Fuga, choro e perdas: os relatos impressionantes das vítimas do incidente no Monte Cristo

Reservatório de água se rompeu, destruindo casas e carros no bairro Monte Cristo, em Florianópolis; vítimas detalham como viram o incidente

Foto de Valeska Loureiro

Valeska Loureiro Florianópolis

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O desespero, a comoção e o sentimento de perplexidade com o ocorrido tomaram conta da comunidade do Monte Cristo. Na quarta-feira (6) à tarde, em meio às vistorias feitas por autoridades, moradores falaram com a reportagem em tom de indignação. A maioria relatava que já havia denunciado problemas aparentes na caixa d’água e o risco de rompimento já havia sido cogitado há pelo menos quatro meses.

Além do desespero no momento do ocorrido, os atingidos sofreram perdas materiais dentro das casas e também fora, como carros e motos, houve morte de animais domésticos, preocupação com pessoas doentes e a sensação de impotência.

Moto comprada há uma semana ficou debaixo dos escombros

Reginaldo Lopes e Heloisa dos Santos foram vítimas de rompimento de caixa d’agua da Casan – Foto: Leo Munhoz/NDReginaldo Lopes e Heloisa dos Santos foram vítimas de rompimento de caixa d’agua da Casan – Foto: Leo Munhoz/ND

O casal Eloisa Fernando dos Santos, 51 anos, e Reginaldo de Oliveira Lopes, 33, viu a rotina mudar de uma hora para outra. Por morarem um pouco mais longe do foco do ocorrido, não ouviram o estouro. Ao acordar para trabalhar, Reginaldo se deparou com um cenário de caos e as motos – dele e da esposa -, que estavam localizadas em um estacionamento ao lado do reservatório, se perderam nos escombros.

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“Eu vi uma movimentação estranha, mas eu, inocente, peguei a maletinha da moto e fui descendo a rua para trabalhar. Quando eu vi a bagunça, na mesma hora voltei para casa e chamei a minha esposa para entendermos o que havia acontecido”, conta Reginaldo.

“O meu sentimento é de revolta. Faz uma semana que comprei a minha moto, trabalhei muito para juntar dinheiro e comprar à vista. Tudo isso aqui é um descaso com a gente”, relata Eloisa.

Com inundação dentro de casa, crianças foram retiradas pela janela

Abalada, Giovanna Ribeiro Borges, 33, ainda não tinha conseguido dimensionar as perdas da família. Junto com ela, moram o marido e os quatros filhos, sendo o mais novo com cinco e a mais velha de 17. A casa, localizada na parte de trás do reservatório, na rua Professora Marieta Barbosa Ribeiro, estava dominada pela lama e todos os bens materiais de sua família se perderam com a enxurrada.

“Quando ouvimos o som, achávamos que era um temporal e, no momento em que a água começou a entrar em casa, parecia um tsunami. Estou em estado de choque”, declara Giovanna.

Carpinteiro Felipe Ribeiro Borges, 33, diz que na hora a preocupação era com os filhos – Foto: Leo Munhoz/NDCarpinteiro Felipe Ribeiro Borges, 33, diz que na hora a preocupação era com os filhos – Foto: Leo Munhoz/ND

O marido, o carpinteiro Felipe Ribeiro Borges, 33, diz que na hora a preocupação era com os filhos e com o cunhado, que mora na casa de cima e tem um bebê de apenas dois meses.

“Quando abri a porta veio uma enxurrada forte e a água já estava na cintura. Não tinha como ir contra a água. Na hora pensamos em ir para o lugar mais alto da casa e esperar a água baixar. Comecei a tirar as crianças pela janela com a ajuda do meu cunhado. Eu me senti impotente”, conta Felipe.

Ele somente teve a dimensão do ocorrido quando viu o poste da rua em frente ao seu portão.

“Eu espero seguir em frente com a minha família. A nossa sorte é que foram somente bens materiais. Graças a Deus estamos com vida e podemos recomeçar”, finaliza.

Morador acionou Defesa Civil e filmou remendos

O aposentado João Pedro Moraes, 62, morador da casa ao lado de Giovanna, diz que a tragédia de ontem já estava anunciada há muito tempo.

“No ano passado, quando inauguraram o reservatório, já sabia que algo iria dar errado. Desde aquela época já vazava água na parte de trás de onde estourou a estrutura. Na época, eu liguei para a Defesa Civil e mandei os vídeos e as fotos. Eles me retornaram falando que haviam mandado para a Casan, que afirmaram que era apenas um teste. Mentira”, assegura.

Imagens aéreas revelam cenário de destruição na região Continental de Florianópolis. – Vídeo: GMF/Divulgação/ND

Nada foi feito e, em abril, novos registros foram realizados por João. “Eu filmei eles fazendo remendos nessas rachaduras. Só que eles estavam fazendo isso e a água continuou correndo. Não foi por falta de aviso da nossa parte. Pode perguntar para qualquer um aqui. E a Casan não pode dizer que não sabia”, acrescenta.

Apesar dos grandes estragos, o aposentado agradeceu que o rompimento não foi do lado dos vazamentos. “Seriam mais de 200 pessoas mortas”.

Cachorro preso em coleira morreu afogado

Ainda na mesma rua, Simone Olga dos Santos chorava e pedia por socorro por volta do horário do almoço. Desesperada, a preocupação era com o cachorro do irmão. O animal já estava morto, mas ainda estava debaixo da casa com escombros em cima dele. Ela conta que os dois cachorros dela conseguiram fugir por estarem soltos, no entanto, o cachorro do irmão, que estava na coleira, morreu afogado por não conseguir fugir.

“Na hora, o meu irmão quase morreu soterrado e saiu com as filhas pois a pressão estava muito alta. Eu fiquei aqui para cuidar da minha casa e da dele e também estou tentando encontrar outros cachorros que eu dava comida. É muito triste essa situação”, reconhece Simone.

Simone Olga dos Santos chorou por cachorro morto em incidente – Foto: Leo Munhoz/NDSimone Olga dos Santos chorou por cachorro morto em incidente – Foto: Leo Munhoz/ND

Em seguida, agentes da Defesa Civil foram até o local ajudar e, juntamente com eles, estava o secretário de Segurança e Ordem Pública, Araújo Gomes. O coronel tranquilizou Simone e afirmou que eles iriam buscar o equipamento necessário para retirar o cachorro do local com dignidade. Emocionada, Simone caiu aos prantos e agradeceu o secretário. Após o ocorrido, Simone clamava por providências.

FOTOS: Veja como bairro ficou destruído após rompimento de reservatório da Casan

Em meio a revolta, moradores se ajudam

Descendo pela rua José Luís Vieira e entrando na travessa Jorge Luiz Arruda, estavam André Almeida, 52, e o filho João Victor dos Santos, 19, tentando limpar os estragos causados pela enxurrada. Esse foi um dos locais mais atingidos e a pilha de móveis das casas e outros itens pessoais se misturavam com o lamaçal.

“Na hora, ouvimos um barulho muito forte e fomos até a garagem para entender o que estava acontecendo. Ouvimos muitos gritos de socorro, pessoas berrando e umas anunciando que a caixa d’água tinha estourado. Tentamos salvar algumas coisas aqui da garagem, que tinha uma cozinha, mas a força da água derrubou o portão de 3 metros e logo já começou a encher tudo”, relembra André.

Para ele, o sentimento é de revolta. “Todos os moradores daqui até o final da rua sabiam que esse reservatório iria romper e que iria estourar. Todos avisaram e aconteceu, agora vamos ver como vai ser daqui pra frente”, pontua André.

André Almeida, 52, e o filho buscavam ajudar – Foto: Leo Munhoz/NDAndré Almeida, 52, e o filho buscavam ajudar – Foto: Leo Munhoz/ND

O filho dele, João, demonstrava cuidado com todos que passavam por ali e sempre perguntava se precisavam de ajuda. No momento do estouro, ele diz que a preocupação foi com Maria, a vizinha da frente que tem um muro mais baixo e já é idosa.

“Ouvi ela gritando por socorro. Eu subi pelo teto e fui descendo aos poucos até chegar na casa dela. Tinha muita água, lama, madeira, prego, não sei nem explicar direito. A ficha não caiu, muita coisa misturada, não consigo acreditar”, diz João.

Ao abrir a porta, aposentada viu água entrar por toda casa

A casa da aposentada Maria Duarte, 84, e do filho foi dominada pela lama. Era difícil identificar na sua casa o que não havia sido atingido pelo rompimento do reservatório.

Casa da aposentada Maria Duarte, 84, e do filho foi dominada pela lama – Foto: Leo Munhoz/NDCasa da aposentada Maria Duarte, 84, e do filho foi dominada pela lama – Foto: Leo Munhoz/ND

“Eu ouvi o barulhão e achei que era um avião. Quando me levantei para abrir a porta já me deparei com a água que logo já me jogou pra trás. Eu só conseguia pedir socorro”.

Ela conta que também estava muito preocupada em ajudar a filha que é uma pessoa com deficiência. “Ela não fala e eu não sabia como fazer pra tirar ela de lá. Mas conseguimos tirar ela, a neta, de 33, e a bisneta, de 12”.

Assim como todos os moradores do bairro, Maria já desconfiava que o reservatório estava comprometido. “A nossa sorte é que não estourou para o lado de cá, senão já teríamos morrido debaixo d’água. Só espero que não fique por isso, porque eu acho que é um direito nosso”.

Casan promete salário mínimo para vítimas do Monte Cristo

O presidente da Casan, Edson Moritz, afirmou na noite de quarta-feira que a companhia pagará um salário mínimo e uma indenização prévia aos moradores do bairro Monte Cristo que tiveram casa e bens materiais destruídos pelo rompimento de um reservatório na madrugada na última madrugada. A declaração aconteceu em entrevista ao ND Notícias.

Rompimento reservatório da Casan causa estragos e prejuízos na região Continental de Florianópolis. – Foto: Leo Munhoz/NDRompimento reservatório da Casan causa estragos e prejuízos na região Continental de Florianópolis. – Foto: Leo Munhoz/ND

Estima-se um número de 92 casas atingidas e 150 famílias a serem indenizadas. A Casan montou um ponto de atendimento no local com duas tendas e está fornecendo roupas, sapatos, produtos de higiene e aproximadamente 250 refeições na Paróquia do Sapé.

Segundo Moritz, as famílias afetadas devem receber um salário mínimo já a partir desta quinta-feira (7). O presidente não informou se será o valor do salário mínimo nacional ou regional.

Uma indenização prévia, que ainda não possui valor definido, também deve ser paga até segunda-feira (11).

“Trouxemos um talão de cheque e amanhã a gente já entrega um salário mínimo. Vamos determinar um valor de indenização prévia, será um valor bastante significativo”, afirmou.