É do quarto andar da rua Duque de Caxias, no coração do centro histórico de Porto Alegre, que a funcionária pública aposentada, Vânia Regina Guimarães, de 69 anos, enxerga o movimento da rua que, há duas semanas, já não é mais a mesma. Assim como ela, outros trinta mil moradores da mesma região estão sem energia em Porto Alegre e sem água. Não há previsão de restabelecimento completo dos serviços.
Vânia Regina Guimarães, de 69 anos, está há duas semanas sem energia em Porto Alegre – Foto: Vivian Leal/NDNa sexta-feira, 3 de maio, o fornecimento de energia foi interrompido porque as ruas começaram a ser tomadas pela água do lago Guaíba, que transbordou e ultrapassou a marca atingida durante a enchente de 1941, chegando ao nível de 5,35 metros. Por ser uma rua alta, entrar e sair do prédio em que Vânia mora não se tornou um problema, mas viver se transformou em um desafio.
“Sem luz, tu não tem um monte de coisa. Eu estou sem banho, tenho que ir na mãe da minha nora pra tomar banho, eu não tenho mais roupa limpa, tenho dificuldade para cuidar dos meus animais e não consigo mais cuidar do meu ambiente. Esse caos me desestrutura também, eu não consigo”, conta.
Os passeios com a cadela Peggy são os momentos mais próximos de uma normalidade. “Eu saio com ela de tardezinha e não subo, eu fico lá com meus vizinhos, com o porteiro, não tem condições de ficar dentro de casa”.
O retorno, para a idosa, é a parte mais difícil. Sem luz, especialmente à noite, não há televisão, banho quente, iluminação para cozinhar ou ler um livro, situação que intensifica a sensação de solidão. “Meu filho me trouxe equipamentos para enfrentar isso: um rádio a pilha e um relógio de mesa porque eu não sabia nem que horas eram”, brinca a idosa.
“Eu espero retornar a minha rotina, eu quero a minha vida de volta. Minha vida está suspensa e eu não posso mais esperar, eu sou idosa”, afirma com indignação.
Rádio de pilha vira item essencial em cenário sem energia em Porto Alegre
Próximo dali, o comerciante Felipe Zuccolotto vive uma situação parecida. É ao lado do rádio de pilha e de dois gatos que ele passa as noites no sétimo andar da rua Bento Martins. Subir e descer os lances de escadas virou parte da rotina, assim como voltar mais cedo para casa, antes que a escuridão tome conta do bairro.
“De noite, não tenho vontade de fazer mais nada, a gente olha pela janela e parece que não tem prédio na rua. São duas semanas sem ter nada em casa. Nos primeiros dias ainda estava quente, ainda tinha água na caixa do prédio, mas agora com a chegada do frio, estou buscando banho em lugares diversos, amigos”, conta. O cotidiano de atividades físicas e de trabalho em um café, na mesma área, deram lugar ao voluntariado.
Felipe Zuccolotto tem o rádio de pilha como aliado em Porto Alegre – Foto: Vivian Leal/NDDesde o início dos chamamentos à população, Felipe e um grupo de amigos se mobilizaram para ajudar os mais atingidos pela enchente que devasta o Rio Grande do Sul.
“O nosso foco sempre foram doações emergenciais, o que os abrigos precisam imediatamente, sabe!? Arrecadamos quase R$ 50 mil e doamos tudo, tudo o que as pessoas estavam precisando”, afirma.
Agora, com o nível do Guaíba na casa dos 4,67 metros, a CEEE Equatorial, responsável pela energia elétrica na cidade, realiza uma força-tarefa para tentar drenar a água das quase duzentas estações subterrâneas do Centro Histórico e reativar o fornecimento parcial de energia. “Cada câmara transformadora dessa tem em torno de 20 cabos que precisam ser desconectados, ou seja, nós estamos falando aqui de uma força-tarefa para religar o fornecimento de energia”, explica o presidente da CEEE Equatorial, Riberto Barbanera.
A medida traz certa esperança e já faz com que o comerciante comece a planejar a reabertura do café, que já contabiliza prejuízos.
“Eu não acredito que seja o fim da minha empresa agora, é o meu primeiro grande percalço, espero que eu consiga passar por ele. Eu tenho um ano e meio de empresa e, olhando por esse histórico breve, eu já passei por desastres climáticos de todas as ordens em oito meses”, lamenta.
Geradores para garantir a prestação de serviço foram fornecidos por empresas em Porto Alegre – Foto: Vivian Leal/NDEnquanto isso, pessoas, como a aposentada Marlize Andrade, contam com a gentileza de estabelecimentos que contrataram geradores para garantir a prestação de serviço. Todos os dias, ela vem até esta farmácia para carregar celular e outros equipamentos eletrônicos. “Eu fiquei responsável pelos pets dos meus vizinhos que saíram do prédio. Compro remédio, levo água, coisas que as pessoas precisam”, relata à reportagem.
A concessionária de energia espera normalizar o abastecimento de energia, nas áreas mais secas do Centro Histórico da Capital, ainda nesta sexta-feira. Segundo boletim mais recente da CEEE Equatorial, são 116 mil clientes sem energia, sendo 109 mil desligamentos por segurança, devido a áreas alagadas e atendendo a solicitações da Defesa Civil, do Corpo de Bombeiros e das prefeituras. Em Porto Alegre são 76 mil clientes nessas condições.