Meio ambiente sofre na região mais urbanizada da cidade

22/07/2022 às 08h00

Continente tem área com grande quantidade de moradores e infraestrutura defasada; propostas de adensamento geram temor para impactos ambientais

Lorenzo Dornelles Florianópolis

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Mais de 90 mil habitantes ocupam praticamente todos os espaços possíveis na região continental de Florianópolis.

A área mais urbanizada do município, com alta oferta de serviços e comércios, já passa há algum tempo pelo adensamento populacional que tanto permeia as discussões sobrea revisão do Plano Diretor da Capital.

E os impactos ambientais são exemplos dos temores gerados nos moradores.

Vista aérea do Continente. Área mais urbanizada de Florianópolis – Foto: RICARDO WOLFFENBUTTEL/NDVista aérea do Continente. Área mais urbanizada de Florianópolis – Foto: RICARDO WOLFFENBUTTEL/ND

Associações prezam pela preservação das áreas verdes e espaços de convivência nos bairros, e possuem grandes preocupações com a poluição despejada no mar.

As propostas para adensar ainda mais a população no Continente são vistas com desconfiança por alguns representantes, que ressaltam a necessidade de priorização das melhorias e reparos urgentes no cenário atual dos bairros.

No diagnóstico publicado pela Prefeitura de Florianópolis especificamente para a sede Continental, são mencionadas “significativas e históricas alterações antrópicas, que alteraram a dinâmica ambiental original da região”.

Além disso, o poder público cita ainda que “pequenos fragmentos de mata atlântica residem na orla continental, mormente junto aos bairros de Coqueiros e Abraão”.

Problemas antigos

Morador de Coqueiros, o biólogo Rodrigo Ferreira observa que o bairro sofre com graves problemas ambientais que se estendem no resto da região e são muito parecidos com os do resto da cidade.

“Começando pela ocupação irregular dos morros, costões e até a faixa de areia das praias. Temos também a grilagem nos morros em área de APP, a falta de lixeiras nos passeios públicos na orla, a limpeza precária das praias apenas nos pontos mais visíveis, a ocupação dos mangues por moradores em situação de rua – levando toneladas de lixo para dentro do manguezal – e a falta de uma política pública municipal de educação ambiental nas escolas, para conscientizar crianças e jovens sobre os problemas ambientais e as responsabilidades de cada um para ajudar a resolver esses problemas”, diz.

Ainda de acordo com Rodrigo, as ideias defendidas até agora pela prefeitura não contemplam as reais necessidades da região. “Porque se resumem apenas a mudanças de gabarito e zoneamento, na intenção de aumentar o adensamento, diminuindo ainda mais as áreas verdes”, reclama.

Áreas verdes: como promover mais arborização e qualidade de vida em uma região tão habitada?

A arquiteta e urbanista Silvia Lenzi, que atualmente é integrante da diretoria da Amaba (Associação de Moradores do Bom Abrigo), ressalta que é um dever da revisão do Plano Diretor “olhar para quais demandas estão surgindo com toda essa urbanização”.

“Ver onde colocar mais áreas verdes. Já existe saturação de infraestrutura, não se pode pensar em adensar. Na medida em que você aumenta o gabarito dos prédios, já altera o microclima da região, como o vento. Desde a elaboração do Plano Diretor, não foi feito nada em relação à melhoria das calçadas e arborização. Eu concordo que o Plano precisa ser revisado, mas tem muita coisa que é problema de gestão”, afirma.

Para Rodrigo Ferreira, uma alternativa é melhorar os equipamentos e a acessibilidade da Beira-Mar, de forma parecida com o que ocorre na Ilha.

“Talvez aumentar algumas praias ali, fazer uma dragagem para aumentar a área. O próprio Parque de Coqueiros já está pequeno para suportar a demanda. Chega o final de semana, se tiver sol chega a ter mais de 20 mil pessoas num final de semana e ele está pequeno. Então a gente tem a proposta de, como fizeram um alargamento de praia, fazer algumas dragagens também para aumentar essas áreas. Até paisagisticamente ia trazer vantagem pra cidade”, sugere o biólogo.

Ele relembra a situação do Parque Aventura, que se localizava no bairro Abraão e foi doado pelo município ao Estado, em 2011,para virar uma sede da Polícia Militar.

“O parque não teve uma boa sinalização, manutenção, e ficou abandonado. Seria um parque espetacular para a cidade, porque era a melhor concha acústica de Florianópolis, talvez de Santa Catarina, para fazer show musical, infelizmente foi perdido um visual alucinante do nascer do sol e do pôr do sol, era uma pedreira abandonada, então o pessoal de Escalada também usava muito, e agora não pode nem entrar porque o acesso é proibido”, lamenta.

Outra alternativa mencionada pelo morador é a melhor utilização de margens de córregos.

“Eles estão bem poluídos, mas as margens podiam ser mais bem cuidadas, arborizadas. É uma coisa que a gente bate, a falta de arborização na cidade. As áreas carentes são uma cidade paralela, como se diz, ‘cidade informal’, porque faltam vários equipamentos, arborização não existe mesmo. Então o pessoal não tem área de lazer, não tem árvore tanto pra criançada comer uma fruta ou coisa assim…”

Outra sugestão levada pelos moradores do Continente aos debates sobre o Plano Diretor são os parques lineares.

“Hoje São Paulo está usando muito como estratégia de interligar parques, usar as marginais de ruas, avenidas principais, arborizadas, elas podem interligar via ciclovias. Estão até fazendo ciclovias, mas você não vê arborização associada à ciclovia. Então fica aquele negócio que é só concreto e o sol rachando quando podia ser interligados parques ou áreas verdes nas vias”, conclui Rodrigo.

Lançamento de esgotos é um dos maiores problemas

Por fim, o documento disponibilizado pela prefeitura aponta ainda que o Continente é impactado “pelo lançamento irregular de efluentes na rede pluvial, alcançando as praias da região e prejudicando a qualidade das águas e sua balneabilidade”.

Observação que é compartilhada e, principalmente, sentida diariamente pelos moradores. Silvia Lenzi destaca que esta dificuldade é “presente em toda orla”.

“Temos uma orla maravilhosa, que é um local de encontro entre os moradores, onde saímos para caminhar, ver pessoas, mas tem dias que é insuportável o cheiro de esgoto”, afirma.

Jorge Getúlio Vargas Freitas, morador de Coqueiros, também critica a situação das águas e da destinação de esgotos.

“As praias estão poluídas há muito tempo, com rede pluvial recebendo esgoto. Já fizemos protestos em 2018/2019, como título “Mar não é esgoto”, o que deu origem à operação “Se liga na rede” no bairro, mas que não surtiu os efeitos necessários, havendo ainda muito esgoto saindo nas praias”, diz o engenheiro.

O biólogo Rodrigo Ferreira reforça a reclamação de ligações irregulares. “Temos as ligações clandestinas de esgoto e a falta de capacidade de suporte da rede de esgoto e das estações de tratamento da Casan, que faz com que extravasores sejam usados de forma indiscriminada, jogando dejetos in natura no mar”, pontua.

Rede de esgoto defasada e operações sem resultado efetivo

Silvia Lenzi relembra a origem do programa “Se Liga na Rede”, que se deu no bairro Bom Abrigo, por conta de muitos problemas de ligações irregulares – que originaram protestos na região.

Segundo ela, o resultado “não foi efetivo”.

“Ainda falta gestão, melhoria, fiscalização. Essa rede de esgoto tem 40 anos. Se coloca que o continente pode ser adensado, mas a rede não aguenta”, diz a urbanista.

Para o engenheiro Jorge Getúlio Freitas, a revisão do Plano Diretor se faz necessária, mas a proposta publicada carece de mais medidas.

“Apesar dos textos lindos que até comovem pela preocupação demonstrada com o meio ambiente, não consta nenhuma previsão de medida, de curto, médio ou longo prazo, que venha a combater a poluição. Apenas prevê a centralidade, com o consequente adensamento populacional, sem levar em conta a capacidade da infraestrutura de saneamento, nem das capacidades das vias. Conclusão: vias mais congestionadas pelo aumento do tráfego e mais poluição ocasionada pelo adensamento”, critica.

Jorge revela “muita preocupação” com os planejamentos, e cobra por mais clareza do poder público na formulação de planos e obras de infraestrutura.

“É uma questão de planejamento. Coqueiros, por exemplo, é uma área comercial e turística, a gestão pública tem que reconhecer essa vocação e planejar o desenvolvimento. A prefeitura tem que oferecer primeiro a infraestrutura. Não se pode pensar em saturar sem ver a questão do esgoto, das vias precárias… essas propostas acabam gerando uma insegurança muito grande”, complementa Silvia Lenzi.

A arquiteta menciona ainda a necessidade de investimentos por parte do município na capacitação de quem executa os serviços de saneamento básico em Florianópolis, visto que muitas ligações são irregulares por falhas de instalação.

“Não pode numa revisão de Plano Diretor termos uma perspectiva dos problemas serem agravados, e a questão ambiental é a que mais sofre com isso, porque é extremamente frágil”, finaliza Lenzi.