‘Inunda tudo’: engenheiros revelam motivo para escoamentos não darem conta da chuva em SC

Profissionais explicam como as estradas podem ficar alagadas com a chuva e porque, de fato, o escoamento muitas vezes não funciona

Foto de Ana Schoeller

Ana Schoeller Florianópolis

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As fortes chuvas em Santa Catarina deixam mais uma dúvida nos catarinenses, afinal, como as estradas não escoam as águas após tempestades? Para responder este questionamento, o portal ND+ buscou o comitê de crise sobre este tema do CREA (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia) nesta sexta-feira (17).

Estradas chuvas estragam rodovia No bairro Budag, em Rio do Sul, a cheia é intensa e causa prejuízos nesta sexta-feira (17) – Foto: Gabriela Szenczuk/NDTV

Só para se ter uma ideia, em Tubarão, na região Sul do Estado, as chuvas registradas foram de 80 a 110 mm, de acordo com o boletim da Defesa Civil de Santa Catarina. O que, segundo os engenheiros, contribui para problemas nas estradas.

Na manhã desta sexta-feira, outro problema foi registrado. Em Biguaçu, na Grande Florianópolis, o volume de chuvas gerou um deslizamento. De acordo com o Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina, a pista precisou ser interditada na SC-407 pelo acúmulo de água.

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Escoamento das águas da chuva?

Segundo o Crea, o escoamento de águas pluviais em rodovias não é somente uma preocupação catarinense, mas sim global.

“A função principal das rodovias é o tráfego de veículos com segurança e para que isso ocorra é imprescindível um sistema de drenagem, responsável por evitar o acúmulo de água sem prejudicar o desempenho dos carros na estrutura do pavimento”, escreve o Conselho.

Segundo o comitê de crise, criado após as fortes chuvas do Estado em setembro, muitas rodovias têm como projetos originalmente o atendimento às necessidades da época de construção. Assim, a falta de planejamento e manutenção específica causa impactos nas estradas.

Estradas são impactadas por chuvas em Santa Catarina Cidade já contabiliza vários pontos de alagamentos e algumas ocorrências de deslizamentos – Foto: Defesa Civil/Divulgação ND

No entanto, os profissionais ressaltam: não é possível deixar “de fora” desta conta o volume de chuvas em curto período de tempo.

A resposta do conselho finaliza enfatizando que é preciso manutenção preventiva adequada nas rodovias, justamente para evitar que as chuvas gerem tantos transtornos como o fechamento das estradas e rompimento de asfalto, por exemplo.

Como o asfalto se rompe com a chuva?

A água da chuva, ao infiltrar-se em fissuras e rachaduras já existentes no asfalto, enfraquece a estrutura. Além disso, chuvas intensas contribuem para a erosão do solo ao redor das estradas, especialmente próximo às bordas, resultando em depressões ou buracos.

A combinação da chuva com o tráfego veicular acelera o desgaste do asfalto, já que a água pode se infiltrar nas rachaduras formadas pelo tráfego constante, levando à expansão dessas fissuras. Em regiões com congelamento da água da chuva, o ciclo de congelamento e descongelamento pode criar mais tensão nas superfícies da estrada, contribuindo para a formação de buracos.

O que diz o Estado?

Segundo a Secretaria de Infraestrutura do Estado, responsável pela manutenção das rodovias, a manutenção nas rodovias é constante.

“O Programa Estrada Boa, por exemplo, está em curso apesar dos eventos climáticos extremos desde o começo de outubro. Ele contempla esse ponto específico nas rodovias englobadas pelo programa. Nossa prioridade agora é liberar pistas e assim que o tempo permitir resolver as situações mais críticas de forma emergencial”, explica a pasta.

Este programa impacta diretamente 200 municípios e abrange 600 locais.

Segundo o órgão, há sim contratos emergenciais para que as pistas sejam limpas, arrumadas, e afins, mas admite que, em alguns casos, podem haver vácuos entre os contratos emergenciais e novas empresas assumirem os serviços.

O buraco de 10 metros

Há pouco mais de um mês, no dia 9 de outubro, após dias de chuva, uma parte do asfalto da SC-418 cedeu e criou um enorme buraco de 10 metros na rodovia durante a madrugada. O trecho atingido fica em São Bento do Sul, no Planalto Norte de Santa Catarina. A via precisou ser parcialmente interditada.

Buraco na via após fortes chuvas em Santa Catarina Terra cedeu e abriu buraco na via – Foto: Prefeitura de São Bento do Sul/Divulgação

Qual a solução?

Uma das soluções apontadas pelo comitê de crise do Crea é a presença de sistemas de retenção de águas, como lagoas de retenção em diversas rodovias.

Essas lagoas de retenção em rodovias são áreas especialmente projetadas para guardar a água da chuva. As construções são como piscinas gigantes ao lado da estrada.

Quando chove muito, em vez da água escorrer pela estrada e causar problemas, ela vai para essas lagoas. É como se as lagoas “segurassem” a água por um tempo, evitando enchentes na estrada.

Depois, aos poucos, a água vai saindo dessas lagoas de forma controlada. É uma maneira de lidar com a água da chuva para manter as estradas mais seguras e prevenir alagamentos.

Outra solução apontada pelo Crea é a promoção de áreas verdes nas cidades, como parques e jardins.

“Essa é uma prática que auxilia na absorção da água da chuva, reduzindo o volume que flui para os sistemas de drenagem. Nisso, o poder público desempenha um papel essencial no desenvolvimento de políticas eficazes para a gestão de águas pluviais, considerando a retenção e o direcionamento adequado da água”, reforça.

O Conselho ressalta ainda a importância de um planejamento urbano sustentável onde a engenharia tenha práticas que levem em conta a topografia, o uso do solo e o impacto das construções nas condições de drenagem.

Planejamento urbano sustentável

Em um planejamento urbano sustentável, as cidades podem ser projetadas pensando no bem-estar atual e futuro das pessoas. Isso inclui não só a criação de parques, como o uso de calçadas largas e ciclovias incorporadas para promover um estilo de vida ativo e reduzir a dependência de carros, contribuindo para a saúde da população e a diminuição do tráfego.

Outro importante ponto neste planejamento são os sistemas eficientes de reciclagem e coleta seletiva de lixo. Em tese, estes sistemas são implementados para minimizar a quantidade de resíduos enviados para aterros sanitários.

Investimentos em transporte público, como ônibus e metrô, também ajudam a construção de uma cidade mais sustentável. Nela, as políticas públicas visam reduzir a emissão de poluentes do transporte individual.

Em resumo, para crescer dessa forma os engenheiros/arquitetos e poder público precisam planejar levando em conta as características naturais da região para evitar construções em áreas propensas a desastres naturais.

A participação comunitária é valorizada neste tipo de crescimento, garantindo que as decisões de planejamento reflitam as necessidades e desejos locais.

Além disso, a preservação de áreas históricas e culturais é incorporada, mantendo a identidade única da comunidade.

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