Entre os altos e gelados pontos da Serra catarinense, destino de muitos turistas de dentro e fora do Estado em todo inverno, estão espalhados 30 municípios que compõem a região.
Mas apesar de todo o potencial turístico, os municípios serranos ainda patinam quando o assunto é saneamento básico.
São 23 cidades (76,6%) que ainda não começaram a implementar o sistema coletivo de rede coletora de esgoto, e têm o índice zerado conforme os dados do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre o Saneamento).
Maior cidade da região, Lages tem cobertura de rede de esgoto de 42,3% – Foto: Prefeitura Municipal de Lages/DivulgaçãoO elevado número de municípios com população pequena é um dos motivos apontados para o baixo índice de coleta.
“A construção de uma estação convencional necessita de investimento alto e obras complexas além da manutenção que é necessária em alguns municípios sofrem por ter menor densidade populacional, logo recebem menos investimentos”, diz o professor de engenharia sanitária e ambiental da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), Eduardo Bello Rodrigues.
A cidade com maior índice de cobertura é Campos Novos, com 87%, seguida de Capão Alto (60,6%).
Números do saneamento básico na Serra catarinense – Foto: Leandro Maciel/NDMaior cidade da região, Lages tem obras de implantação de rede de esgoto
O sistema de rede coletora começou a ser implementado em 2003, e cobre 42,3% da cidade. São 90.696 pessoas sem acesso ao serviço.
O esgotamento sanitário de Lages é responsabilidade da SEMASA, autarquia do município.
Segundo informações da Prefeitura de Lages, a avenida Ponte Grande, um dos principais pontos da cidade, é o foco das obras de saneamento.
Depois da conclusão dos trabalhos nessa área, a previsão é que a cobertura de esgoto avance para 75% da população.
Quanto ao abastecimento de água, o município está mais perto da universalização. O índice atual, conforme o SNIS, é de 98,3% de cobertura – a meta estipulada pelo Marco Legal é de 99%.
São cerca de 2.600 moradores que ainda não têm água potável nas torneiras, principalmente na parcela de população rural de Lages, que é atendida por poços artesianos.
Saneamento em Curitibanos chegou em 2020
O município de Curitibanos ainda apresentava 0% de coleta de esgoto na base de dados do SNIS de 2020. Em junho de 2021, no entanto, o sistema de esgotamento sanitário foi inaugurado.
O investimento realizado no município foi de R$ 50,8 milhões, pela Casan (Companhia Catarinense de Águas e Saneamento) em parceria com a AFD (Agência Francesa de Desenvolvimento).
O prefeito Kleberson Luciano Lima (MDB) conta que apesar do sistema “ter chegado tarde, não deixa a desejar”.
De acordo com ele, o sistema não foi inaugurado antes por conta das dificuldades nas tratativas e nos convênios nas gestões anteriores. Os dados do SNIS de 2021 mostram o salto do município de 0% para 19%.
Região passa por desafios para universalizar abastecimento de água
Dos 30 municípios que compõem a região, apenas três, Campos Novos, Abdon Batista e Vargem chegam ao índice de 100% no índice de abastecimento de água, de acordo com os dados do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento).
Outro fator que chama a atenção é que uma boa parcela dos municípios serranos, sendo 16 dos 30, apresentam índice de abastecimento até 80%. A média do Estado, por exemplo, é de 90%.
Ainda conforme os dados do Sistema Nacional, são mais de 40 mil pessoas que não contam com a cobertura do serviço em suas residências.
Parte deste problema está na quantidade de moradores rurais na região. São mais de 73 mil habitantes situados fora dos limites urbanos das cidades.
Topografia e altitude são desafios
“Os municípios do interior têm áreas muito grandes, e a topografia do solo influencia muito, onde se tem desníveis que dificultam, e implicaria em investimentos altíssimos para atender poucas residências. Então o foco é na área urbana. Se você vai implantar redes de abastecimento até na área rural, pela questão do custo, isso iria refletir muito pesadamente na tarifa”, explica Rangel Barbosa, superintendente da Casan.
Além da grande população rural da região, há dificuldades geográficas que explicam o baixo índice de abastecimento: a altitude das cidades.
“As cidades que estão localizadas no que a gente chama de cabeceiras de bacias são as primeiras que sentem a falta d’água. Essas cidades dificilmente contam com um rio de maior magnitude por perto para captar essa água. São cidades que ficam nas regiões altas, e aí nós temos várias delas que estão situadas em situações assim”, esclarece o professor de engenharia ambiental e sanitária da Udesc, Silvio Rafaeli.
Cidades altas da Serra, conhecidas por serem destinos turísticos de Santa Catarina no inverno, confirmam as dificuldades nos índices de abastecimento de água.
É o caso de Bom Jardim da Serra (57,9%) , São Joaquim (79,6%), Urupema (78,2%) e Urubici (70,1%).
Saneamento patina nos destinos turísticos
Entre os diversos pontos procurados por turistas na Serra catarinense, os índices de coleta de esgoto ainda estão travados.
Municípios como Bom Jardim da Serra, Urupema e Urubici, procuradas por seus registros de temperaturas negativas no verão, ainda não oferecem a seus turistas cobertura de esgotamento sanitário.
Nas três cidades, o índice é de 0%, de acordo com o SNIS.
Em São Joaquim, outro destino conhecido do inverno catarinense, há a implantação de rede coletora, mas ainda é baixa: 32,5% – ainda são mais de 18 mil moradores sem acesso ao serviço.