Medo da chuva, pesadelos e o desejo de voltar para casa. É o que moradores da servidão Manoel Luiz Duarte, na Lagoa da Conceição, em Florianópolis, continuam relatando um mês após o rompimento da lagoa artificial de tratamento de esgoto da Casan.
Rodrigo Albano, de 32 anos, olha para o que restou da casa em que morou por 17 anos na servidão Manoel Luiz Duarte – Foto: Maria Fernanda Salinet/NDA tragédia, ocorrida no dia 25 de janeiro, deixou incertezas e traumas aos atingidos, que viram suas casas serem destruídas pela força da água. Muitas delas estão sujas, com marcas da água e com móveis estragados. O vazio nos lares, que ficaram em silêncio sem as conversas e risadas, é sentido pelos moradores.
“Não se escuta mais crianças brincando, a rua está vazia, não tem mais gente”, lamenta Amanda Nicolet, de 26 anos, que mora há 23 no local. “Aqui moravam quatro crianças: as filhas da dona Carla, junto com os filhos do Pablo. Elas brincavam o dia inteiro nessa rua”, lembra a professora.
Amanda é uma das poucas atingidas que conseguiu voltar para casa, mesmo com uma série de danos. No entanto, segue com problemas para contabilizar os prejuízos e continuar a viver em meio a incertezas. Entre os problemas estão a falta do carro para trabalhar, as portas e janelas de casa estragadas e muitas perdas pessoais, que nunca serão repostas.
O desastre atingiu 66 pessoas e 35 edificações, das quais nove sofreram interdição provisória e seis foram interditadas para demolição após vistoria da Defesa Civil. Muitos moradores estão em hotéis ou casas de amigos e parentes, além de apartamentos pagos pela Casan.
“Um lar não é apenas geladeira e fogão”
“A Casan fez um grande avanço em muitas coisas, mas ainda há uma dificuldade de a empresa entender que uma vida, uma história, um lar não são construídos com geladeira, fogão e cama”, explica Amanda. “Ele é construído com pequenas coisas, que não serão trazidas de volta, mas precisam ser pagas e mensuradas”.
Amanda Nicolet mora há 23 anos na servidão Manoel Luiz Duarte e relata que as portas e janelas de sua casa ficaram danificadas – Foto: Maria Fernanda Salinet/NDAs fotografias são um exemplo do que a professora detalha. Moradores como o autônomo Rodrigo Albano, de 32 anos, exemplificam isso. “Perdi fotos da minha mãe, em preto e branco, e dezenas de livros raros, que não se encontram mais”. O artesão trabalhava em casa, onde morava há 17 anos. Com o rompimento, perdeu todo o material profissional.
Ao lado da companheira, Patrícia Teles, de 47 anos, Rodrigo alugava uma casa ao lado de onde moravam. O lugar acabou sendo condenado e demolido. Também autônoma, a esposa perdeu o computador de trabalho, onde guardava outros registros pessoais, quando o equipamento foi levado pela força da água.
A casa onde o casal morava foi interditada e precisa de uma reforma para poder ser habitada novamente. Por enquanto, os dois estão em uma quitinete não muito distante dali, alugada pela Casan. “O aluguel é renovado semanalmente e é muito incerto. Temos receio de que não paguem”, afirma Patrícia.
“Só quero voltar para casa”
Maria Nunes, de 56 anos, mora há 24 anos na servidão Manoel Luiz Duarte. “Perdi tudo. De dentro da minha casa só sobraram as paredes. As paredes ficaram manchadas e as portas não fecham direito”.
Dona Lia, como é conhecida, conta que precisou pular o muro, subir na restinga e ir pelas dunas da Lagoa para se salvar na trágica manhã. O marido a acompanhou na situação desesperadora. “Na hora que saímos, meu vizinho ficou horas em cima da árvore para se salvar. Foi um sufoco”, aponta.
Dona Lia precisou subir no muro e escapar pela restinga para se salvar durante a tragédia – Foto: Maria Fernanda Salinet/NDAmbos perderam o emprego com a pandemia e estão morando em um apartamento cedido pelo ex-chefe do marido. “Eles [Casan] podiam pelo menos levar a gente na loja. A gente não quer nada a mais do que a gente tinha, só comprar os móveis mais necessários para pelo menos conseguir voltar para casa”, desabafa. “Eu só quero voltar para casa”.
Prejuízos financeiros
Um pouco atrás da casa de Dona Lia está a pousada do paulista Ubirajara Camargo Júnior, o Bira, de 26 anos. Ele mora há um ano e dois meses em Florianópolis, onde gere seu negócio. Perguntado sobre a situação desse último mês, ele diz que ainda tem muita coisa para conversar.
O paulista narra desde o dia seguinte à tragédia, quando equipes da Casan foram às casas para realizar a limpeza e o inventário dos bens. “Às 7h da manhã tinha 50 funcionários da Casan aqui. Eles já estavam na porta para fazer o inventário do que você perdeu. Isso mostra despreparo total. A primeira coisa [deveria ser] dar auxílio psicológico e médico”, defende.
Dona Lia também relembra a manhã de 26 de janeiro. “Eles tiraram tudo. Tinha corrente de ouro que eu sabia onde estava, mas como tiraram sem eu saber, não pude pegar nada”, diz.
Patrícia Teles perdeu todos os pertences pessoais após a tragédia, mas conta que o pior são os pesadelos que não a deixam dormir – Foto: Maria Fernanda Salinet/NDBira garante que, em cinco minutos de inventariado, não poderia lembrar de muitas coisas — vários objetos foram lembrados apenas nas semanas seguintes. “Há poucos dias, quando alguém falou de acampar, lembrei que tinha uma barraca que acabou sendo perdida”, afirma.
Em relação aos negócios, o futuro é incerto, já que ele não sabe se conseguirá manter a pousada.
“Eu, que sempre me julguei forte e racional, fiquei surpreso com o jeito que os pensamentos mudam depois que a gente passa por uma situação dessa”, garante Bira. Mesmo com a pandemia, ele estava com uma boa ocupação na pousada e tudo estava dando certo — até a fatídica manhã. “Sempre fui muito positivo, mas hoje não sei se vou ter força para assumir os riscos novamente. Ficamos mais conservadores”.
Danos psicológicos e imateriais
Desde a tragédia, Patrícia Teles conta que tem pesadelos e problemas para dormir. “Todas as noites vêm à minha cabeça cenas daquela madrugada, aquele sufoco. Preciso de atendimento psicológico porque não consigo dormir”, lamenta a autônoma.
Bira relata que alguns vizinhos têm medo da chuva. “Uma chuva normal, as pessoas já encaram de outra forma”, conta.
O dono da pousada ressalta que ainda pior que o prejuízo financeiro são os danos imateriais que ficaram. “Uma vizinha perdeu a única coisa que tinha do avô, uma assinatura de punho. Fora os álbuns das pessoas mais velhas, que tinham coisas de 50 anos atrás. Toda essa história de vida é irreparável”, assegura o paulista.
A Casan garante que firmará uma parceria com a UFSC (Universidade federal de Santa Catarina) para providenciar tratamento psicológico aos atingidos, mas que ainda não estabeleceu os detalhes, como se os moradores terão alguma garantia de rapidez no atendimento.
Edital retificado da Casan
Os moradores procurados pela reportagem relataram incertezas e descontentamento com o edital retificado da companhia, publicado nesta terça-feira (23). Ubirajara Júnior e Amanda Nicolet defendem a instauração de uma assessoria independente para julgar as indenizações necessárias. “O réu não pode ser o juiz”, afirma Ubirajara.
À reportagem do ND+, a Casan informou que se trata de uma licitação dirigida, proibida por lei. “O edital prevê que os moradores contratem a empresa que quiserem. O edital só não concordou que se contrate uma empresa indicada por eles, e a Casan não pode fazer isso porque é uma licitação dirigida”, afirmou na manhã de quarta-feira (24).
Com isso, os moradores precisam procurar três empresas para fazer orçamentos dos danos de suas casas, incluindo objetos pessoais e estruturais das edificações.
De acordo com o advogado popular Rodrigo Timm, membro da Renap (Rede Nacional Advogados Populares), que atua em conjunto com o MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), os moradores precisam adiantar os valores para orçar as reformas e, posteriormente, a Casan ressarci-los, mas que há outra possibilidade.
Interior de uma pousada na servidão Manoel Luiz Duarte um mês após o rompimento ainda com rastros da tragédia – Foto: Maria Fernanda Salinet/NDSegundo o advogado, “a Casan ignora que, em casos de emergência e calamidade, empresas públicas podem realizar contratações de outras formas, como aplicar políticas públicas. A administração pública faria um chamamento de uma OC (Organização Civil) e as inscritas seriam classificadas para fazer esse levantamento dos prejuízos dos atingidos. A decisão é política”, defende.
O receio dos moradores é que o valor integral da indenização não seja pago, mas a Casan garante que essa não é uma possibilidade. “O espírito da Casan é pagar tudo, desde que esteja legal. Como somos uma empresa pública, não estamos aqui para pagar mais ou menos, mas o legal”, diz a companhia.
Conforme o edital, a Casan depositará, em cota única, um salário mínimo regional (R$ 1.467) a cada adulto atingido, meio salário (R$ 733,50) por adolescente e um quarto do salário (R$ 366,75) por criança. O valor é referente ao ressarcimento das despesas emergenciais do último mês.
A companhia também mantém a garantia de um adiantamento emergencial de até R$ 10 mil, “com o objetivo de facilitar o retorno dos atingidos às casas e começar a retomar a rotina, enquanto a avaliação dos prejuízos é levantada para posterior pagamento integral”. O credenciamento do edital está aberto até 31 de março para ser efetuado pelos atingidos.