O trecho da BR-101 entre Biguaçu e Palhoça é apontado pelo Grupo de Trabalho BR-101 do Futuro como um dos mais críticos da rodovia federal em território catarinense. São 23,7 quilômetros de extensão compartilhados pelo tráfego pesado e pelo trânsito urbano das cidades do entorno.
100 mil veículos circulam diariamente pela BR-101 na Grande Florianópolis. – Foto: Marcelo Feble/NDTVUma das consequências é a realidade diária enfrentada por milhares de motoristas presos em engarrafamentos e na lentidão principalmente nos horários de picos. “Todo dia a gente imagina que vai encontrar uma situação e na grande maioria das vezes a gente se depara com outra”, conta a fisioterapeuta Priscyla Moraes.
Engenheiros e técnicos do GT BR 101 do Futuro, coordenado pela FIESC (Federação das Indústrias de Santa Catarina), aplicaram no trecho de Biguaçu a Palhoça o Highway Capacity Manual (Manual de Capacidade Rodoviária) conhecido por HCM.
Na engenharia de tráfego esta é uma das mais modernas metodologias internacionais utilizadas para medir a fluidez do trânsito e o comprometimento dos serviços de uma rodovia. Para os cálculos são levados em conta variáveis como a velocidade, o tempo e atraso de uma viagem, a liberdade para manobras, as interrupções na via, a conveniência e o conforto dos usuários.
O HCM tem uma classificação de “A” (melhor) até “F” (pior). Egídio Antonio Martorano, gerente de logística e sustentabilidade da FIESC, acompanhou o levantamento que apontou o índice “E” em alguns dias e horários indicando a condição crítica do trecho. “Por exemplo, em horários de rush no final da tarde ou no início da manhã, chega haver paralisação e velocidade abaixo de 30 e até quilômetros por hora”, contextualiza.
Desafio diário
Para quem mora em uma cidade e trabalha em outra, o deslocamento pela BR-101 é como um teste diário de paciência. Esse pelo menos é o sentindo da técnica de enfermagem Sthefanie Silvestre de Almeida. Há quatro anos ela faz o trajeto entre a casa onde mora em São José e o hospital onde é contratada em Florianópolis.
Sthefanie conta que precisa antecipar a saída de casa por conta do horário de pico do trânsito. – Foto: Divulgação/NDO percurso antes feito em vinte minutos agora tem levado até uma hora. Se não sair mais cedo, corre o risco de atrasar. E isso tem acontecido com ela e outros colegas de trabalho. “É difícil porque você precisa justificar uma coisa injustificável que é o trânsito e quando chove é certeza que a gente vai chegar depois do horário”, lamenta.
A fisioterapeuta Priscyla Moraes é de Palhoça e atende todos os dias no centro de Florianópolis. Nos últimos três, a situação ficou mais complicada e nem as rotas alternativas para tentar escapar dos congestionamentos tem ajudado. “Precisei desmarcar compromisso aqui no centro porque não ia conseguir chegar no horário. Então, eu digo que é um desafio diário”, ressalta.
Fisioterapeuta relata que enfrenta diariamente o congestionamento na rodovia para chegar ao trabalho. – Foto: Divulgação/NDSandra Rodrigues é taxista e vive o mesmo drama. São nove anos fazendo corridas com passageiros de um lado para o outro da região. Diariamente ela fica doze horas no volante e parte do tempo calcula o prejuízo que terá no bolso em meio a lentidão na BR-101.
A taxista Sandra Rodrigues contabiliza os prejuízos com o trânsito parado na BR-101. – Foto: Marcelo Feble/NDTV“Representa um prejuízo enorme porque tem o combustível, tem a manutenção do carro, tem outros passageiros que ficam sem ser atendidos”, lembra. Quem conhece a região sabe das dificuldades da rodovia e a única forma de lidar com isso. “Ter paciência e enfrentar o trânsito”, desabafa a taxista.
Outro dilema no trecho da rodovia na Grande Florianópolis é a insegurança. Em 2020, foram registrados 1.270 acidentes na travessia entre Biguaçu e Palhoça. O trecho ocupa a segunda posição no ranking de ocorrências na BR-101 em Santa Catarina.
“A sinalização tá muito ruim”, comenta Sthefanie que de vez em quando troca o ônibus ou o carro pela moto. “O respeito acho que para moto é mais complicado porque do nada acaba a sinalização e o carro tem que vim pro lado”, justifica.
Crescimento da região
A travessia urbana entre São José e Palhoça tem operado acima do limite da capacidade tanto na pista expressa quanto nas marginais. O GT BR-101 do Futuro aponta uma piora nos congestionamentos durante os finais de semana prolongados, férias e a temporada de verão.
Nesses momentos, os engarrafamentos concentram-se de Biguaçu no sentido norte até a Serra do Tabuleiro (Morro dos Cavalos) em direção ao sul. Isso se deve a soma do fluxo local com o movimento de turistas.
Em 2010 a população somada das quatro maiores cidades da região – Biguaçu, Florianópolis, Palhoça e São José – era de 826 mil pessoas. Pelas estimativas feitas pelo IBGE a densidade demográfica atual passa de um milhão de habitantes, ou seja, um crescimento de 23% nos últimos 11 anos.
Junto com o desenvolvimento econômico da região, a população local aumentou. – Foto: Arte/NDEntre 2010 e agosto de 2021 a frota somada de veículos nesses municípios aumentou 58% passado de 741 mil. O problema é que a infraestrutura rodoviária não acompanhou esse salto demográfico vertiginoso e nem recebeu melhorias significativas para receber esse maior número de motos, carros, caminhões e ônibus.
Mais veículos estão dividindo o mesmo espaço na rodovia para fazer um caminho comum para moradores da Grande Florianópolis. – Foto: Arte/NDPropostas de melhorias
Entre as sugestões de melhorias apontadas pelo GT BR-101 do Futuro estão o alargamento e a continuidade das marginais, reestruturação do trevo de Barreiros e do acesso à Via Expressa, implantação de viadutos nas interseções do acesso norte, do Kobrasol e de Forquilhinhas, a construção de terceira faixa no sentido norte de Palhoça a São José, além da readequação de alças e agulhas de acesso e saída das pistas centrais da rodovia.
O investimento calculado pela FIESC nestas obras é de 685 milhões de reais. “Não podemos mais esperar. Porque mesmo as ações de médio prazo, a nossa preocupação é a demora, é a falta de fluidez que tem a ANTT de avaliar toda a burocracia. Então nós temos que tomar atitudes urgentes, nós estamos falando de um assunto urgente”, alerta o gerente de logística e sustentabilidade Martorano.
As obras não estão previstas no contrato original de concessão assinado pela ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) em 2018 com validade até 2033. A inclusão de novos projetos a serem executados pela concessionária depende de avaliação e autorização da agência porque envolve reequilíbrio financeiro para provisão de recursos por meio da tarifa de pedágio.
Por enquanto, os únicos serviços autorizados foram a construção de 15 quilômetros da terceira faixa norte entre Palhoça e São José, e as melhorias no acesso a capital foram autorizadas pela Agência Nacional de Transportes Terrestres.
O ex-prefeito de Palhoça e atual coordenador de projetos especiais da prefeitura, Camilo Martins, recorda da morosidade para tirar a terceira faixa do papel.
Ex-prefeito de Palhoça, Camilo Martins, entrou na Justiça para viabilizar a obra da terceira faixa e do contorno viário. – Foto: Divulgação/ND“Não existia projeto! Houve uma discussão para fazer o projeto executivo de forma que fosse viável a sua execução por causa do custo. E aí todo mundo sabe aquela luta, aquela briga, que município de Palhoça ingressou com uma ação na justiça para dar o resultado que hoje nós temos. Essa obra tem prazo para ficar pronta no acordo judicial com o município de Palhoça até fevereiro de 2022”, lembra o ex-prefeito.
A Arteris Litoral Sul, concessionária do trecho norte da BR-101 em Santa Catarina, entregou no fim de agosto os primeiros cinco quilômetros da terceira faixa entre o km 210 e o km 205 em São José. No último sábado, foram liberados mais cinco quilômetros entre o km 205 e 200 também em São José. O último lote do km 215 ao 210 deve ser entregue até o fim do ano.
De acordo com a concessionária, o custo da obra é de R$ 53,2 milhões e o retorno socioeconômico com a redução do tempo de deslocamento, diminuição dos congestionamentos e acidentes está estimado em R$ 2,2 bilhões.
Contorno Viário
Pelo caminho do contorno viário da Grande Florianópolis se acumulam capítulos de uma história que ainda está sendo escrita. Com a previsão inicial de ser entregue em 2012, a maior obra de infraestrutura em execução atualmente no Brasil tem nove anos de atraso.
Contorno viário da Grande Florianópolis custará R$ 3,7 bilhões. – Foto: Paulo Mueller/NDTVSão 50 quilômetros entre Biguaçu e Palhoça de uma estrada nova para desviar parte do trânsito da BR-101 e desafogar o trecho por onde circulam mais de 100 mil veículos por dia.
Ao longo de todo esse tempo, houve paralisação de funcionários, entraves burocráticos e mudança no traçado. Recentemente a Prefeitura de Palhoça solicitou ao Ministério da Infraestrutura uma correção no projeto na região do bairro Alto Aririú.
Segundo o prefeito Eduardo Freccia, o problema está no local projetado para a construção de um elevado. “Ficou muito longe do ponto onde está sendo cortado, segregando, dividindo uma comunidade ao meio. Uma comunidade tradicional que tem escola e que vai prejudicar toda uma população que vai ter dificuldade de acesso de mobilidade de acesso a transporte coletivo”, pondera Freccia.
A ANTT afirmou desconhecer o pedido da prefeitura de Palhoça. O Ministério da Infraestrutura não respondeu até o fechamento desta reportagem.
Sobre a solicitação de correção no traçado do contorno viário, a Arteris Litoral Sul reforçou que a concepção do atual projeto foi elaborada e encaminhada a ANTT em 2013.
Conforme a concessionária, mais de três mil trabalhadores e 500 equipamentos estão nos canteiros de obra. Os quatro túneis incluídos no projeto estão sendo perfurados. O orçamento total do contorno é de R$ 3,7 bilhões. A previsão da Arteris Litoral Sul é concluir a obra em dezembro de 2023.
18 mil veículos pesados devem ser desviados da BR-101 pelo contorno viário. A concessionária calcula que em horários de pico a economia de tempo na travessia da Grande Florianópolis deve ser de 1 hora e 22 minutos.
A obra do contorno viário está na fase de estruturação e perfuração de túneis. – Foto: Paulo Mueller/NDTVMartorano é cauteloso na análise da obra como uma saída definitiva para o fim dos congestionamentos. “Eu diria que o contorno é uma solução para o trânsito de passagem. Aquele trânsito que vem do sul, inclusive do MERCOSUL, da Argentina, do Rio Grande Sul, via Porto Alegre, até o norte ao sul e vice e versa. Lógico que o vai trazer algum alívio inicialmente, mas esse vai ser por pouco tempo”, reforça.
Campanha
Em julho a FIESC e o Grupo ND lançaram a campanha SC Não Pode Parar. A iniciativa está discutindo as condições das rodovias federais que cortam o estado e buscando soluções para resolver os problemas nos pontos mais críticos. Além de melhorias na eficiência e fluidez o movimento pretende encontrar mecanismos para humanizar as rodovias. Sabia mais no site do projeto.