A manutenção da Barragem Norte, de José Boiteux, estava programada para acontecer nesta quinta-feira (21), mas foi paralisada após recomendação do MPF (Ministério Público Federal). Em nota, a Defesa Civil de Santa Catarina disse ter ficado surpresa com a decisão.
MPF recomenda paralisação da manutenção da barragem de José Boiteux – Foto: Otávio Júnior/Defesa Civil/Divulgação/NDA operação seria realizada em parceria com técnicos da Celesc (Centrais Elétricas de Santa Catarina) cinco meses após as cheias que atingiram a região do Alto Vale. No local, seria feito a avaliação e manutenção da estrutura.
MPF recomendou paralisação da manutenção
O documento do MPF indica que no dia 10 de março foi realizada uma reunião sobre a retomada das oficinas referentes aos programas do PBA (Plano Básico Ambiental) do Licenciamento Ambiental da Barragem Norte.
SeguirA discussão reuniu representantes da Defesa Civil do Estado de Santa Catarina, Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), representantes da empresa Terra Ambiental e lideranças da Terra Indígena Laklãnõ.
Conforme o MPF, ficou acordado o agendamento de uma nova reunião com as lideranças indígenas, junto ao secretário de Defesa Civil do Estado, para tratar da revisão do Plano de Contingência e fazer encaminhamentos em relação aos acordos, obrigações pendentes e demais assuntos relacionados às enchentes que assolaram Santa Catarina, além do acionamento emergencial da Barragem de José Boiteux em outubro de 2023.
No dia 14 de março, a liderança indígena da região foi informada por meio da Diretoria de Gestão de Riscos da Secretaria de Estado da Proteção e Defesa Civil sobre a vistoria e manutenção de uma das comportas da barragem de José Boiteux.
Segundo o MPF, quatro dias depois, durante reunião realizada entre representantes da Defesa Civil, Secretária de Estado da Assistência Social, Mulher e Família, da Funai e de lideranças do povo Laklãnõ, as lideranças indígenas concordaram com a continuidade de limpeza do reservatório da barragem, conforme já havia sido acordado.
Comunidade indígena tem receio sobre manutenção de comporta
No documento, o MPF diz que as lideranças “se mostraram receosas em relação ao serviço a ser executado pela Celesc, informando não haver um consenso na comunidade sobre a liberação da manutenção da comporta fechada”. Além disso, apontaram não haver transparência por parte do Governo de Santa Catarina ao transferir a responsabilidade da ação para a Celesc.
Entre os receios apresentados pelas lideranças está o fato de não possuírem um interlocutor para fazer chegar ao Governo do Estado suas demandas e o não cumprimento integral da decisão judicial que apontava como condicionante à operação emergencial da barragem os seguintes itens:
- Melhoria das estradas (que ficaram interditadas ou em péssimas condições devido aos alagamentos e deslizamentos)
- Reconstrução das casas que ficaram comprometidas com o fechamento das comportas
Em reunião, as lideranças disseram que por estas razões, a manutenção da comporta só poderia ser permitida mediante as negociações referentes a apresentação do cronograma de execução de obras decorrentes da Ação Pública apontada na data de início e previsão de término delas.
É pontuado ainda a necessidade do apoio de Santa Catarina para a recuperação das vias internas afetadas pelas chuvas, assim como a nomeação de representante do Estado para coordenar as ações e compromissos com a comunidade indígena.
Eles pedem apoio para recuperação das vias internas afetadas pelas chuvas, assim como uma audiência e a nomeação de representante do Estado para coordenar as ações e compromissos com a comunidade indígena.
O MPF terminou por recomendar à Defesa Civil que antes de qualquer vistoria ou intervenção na Barragem de José Boiteux, sejam realizados os “devidos processos de escuta e de diálogo com o povo indígena Xokleng, através de suas lideranças constituídas, em respeito às especificidades socioculturais daquele povo, reestabelecendo a interlocução com base no respeito mútuo, transparência e boa-fé, visando acordo em relação aos legítimos pleitos acima referidos”.
Diante da situação, foi fixado o prazo de 24 horas para a prestação de informações ao MPF acerca do acatamento da recomendação.
Confira a nota da Defesa Civil
“Há mais de uma semana, a Secretaria de Estado da Proteção e Defesa Civil de Santa Catarina comunicou todas as entidades envolvidas da necessidade e urgência da limpeza e da manutenção da Barragem de José Boiteux- SC.
A Secretaria foi surpreendida pela posição do Ministério Público Federal, na manhã desta quinta-feira (21/03/2024), exatamente o dia em que se iniciaram os trabalhos de manutenção.
A recomendação do Ministério Público Federal paralisa as ações de manutenção. Ela diz respeito à necessidade de realizar os “devidos processos de escuta e de diálogo com o povo indígena Xokleng, através de suas lideranças constituídas”; sendo que esse diálogo já ocorre desde a última segunda-feira, dia 18, data que se iniciou o processo de limpeza da barragem.
O Secretário de Proteção e Defesa Civil, Cel. Fabiano de Souza, está em contato com a Procuradoria-Geral do Estado e com a Secretaria de Estado da Assistência Social para entender quais os critérios técnicos utilizados para a decisão, e apresentará os dados da Defesa Civil sobre a necessidade dessa manutenção, que não é realizada há muito tempo”.