‘Tudo vira prédio’: metro quadrado valorizado molda crescimento e gera debates em Florianópolis

22/07/2022 às 06h00

Estreito, Coqueiros e Capoeiras estão entre os bairros mais caros da Capital catarinense

Marinês Barbosa de Jesus Florianópolis

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O Continente representa hoje a terceira maior arrecadação de IPTU do município, em torno de 40 milhões anuais de acordo com dados do Conselho de Desenvolvimento do Continente (Codecon).

Os bairros Estreitos, Coqueiros e Capoeiras estão entre os 10 bairros com os imóveis mais caros de Florianópolis.

O metro quadrado deles varia entre R$ 5,3 mil e R$ 7,2 mil, de acordo como índice FipeZap de Preços de Imóveis Residenciais Anunciados.

Beira-mar continental, no Estreito, bairro que registra valorização imobiliárianos últimos anos – Foto: ANDERSON COELHO/ ARQUIVO/NDBeira-mar continental, no Estreito, bairro que registra valorização imobiliárianos últimos anos – Foto: ANDERSON COELHO/ ARQUIVO/ND

A pesquisa foi realizada com base em anúncios da internet divulgados em dezembro de 2021. Com a valorização do metro quadrado, a região vem chamando a atenção de grandes empresas e construtoras.

Fundada há 50 anos na Capital catarinense, a construtora Formacco Cezarium, já entregou mais de cinco mil unidades habitacionais na Grande Florianópolis e hoje está investindo na região continental.

De acordo como diretor de engenharia, Tonio Cesar Bento, a escolha do Estreito se deu pela grande demanda por empreendimentos desse tipo na região.

“Temos um residencial que está em fase de análise de projeto na Prefeitura de Florianópolis. Já o outro, em fase de concepção e desenvolvimento inicial dos projetos. Ambos são residenciais multifamiliares”.

Bento detalha ainda que um dos empreendimentos, o Acqua Continentalle, tem frente para duas ruas de grande movimento no bairro do Estreito (Cel. Pedro Demoro e Gen. Liberato Bitencourt) e utiliza o incentivo de uso misto, que permite o aumento de dois pavimentos residenciais, conforme legislação existente.

“O pavimento térreo tem sua área destinada quase exclusivamente para uso comercial, o que é de interesse público já que disponibilizará grandes espaços para o comércio, ofertando trabalho e descentralizando essa atividade que ficava concentrada no Centro da cidade. A geração de áreas destinadas ao comércio incentiva a permanência nos bairros, criando novos centros de compras e de lazer”, acrescenta.

A partir da década de 1970, com a construção da ponte Colombo Salles e a abertura da Avenida Poeta Zininho (Beira-Mar Continental), a verticalização tem transformado a paisagem local de quem passa pelo Estreito.

Nos últimos 20 anos, o comércio também expandiu. Hoje são mais de 12.730 empresas na região continental, com um faturamento anual de R$ 10,7 bilhões, de acordo comum levantamento da Acif (Associação Comercial e Industrial de Florianópolis), que teve como referência os anos de 2019 e 2020.

O maior setor é o de serviços, responsável por 8.072 estabelecimentos, contra 3.045 lojas comerciais.

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“Com a valorização do metro quadrado na região, tudo está virando prédio, sem a contrapartida de aumento e melhoria dos serviços públicos”, é oque pensa o presidente da Associação da Praia do Meio, Roberto Boell Vaz.

“A pergunta que fazemos é: qual o modelo de crescimento que desejamos para Florianópolis? Qual cidade queremos para daqui 10, 20, 30 ou 50 anos? Tudo estará sendo definido agora. E as pessoas que desejam definir isso, pensam apenas, em sua maioria, em ganhos financeiros imediatistas”, desabafa.

“Se usarmos modelos de crescimento e sustentabilidade aplicados em outras cidades, a exemplo de Barcelona, Lisboa, João Pessoa, Foz do Iguaçu, entre outras, mesmo respeitando as diferenças existentes.

Dá pra reparar que por aqui primeiro se constrói para ganhar e depois corremos atrás da infraestrutura necessária para atender as demandas.

Quando na verdade deveria ser o contrário, primeiro criar as condições necessárias para aquilo que se deseja construir no futuro, fornecer a infraestrutura, para depois edificar”, reflete Roberto.

Perda do potencial 

Hoje o Continente é uma das áreas que mais se desenvolve na Grande Florianópolis.

“Por alguns anos passou sob um limbo de identidade. Um bairro que deixou de ser o principal acesso à ilha e sofreu uma perda do potencial comercial. Estamos vendo nos últimos anos um renascimento do Continente, novos empreendimentos, além de um reencontro de comércios e serviços com vocações diferentes. Vemos o Estreito e o Balneário com uma vocação de residências com uma relação forte de comércios e serviços distintos. Em Coqueiros vemos uma vocação clara para o lazer”, observa o representante do Floripa Sustentável.

O secretário de Mobilidade e Planejamento Urbano, Michel Mittmann, reconhece que o Plano Diretor temas políticas certas, mas na sua prática, a execução não está obtendo o resultado esperado.

“Só para terem uma ideia, não foi possível incluir nenhuma habitação no Minha Casa Minha Vida nos anos de ouro do programa. Mas daqui a pouco retorna um programa desse ou muda a política nacional e nós não estaremos preparados para receber porque não fecha a conta. Qualquer pessoa que queira fazer empreendimentos de baixo custo não consegue pelo preço da terra e pela limitação que damos ao rendimento desse tipo de projeto.

Portanto, a nossa proposta com o Plano Diretor é incentivar de forma bastante vigorosa quem queira produzir habitação social, até para ter uma cidade mais equilibrada do ponto de vista de oportunidades para diferentes populações. Isso pode acontecer como incentivo direto para quem quer construir e outro é que em alguns lugares a pessoa compra o direito de construir um pouco a mais e desde que pague um pouco a mais para o fundo de habitação ou construa habitações intersociais também dentro de regras que tem que ser colocadas”.