Utilizado por 5,3 milhões de catarinenses, fossa é sistema que exige cuidado e manutenção

15/12/2022 às 08h10

Com uso de fossas, moradores são responsáveis pela criação e manutenção do sistema de coleta e descarte de dejetos; desconhecimento sobre o assunto gera poluição

Lorenzo Dornelles Florianópolis

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“Este aqui é um sistema de esgoto que estava sem manutenção há muito tempo e acabou trancando a tubulação. Quando a gente foi abrir, todo o dejeto veio de uma vez só, por isso esse chafariz de lodo e resíduos”.

Glaicon Tulio, desentupidor de fossas em Florianópolis, descreve a cena enquanto mostra um vídeo em seu celular para a reportagem do ND+.

Com uso de fossas, moradores são responsáveis pela criação e manutenção do sistema de coleta e descarte de dejetos- Foto: Marcelo Feble/NDTVCom uso de fossas, moradores são responsáveis pela criação e manutenção do sistema de coleta e descarte de dejetos- Foto: Marcelo Feble/NDTV

As imagens do “chafariz de resíduos” foram gravadas no banheiro de uma casa, no Sul da Ilha. É um caso extremo, mas não tão incomum no dia a dia do profissional – que mantém um perfil na rede social TikTok, no qual compartilha algumas situações, no mínimo, desagradáveis.

A falta de manutenção que Glaicon menciona não é por parte da prefeitura ou da Casan – responsável pela rede de esgoto na Capital -, mas dos próprios moradores da residência.

Afinal, o uso das fossas (que é um sistema individual de esgoto) ainda é realidade em boa parte das casas de Florianópolis. E quando não há manutenção devida, o resultado é entupimento, transbordamento e saturação do solo.

A grande maioria dos municípios catarinenses ainda não conta com rede de coleta de esgoto, o que faz da fossa o sistema mais comum encontrado em Santa Catarina. De acordo com os dados mais atualizados do SNIS, 73% da população catarinense conta com o sistema individual de coleta.

São 5,3 milhões de habitantes no Estado que são os gestores diretos do próprio sistema de esgoto. O problema principal é que muitos nem sabem disso. Apesar de ser tão “popular” nos domicílios catarinenses, o funcionamento e as responsabilidades em torno da fossa ainda são desconhecidas pela população em geral.

“Poucas pessoas realmente se preocupam com o sistema, eles se preocupam com os problemas deles. ‘Meu vaso não desceu, vou chamar uma empresa’. Mas ele não faz uma prevenção visando cuidar do meio ambiente”, desabafa o desentupidor Glaicon Tulio.

É daí que vem boa parte das dificuldades relacionadas ao saneamento básico em Santa Catarina. Tanta gente negligenciando o próprio esgoto – muitas vezes em grandes centros urbanos – resulta em situações ambientais, econômicas e sanitárias desfavoráveis.

Fossa exige cuidados e manutenção

Nem todos sabem para onde vai o próprio esgoto ou não têm conhecimento se possuem um sistema coletivo ou individual de tratamento. A técnica sanitarista Mariana de Souza explica que “ter uma fossa é como se você tivesse uma mini estação de tratamento no seu quintal”.

No entanto, é preciso lembrar que esse sistema é dimensionado para passar por uma higienização periódica.

Mariana reforça que a fossa por muitas vezes é esquecida. “O que mais acontece é passar cimento em cima, fazer uma garagem, colocar uma lajota… Esses pontos de inspeção são necessários e, caso venha a extravasar, você precisa limpar por ali”.

Há casos em que a fossa é ignorada por desconhecimento da população. “Às vezes as pessoas tapam até sem querer, elas falam ‘ah, eu não tenho (fossa)’. Mas têm sim. Não tem como não ter, se não o esgoto está indo para onde? Ele não some”, relata.

Segundo o desentupidor Glaicon Tulio, o descaso é constante. Ele afirma que existe uma tendência a transferir as responsabilidades em casas que têm muita rotatividade, no que chama de “cultura do aluguel”, diz. “Eles pensam: ‘vou pagar pra deixar pra outro?”.

Cenário que dificulta ainda mais o serviço de quem vai limpá-las. “Acontece muito desses casos de a gente nem saber onde ‘tá’ a boca da fossa, e outra coisa que acontece muito também é o transbordo, que a fossa enche de um jeito que chega a transbordar pra rua”, destaca Glaicon.

Como saber se tenho fossa ou rede de esgoto em casa?

Caso o morador não saiba qual o tipo de tratamento ele tem em casa, existem algumas formas simples de identificar. Um jeito bem prático é observar se há um ponto de inspeção na rua onde mora. Ele geralmente se encontra no meio da rua ou na calçada, uma simples tampa. Estes são os pontos de visita da rede.

Outra maneira é simplesmente observando o quanto você paga pelo serviço. Os moradores são obrigados a ligar o esgoto na rede coletora assim que ela está disponível na rua. Portanto, a tarifa passa a ser cobrada do morador.

Transbordamento e infiltração no solo são riscos ao meio ambiente

Até chegar ao ponto de extravasar ou provocar danos mais graves ao solo, a fossa passa por alguns estágios. De acordo com Glaicon Túlio, o primeiro passo para essas situações é a própria configuração incompleta da maioria dos sistemas que está presente nas casas.

“O que a gente costuma encontrar é só fossa e sumidouro. 90% dos casos não tem filtro. O impacto disso é contaminação do solo, porque o dejeto é jogado diretamente, sem a devida filtragem. A longo prazo tranca todo o sistema”, explica.

A partir desse tipo de “brecha”, o esgoto para de trabalhar. O que significa que todo resíduo produzido – do chuveiro até a caixa de gordura – se acumula no mesmo local. E quanto mais tempo sem manutenção, maior o estrago.

É nesse momento que o morador começa a sentir os incômodos, já que não há mais absorção. “O que acontece? tranca o próprio sistema, e aí pode  vazar em casos de infiltração, de brotar no chão, em alguns casos. Porque o sistema está muito cheio, não tem mais por onde ir, e começa a expulsar por onde consegue, né?” relata o desentupidor.

E nesse caso, começa a doer também no bolso, já que a limpeza começa a ser necessária com mais frequência. “A gente limpa e acaba que dá dois, três meses e o sistema está cheio de novo,  transbordando ou criando infiltrações”.

COMO FUNCIONA UMA FOSSA SÉPTICA

Entenda como funciona uma fossa séptica – Foto: Leandro MacielEntenda como funciona uma fossa séptica – Foto: Leandro Maciel