O assoreamento do Canal da Barra da Lagoa, em Florianópolis, se tornou um problema para a vida marinha e para a economia local. Embarcações de pequeno e grande porte e de transporte aquaviário tem dificuldades para passar pelo local.
Pescadores de Florianópolis pedem desassoreamento do canal da Barra da Lagoa – Foto: Leo MunhozPara se ter uma ideia, dá para atravessar o canal a pé. A água mal cobre o joelho em alguns pontos, mas nem sempre foi assim. Segundo os moradores nativos da Barra da Lagoa, algumas partes do canal tinham cerca de 10 metros de profundidade.
Agora, está difícil para navegar. O pescador Adir Nemézio Rodrigues já perdeu as contas de quantas vezes seu barco encalhou e estragou.
“Aqui eu já tive prejuízo com hélice da embarcação, entortou o eixo da embarcação, (…) embaixo, com a areia e a concha, vai comendo devido a encalhar. Sem contar que quando dá maré baixa, eu não consigo passar e a gente perde a pescaria”, contou Rodrigues.
O vice-presidente da Appaecsc (Associação de Pescadores Profissionais Artesanais de Emalhe Costeiro de Santa Catarina), Eugênio Zilto Pereira, pesca há mais de 35 anos. Ele sentiu no bolso o peso da areia acumulada no canal.
Segundo Pereira, “hoje uma média de prejuízo de um barco desse aí, se você bater e quebrar hélice, estaleiro e fazer uma hélice nova, tu vai em cima de R$ 25 mil. Bem salgado, sem contar a produção que você deixa de produzir por estar com um barco quebrado”.
Captura de tainha na Barra da Lagoa, em Florianópolis – Foto: Leandro Silva/Divulgação/NDPara manter a tradição e continuar sobrevivendo da pesca, os pescadores têm aumentado o tamanho do barco, até para conseguir levar mais redes. O problema é que quanto maior a embarcação, maior também é a dificuldade para navegar pelo canal por conta da baixa profundidade.
Conforme a Associação de Pescadores do Retiro da Lagoa, o canal é o caminho de 150 embarcações que movimentam a atividade pesqueira na região. “Hoje o pessoal quebra a hélice do barco, entorta o eixo, entorna o túnel. O prejuízo é enorme para eles”, disse o presidente da associação, Lourival Manoel Teixeira.
De acordo com o vice-presidente do Conselho Comunitário da Barra da Lagoa, Gilson Manoel Bitencourt, “é urgente a necessidade da remoção desse material onde está depositado e prejudica a navegação geral. Não só do pescador artesanal, mas geral”.
Entidades, moradores e pescadores afirmaram que o assoreamento do canal está prejudicando e acabando também com a vida marinha na Lagoa da Conceição.
“Falta peixe para nós, porque as larvas de camarão, siri, essas coisas, às vezes chegam e não tem água, falta oxigênio e eles acabam morrendo aqui mesmo”, falou José Frutuoso Goes Filho, que é presidente da Colônia de Pescadores da região.
Para o presidente da Acatmar (Associação Náutica), Leandro ‘Mané’ Ferrari, “a lagoa está morrendo. A oxigenação da água não acontece mais no seu fluxo normal por causa do assoreamento que está na entrada do canal da Barra da Lagoa”.
Nesta região, estão instaladas oito marinas. Segundo o Conselho Comunitário da Barra da Lagoa, cada uma gera, em média, cinco empregos diretos. Com o assoreamento, existe o risco de donos de embarcações procurarem outros locais para deixarem as lanchas.
“São mais de oito marinas na bacia da lagoa, ficam prejudicadas. Então, o cliente, por prejuízos que tem quando passa por aqui, leva para outro lugar. Então, a gente começa a perder essa questão da economia. Tem a questão ambiental também, que a lagoa tá em colapso. Não precisa ser um estudioso para entender que precisa, a lagoa precisa do canal da Barra”, explicou o presidente do Conselho Comunitário, Hamilton Fernandes dos Santos.
A Acif (Associação Comercial e Industrial de Florianópolis), contratou e doou à prefeitura da Capital, um estudo técnico que comprova a necessidade de desassorear o canal da Barra.
O presidente da Acif, Rodrigo Rossoni, afirmou que a instituição quer que “essa manutenção seja realizada o mais breve possível para que a Lagoa da Conceição possa ter a subsistência, a persistência com relação a todo o seu ecossistema e ganhe sobrevida em torno de algo que é fundamental para a nossa cidade seja do ponto de vista ambiental, seja do ponto de vista turístico, econômico e cultural”.
No fim de dezembro, a Secretaria de Administração da Capital publicou no Diário Oficial o edital de tomada de preço para contratar uma empresa para dragar o canal da Barra da Lagoa. O prazo para entrega dos envelopes com as propostas termina no próximo dia 14.
Em nota, a prefeitura informou que ainda aguarda a autorização ambiental para fazer a obra e não deu detalhes nem previsão de quando vão começar os trabalhos.
Confira mais detalhes sobre a situação na reportagem do Balanço Geral Florianópolis.