Os dados revelam a tendência de queda do cultivo do milho em Santa Catarina. Os 470 mil hectares dedicados ao plantio do grão na safra de 2012/13 diminuíram em mais de 25% na safra de 2022/23 no Estado.
A produção de João Fachinello Neto, de 37 anos, em Faxinal dos Guedes, no Oeste catarinense, é um exemplo desse movimento. Ele argumenta que há uma tendência crescente dos agricultores em preferirem a soja em detrimento do milho, e um dos fatores é a questão financeira.
Produtor rural de Faxinal dos Guedes, no Oeste catarinense, João Fachinello diminuiu o plantio de milho nos últimos anos – Foto: Ale Baggatini“O custo de produção da soja muitas vezes se mostra mais atraente em comparação ao do milho, o que contribui para uma maior rentabilidade na atividade agrícola”. No mesmo período de 10 anos, o plantio da soja aumentou em 52% no Estado.
SeguirEntre os principais motivos que tornam a produção do milho cada vez mais desafiadora em Santa Catarina, está o transporte.
Para João Fachinello, existe uma clara necessidade de melhoria na condição das rodovias da região. A malha viária atualmente é a única opção para mover os grãos.
“A infraestrutura atual apresenta deficiências que impactam diretamente na eficiência do transporte, dificultando a fluidez das operações logísticas e aumentando os custos associados à importação.
Portanto, a melhoria das rodovias é um ponto crítico a ser abordado para melhorar o processo de importação de milho”, diz.
Fachinello reforça que investimentos na infraestrutura do transporte são fundamentais para o desenvolvimento econômico de Santa Catarina. “Especialmente considerando as distâncias entre as regiões.
Esses investimentos são cruciais para proporcionar facilidades no transporte e melhorar a eficiência logística”, argumenta o produtor rural.
Ferrovia é “estratégia fundamental a longo prazo”
Para a produção rural, é clara a necessidade de melhorias na malha viária do Estado. Mas é suficiente? Na opinião do produtor João Fachinello, é uma medida urgente para o curto prazo, mas a solução é outra.
“O investimento imediato nas rodovias é crucial para melhorar a infraestrutura existente, garantindo uma logística mais eficiente no curto prazo. Ao mesmo tempo, a implementação das ferrovias é uma estratégia fundamental a longo prazo”, diz.
Para ele, a ferrovia, opção defendida por entidades da região, oferece “uma alternativa de transporte mais sustentável e robusta”.
A Nova Ferroeste, também conhecida como Corredor Oeste de Exportação, é um projeto que anima o produtor. “Promete trazer benefícios para minha produção e a economia local”, antecipa.
A expectativa é que ocorra um fortalecimento substancial da agroindústria com a ferrovia que deve atender cidades do Mato Grosso do Sul, Paraná e Santa Catarina.
“Essa iniciativa não apenas promoverá a logística de transporte, mas também terá um impacto positivo no desenvolvimento econômico regional’, aposta Fachinello.
Rodovia que cruza o Oeste já foi considerado “o pior segmento rodoviário do Brasil”
Boa parte da produção do Oeste catarinense depende da BR-163 para o escoamento. A rodovia, que liga o Rio Grande do Sul ao Pará, possui um trecho de 47 km na região catarinense, entre Dionísio Cerqueira e São Miguel do Oeste.
A via é considerada fundamental para o agronegócio e a produção industrial, tendo efeitos importantes em todo o Estado. A situação das estradas, no entanto, deixa a desejar.
Poeiras, buracos, pedras e até falta de asfalto em alguns trechos são cenários já conhecidos no cotidiano dos motoristas.
Uma pesquisa da CNT (Confederação Nacional do Transporte) realizada em 2021 classificou o trecho como o “‘pior segmento rodoviário do Brasil”.
Trilhos em SC podem ajudar a reduzir o Custo Brasil
O coordenador do Plano Estadual Ferroviário do Paraná, Luiz Henrique Fagundes, que encabeça o projeto da Nova Ferroeste, avalia que o transporte de cargas por ferrovias no Corredor Oeste pode reduzir em até 30% o Custo Brasil – nomenclatura para as despesas de produção por falta de infraestrutura adequada.
Para o produtor rural João Fachinello, essa é uma projeção animadora e “bastante positiva”.
“Consideramos essa infraestrutura como fundamental para a nossa região, sendo algo que deveria já estar em fase de execução.
Sua melhoria é para contribuir com as atividades da agroindústria, proporcionar eficiência logística, reduzir custos operacionais e, consequentemente, contribuir para a competitividade”, destaca.
Custo Brasil é o termo que se refere ao conjunto de dificuldades que “atrapalham” o crescimento do país (sejam econômicas, burocráticas, trabalhistas ou estruturais).
Esses fatores afetam os negócios, as produções, os preços dos produtos nacionais e os investimentos no país, além de contribuir para o aumento da carga tributária.
Atualmente, o Brasil ocupa a 87ª posição no ranking que mede o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) Global.
Rota do Milho é aliada para melhorar os resultados na produção
A chamada Rota do Milho é um assunto que permeia as pautas do governo catarinense há algum tempo, fruto da preocupação com a diminuição e os desafios da produção do grão no Estado.
Produção de milho em Santa Catarina caiu mais de 25% em 10 anos, enquanto a de soja aumentou em mais de 52% – Foto: Ale BaggatiniTrata-se da definição de um trajeto que visa diminuir os custos logísticos para a importação do milho e abastecimento das agroindústrias no Estado.
O assunto ganhou um Grupo de Trabalho dentro do Governo de Santa Catarina em 2021 para ajudar na agilidade dos processos e buscar apoio parlamentar. A Rota do Milho envolve também tratativas com o Paraguai e a Argentina.
“É uma solução a curto prazo bastante eficaz. Estou otimista de que obtenha resultados positivos para agilizar o processo de importação e atender às demandas do setor agrícola de maneira eficiente”, conclui o produtor rural João Fachinello.