Infraestrutura vira alvo de reclamações e é desafio para a região

22/07/2022 às 05h00

Mudanças no Plano Diretor podem reduzir ou piorar problemas que são enfrentados pelos moradores atualmente

Marinês Barboza de Jesus Florianópolis

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Ao questionar os moradores sobre o debate que envolve o Plano Diretor para a região continental, multiplicam-se as reclamações sobre questões estruturais.

O presidente do Codecon (Conselho de Desenvolvimento do Continente), Dalton Heron Malucelli Jr, morador da região há 50 anos, alerta que os equipamentos de infraestrutura envelheceram e revelam um passivo enorme, com muitos desafios e investimentos.

Fiscalização na rede de esgoto na área continental: rede antiga que precisa de melhorias- Foto: FOTO ANDERSON COELHO/ARQUIVO/ND“Essa infraestrutura é um conjunto de planos (saneamento, arborização, mobilidade e segurança). São parte do Plano Diretor, sem elas não existe cidade! Assim, na região continental áreas foram ocupadas e esperam soluções, como a Vila Aparecida.  Já outras precisam de atenção como o Monte Cristo e a Coloninha. Nossa rede de esgoto é ultrapassada e precisa urgentemente de melhorias. As irregularidades nas ligações de esgoto residenciais variam entre 70% e 80%. As nossas baías Norte e Sul viraram depósitos de materiais fecais”, afirma.

O presidente da Associação da Praia do Meio e integrante do Conselho da Cidade de Florianópolis, Roberto Boell Vaz, morador de Coqueiros há 45 anos, destaca que as alterações sugeridas no Plano não buscam soluções para os atuais e nem para os futuros problemas.

“Um exemplo clássico disso está no aumento de gabarito para construção de prédios no bairro de Coqueiros, onde a densificação dos moradores vai impactar diretamente na mobilidade urbana. Coqueiros tem apenas uma avenida principal de acesso – à avenida Desembargador Pedro e Silva-, que não pode ser alargada e nos últimos anos até foi estreitada coma instalação de uma ciclovia. Colocar mais gente nesse bairro é condená-lo a uma péssima infraestrutura e a perda substancial da qualidade devida para os moradores”, sustenta Roberto, que é formado em engenharia de produção civil e pós- graduado em gestão pública .

Apesar de o Plano Diretor não falar expressamente sobre a melhoria da infraestrutura, ela é consequência de todas as diretrizes traçadas e um dos objetivos finais da revisão que está sendo discutida.

É o que pensa o diretor de engenharia da construtora Formacco Cezarium, Tonio Cesar Bento. Ele destaca também que hoje não há infraestrutura adequada em várias regiões por conta do baixo adensamento e, principalmente, pelo alto investimento necessário para atendimento da demanda.

“Não vale a pena para as empresas responsáveis por essa infraestrutura investir em melhorias se poucos serão os cidadãos beneficiados”, acredita.

Burocracias

Ele acrescenta que quando se fala em aumentar os potenciais construtivos e simplificar as burocracias existentes hoje para, por exemplo, montar um pequeno comércio, incentiva-se o crescimento de uma determinada região e contribui-se para a melhora da mobilidade, pois menos pessoas necessitarão sair deum bairro para outro para trabalhar, fazer compras, entre outras atividades.

Por outro lado, várias outras obrigações para as empresas estão presentes no plano, como por exemplo, o Estudo de Impacto de Vizinhança, “que impõe a quem deseja construir empreendimentos de maior porte, um projeto de melhorias na mobilidade e nas áreas de fruição pela população”.

Mobilidade e trânsito

Assim como acontece na Ilha, a mobilidade – ou a falta dela – é motivo de constantes reclamações no Continente. Na região, a dificuldade ocorre, principalmente, pela falta de multicentros.

Segundo o diretor da Regional Continente da Acif (Associação Empresarial de Florianópolis), Rafael Novaes, a ideia do Plano Diretor é melhorar as condições de tráfego.

“Essa é a necessidade para que a gente processe cada vez mais um conglomerado de soluções na região do Continente. A atualização do plano traria justamente essa possibilidade determos espaços multiusos para integrar tanto a questão da moradia quanto em relação ao trabalho. Espaços que fossem híbridos para essas duas possibilidades”.

Identidade dos bairros

Representante do movimento Floripa Sustentável no debate sobre o Plano Diretor, Fabrício Schveitzer acredita que o grande desafio do Continente hoje é como posicionar e garantir que os bairros tenham identidades, atividades econômicas que estejam de acordo com suas vocações e tenham um arranjo que permita o desenvolvimento e a manutenção de bons espaços públicos.

Que sejam bairros mistos de verdade. Ele comenta também que a área Continental passou alguns anos sob um limbo de identidade. Um bairro que deixou de ser o principal acesso à ilha e sofreu uma perda do potencial comercial.

“Estamos vendo um renascimento do Continente, novos empreendimentos, um reencontro de comércios e serviços com vocações diferentes. Vemos o Estreito e o Balneário com uma vocação de residências com uma relação forte de comércios e serviços distintos. Em Coqueiros, vemos uma vocação clara para o lazer. Olhando esses dois bairros, encontramos pontos em comum: ambos ainda carecem de áreas qualificadas de lazer. As áreas existentes que foram formadas ao longo dos últimos anos são muito bem utilizadas e realmente dão à população um sentimento de relação com o bairro. No entanto, vemos que devemos buscar um acréscimo de áreas. Mas temos desafios, que são questões de relevo e de densidade. Temos nos dois casos algumas vias densas e outros espaços com densidade muito baixa”, diz Schweitzer.

Sustentabilidade e desenho da cidade

“Os lugares que possuem melhor saneamento básico no Brasil são os locais com maior densidade e urbanizados”, é o que defende o representante do Floripa Sustentável, Fabrício Schveitzer.

“Lugares que são considerados extremamente cuidadosos com o meio ambiente e sustentáveis também são densos e verticais, como Estocolmo, Copenhagen, Santiago. Se eu torno a terra mais escassa, ela fica mais cara, é o que temos em Florianópolis hoje. É uma lei econômica, oferta e demanda. Precisamos entender a relação entre infraestrutura e moradia, essa conta pode tornar o município mais eficiente ou menos, alongo prazo. Paris e Londres são cidades densas, mas não são cidades excessivamente verticalizadas. É uma questão de desenho”, reflete.

Realizar estudos estratégicos de infraestrutura nos bairros é o que defende o vereador Marcos Leandro Gonçalves da Silva, o Marquinhos, único representante do Continente e morador de Coqueiros há 50 anos.

“Como no caso dos processos de desocupação em áreas existentes. Uma alternativa para isso é reformar obras já existentes, garantindo soluções ambientais e sociais. A infraestrutura por si só é um grande desafio e merece ser levada em consideração. Dessa forma, é importante que a regra urbana prepare a infraestrutura, como acontece em países da Europa”.