‘Oração e chá de boldo’: impacto na saúde é retrato cruel da falta de saneamento em SC

08/12/2022 às 08h00

Desempregado e sem acesso à água de qualidade, pai recorre à fé e ao chá caseiro como remédio para curar dores no estômago da filha

Vanessa da Rocha Florianópolis

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Junto ao fogão, Gefferson Joarez dos Santos, de 60 anos, prepara o chá de boldo para a filha Thays, de 9 anos. “Minha filha, como é que ‘tá’ a tua barriga, parou de doer?”, questiona o pai. “Parou um pouco”, responde a menina. “Graças a Deus né? O pai fez uma oração e melhorou”.

Oração e chá de boldo. Esses foram os recursos utilizados por Gefferson para cuidar da saúde da filha até 2021, ano que ele decidiu deixar o Estado. Pai solteiro, Gefferson saiu do Pará em 2013 quando a pequena tinha meses. A promessa era uma vida melhor em Santa Catarina. Mas não deu certo.

Gefferson e a filha lidam com problemas de saúde relacionados à falta de saneamento, em PalhoçaGefferson e a filha lidam com problemas de saúde relacionados à falta de saneamento, em Palhoça

O dinheiro guardado durante anos só possibilitou comprar um terreno não regularizado no bairro Frei Damião, em Palhoça.

Sem saneamento e com sistema precário de acesso à água, a criança passou a ter dores no estômago de forma crônica. “Ela passava vomitando o dia todo. Ou então com diarreia”.

Ele tentou coar e ferver, mas não adiantou. “Quando chove muito, vem com folha, pedaço de pau, com muito barro dentro, muito suja. Um dia desses fui tomar água e senti um gosto ruim na boca, quando vi tinha barro no copo. E aí me deu um vomitório. Fiquei mal. Fiquei um tempão com dor”, contou Gefferson quando a reportagem esteve na casa dele, em dezembro de 2021.

Na mesma ocasião, Gefferson contou que queria parar de usar a água que saía da torneira e comprar água mineral, mas faltava dinheiro.

“Eu não sinto confiança em dar essa água pra ela. Imagina… É que eu ‘tô’ desempregado e a barbearia ‘tá’ dando muito pouco”.

Dias depois, Gefferson foi ao posto de saúde levar a filha, que recebeu soro na veia para se hidratar. Ela apresentou melhora, mas logo a rotina de dores no estômago voltou. “Isso é um absurdo. Eu tô até emocionado”.

O caso não é exceção. Segundo o presidente da Associação de Moradores do Frei Damião, Vladimir Borges Ribeiro, problemas estomacais e surtos de virose são frequentes, sobretudo nos períodos de calor.

“Eu mesmo, várias vezes, tive problemas de saúde justamente por causa da água. Nossas crianças aqui têm esse problema”, diz.

De olho no poder público

São 14.022 moradores de Palhoça que não têm abastecimento e utilizam a água de poços artesianos ou de caminhões-pipa, segundo o SNIS.

A Samae (Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto) de Palhoça garante que a comunidade Frei Damião possui 100% de abastecimento de água para residências regularizadas. Porém, residências ainda utilizam ligações improvisadas.

O projeto de abastecimento da região sul já atende Guarda do Embaú, Praia de Cima e Pinheira, até o Hotel do Espanhol, com abastecimento para as residências. Em diante não mais.

Nove pessoas são hospitalizadas por dia no Estado por doenças relacionadas ao saneamento

Levantamento realizado pelo Núcleo de Dados mostra que em 2021, 3.358 pessoas foram hospitalizadas no Estado por enfermidades relacionadas à falta de saneamento básico.

A pesquisa utilizou os dados do Datasus referentes às doenças associadas ao saneamento ambiental inadequado, como estabelecido pela Funasa (Fundação Nacional da Saúde).

Embora o número seja elevado, há redução na comparação com o ano anterior.

Em 2020, 4.278 internações foram registradas (-21,5%). Os casos mais comuns foram de diarreia e infecções intestinais.

As internações por  diarreia no último ano, representam quase a metade do valor total notificado no sistema (45,7%), 1.535 pessoas. O contato com água poluída é uma das principais fontes de doenças.

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), 80% das diarreias agudas no mundo estão relacionadas ao uso de água imprópria para consumo. (Fernanda Lanzarin)

Número de mortes ultrapassou 200 em 2021

Em casos mais graves, a precariedade de acesso à água tratada pode resultar em óbitos por contaminação.

Esse é o cenário de Santa Catarina, a cada dia, uma pessoa morre por doenças relacionadas ao saneamento básico.

Em 2021, o número de mortes registradas no Estado chegou a 271. De acordo com os dados, são 11 doenças notificadas com relação à precariedade do saneamento.

Seguindo o mesmo padrão das internações hospitalares as diarreias e infecções intestinais apresentam maior incidência, as infecções contabilizam 110 óbitos, enquanto as diarreias 73.

Ronaldo Zonta, médico de família e comunidade da Secretaria Municipal de Saúde de Florianópolis do Departamento de Gestão da Clínica, explica alguns fatores que agravam essa situação.

“A falta de saneamento básico, principalmente agora no verão com o calor, a falta de higiene das mãos, acesso à água potável, leva a aumento de doenças infecto contagiosas de origem gastrointestinal, que ao atingirem populações mais fragilizadas, como idosos, crianças, pioram a sua situação e podem levar à internação, inclusive à morte, dependendo da situação”.

Arte: Leandro Maciel/Divulgação/NDArte: Leandro Maciel/Divulgação/ND