‘Superpovoamento’ é desafio: como o poder público pretende resolver as demandas estruturais?

09/07/2022 às 16h00

Proposta da Prefeitura de Florianópolis passa por verticalização e adensamento populacional

Giovanna Pacheco Florianópolis

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A proposta de adensamento e verticalização tem como princípio a intenção de descentralizar os bairros do município e controlar o crescimento que vem ocorrendo nos últimos anos.

Para a prefeitura, um crescimento sem planejamento afeta todo um cenário de infraestrutura, preservação e malha viária.

Procura de moradores na região é cada vez maior – Foto: Leo Munhoz/NDProcura de moradores na região é cada vez maior – Foto: Leo Munhoz/ND

Nos bairros da região Leste de Florianópolis, o limite atual é de 2 pavimentos por construção.

O secretário de Mobilidade e Planejamento Urbano da Capital, Michel Mittmann, menciona que o modelo atual do município, de baixa densidade, é um dos principais problemas para questões como custo da terra, mobilidade urbana, preservação do meio ambiente e capilaridade do saneamento básico.

Isso porque a população não se espalha pela Ilha de Santa Catarina e fica concentrada em pequenos pontos, o que faz com que não haja uma ligação entre os bairros e encarece os custos de infraestrutura.

Para o presidente do Conselho Comunitário da Barra da Lagoa, Gilson Manoel Bittencourt, esta verticalização e o consequente adensamento populacional são um “mal necessário”, mas que precisa ser ordenado.

“Quando eu tinha 18 anos a minha rua tinha 16 casas, hoje tem 120. Falta uma estrutura de fiscalização para conseguir manter esse Plano Diretor na linha”, ressalta.

Crítica que vai ao encontro dos pontos apresentados pelo arquiteto e doutor em Urbanismo Lino Peres.

“Não dá para fazer uma proposta que permita aumentar pavimentos, por exemplo, se a infraestrutura está desatualizada. Vai estourar o que já está estourado, é necessário analisar essa capacidade de suporte para qualquer alteração. O território hoje já não suporta mais, ele agoniza”, afirma Peres, que já foi vereador da Capital.

Ele admite que a ideia do adensamento para a Ilha de Santa Catarina é uma proposta válida, mas que, antes de aumentar essa taxa “é preciso provar que as regiões estão subutilizadas e quais são elas. A cidade de Florianópolis é uma das mais segregadoras, se você incentiva o adensamento sem pensar no social, ela vai marginalizar ainda mais”.

Prefeitura diz que proposta visa ampliar infraestrutura

Conforme dados do Ipuf (Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis), a densidade urbana interfere diretamente nos custos de infraestrutura de um município e quanto maior for esta taxa de densidade, menor será o custo de implantação de infraestrutura por domicílio.

“Um exemplo: a gente precisa construir uma praça e não sobrou nada de áreas públicas nesses lugares. Então todos os incentivos, as centralidades, são para criar isso. É conseguir pegar e criar uma rua de conexão, paga por um empreendimento, que, a partir dos incentivos, gera benefício para a comunidade. E nessa ruazinha de conexão eu possa criar uma horta comunitária, uma praça”, ressalta Mittmann.

Água e saneamento

“Não há rede de esgoto nos bairros da Prainha, do Torquato, Fortaleza da Barra. Para resolver isso, teria que incluir o saneamento básico e limitar a evolução de mais casas. E só poderiam crescer se tivesse um saneamento bem planejado pela prefeitura”, diz o presidente do Conselho Comunitário da Barra da Lagoa, Gilson Manoel Bittencourt.

Como contraponto, o secretário Michel Mittmann explica que a Ilha tem o maior corpo hídrico possível para realizar o tratamento de esgoto: o mar.

“Temos capacidade de suporte para processar esgoto o quanto quiser, só depende do quanto investir nisso. O que entra justamente no ciclo: se não produz economicamente para investir, vamos estar sempre atrás. O que queremos é propiciar empreendimentos que paguem a conta, porque hoje ninguém paga a conta”.

No ‘nordeste’ da Ilha, maior bairro do município demanda ‘cuidados redobrados’

Circundando a região da Lagoa, o bairro de São João do Rio Vermelho é classificado por alguns mapas de divisão das regiões de Florianópolis como parte do Leste da Ilha.

Visto que não há uma divisão oficial por parte da prefeitura, o maior bairro da cidade em território pode ser compreendido como um trecho que contempla o ‘nordeste’ da Capital.

Servidão Vicentina Custódia Santos, no bairro Rio Vermelho – Foto: Leo Munhoz/NDServidão Vicentina Custódia Santos, no bairro Rio Vermelho – Foto: Leo Munhoz/ND

O secretário de Mobilidade e Planejamento Urbano da Capital, Michel Mittmann, cita o local como um dos beneficiados pelo adensamento populacional.

“São 65 mil pessoas que precisam ir atrás de emprego em outros locais da cidade, pegar trânsito todos os dias, porque não existem oportunidades econômicas mínimas no bairro. Hoje não dá para construir um hotel, que pode movimentar mais a economia. Essa possibilidade vai reduzir o trânsito, melhorar a mobilidade ativa em toda a cidade e vamos conseguir implementar boas infraestruturas”, afirma o secretário.

Mas o adensamento é um fator que preocupa moradores representados pela Amorv (Associação dos Moradores do Rio Vermelho). O presidente Daniel Lindomar Generosa, o Rone, comenta que é necessário cuidado redobrado.

“Nós temos o maior parque florestal da cidade, a maior praia em extensão preservadíssima. A Lagoa da Conceição nasce aqui. Rios, nascentes e, principalmente, o maior aquífero da cidade, que abastece o leste e norte da Ilha de Santa Catarina. Nada mais justo que o Rio Vermelho comece a ser visto com outros olhos”, entende o líder comunitário.