica afundamentos em Florianópolis
Em Florianópolis, o afundamento do solo ocorre primordialmente devido ao tipo de solo. A Capital tem, de forma simplória, três formações de solo: argila, areia e rocha. Os dois primeiros são mais frágeis e respondem mais agressivamente à adaptação de carga. O último é o mais seguro.
Em solos mais frágeis, o terreno precisa se adaptar ao peso da carga – que pode ser um prédio, um arranha-céu, uma casa – e acaba afundando. Por consequência, a edificação começa a apresentar trincas e fissuras. São sintomas desse processo o que acontece no colégio estadual Júlio da Costa Neves e no municipal Professor Anísio Teixeira, no bairro Costeira do Pirajubaé.
As instituições foram erguidas sobre argila cinza de baixa resistência, detalha um estudo conduzido por João André Martins, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Transportes e Gestão Territorial da UFSC .
“Na construção civil, muitas vezes os engenheiros colocam preliminarmente uma carga para promover a compactação desse material. E só posteriormente é realizada a construção dos prédios”, pontua Gré.
“Na superfície da Costeira do Pirajubaé há uma camada de sedimentos que tem cerca de 40 metros. Quando se constrói em cima dela, ela se deforma. Isso num espaço de dez, 15 anos”, explica Murilo da Silva Espíndola, professor do departamento de Geociências da UFSC.
Outra estrutura de Florianópolis que passou por afundamento é a Beira-mar Sul, também erguida sobre o aterro da Costeira do Pirajubaé. A deformação no terreno foi de cerca de 30 a 40 cm, destaca Espíndola. Esses afundamentos já são previstos nos projetos de engenharia.
Cidades podem “afundar”?
Espíndola, que é também engenheiro geotécnico, é crítico sobre a perspectiva de que as cidades estarão embaixo da água em alguns anos: “sensacionalistas e deselegantes”, enfatiza.
Ele critica principalmente a ideia difundida por portais de notícias de que os arranha-céus, vidro e aço estariam contribuindo para afundar cidades inteiras, como Nova York. “Se Nova York afunda um pouquinho, é por causa do movimento das placas tectônicas. É lento”, pontua o especialista.
Conforme Espíndola, quando os afundamentos decorrem das placas tectônicas – e não somente da camada superficial da Terra – há um efeito de balança: se em alguns lugares ela afunda, em outros sobe.
“A capacidade do homem de influenciar o peso [ao ponto de afundar uma cidade] tende a zero. Um mosquito faz mais cócegas no nosso ouvido”, resume.