‘Caixa misteriosa’ encontrada em praia de Florianópolis tem ao menos 60 anos; entenda história

Caixa foi encontrada no dia 21 de novembro, por moradores, em frente ao restaurante Paixão de Verão, na praia dos Ingleses, no Norte da Ilha

Foto de Ada Bahl

Ada Bahl Florianópolis

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Um vídeo de uma “caixa misteriosa” encontrada na praia dos Ingleses, em Florianópolis, no final de novembro, despertou a curiosidade de milhões de usuários que assistiram à gravação. Comentários de perfis de todo o Brasil relataram casos semelhantes em seus estados e a Capitania dos Portos se manifestou sobre o mistério por trás do item.

A publicação do perfil @praiadosinglesesfloripa somava mais de 2,4 milhões de visualizações e 2,3 mil comentários até a manhã desta terça-feira (13).

Caixa foi encontrada por moradores da região dos Ingleses, na manhã desta segunda-feira (21) – Foto: Amoris/Divulgação/NDCaixa foi encontrada por moradores da região dos Ingleses, na manhã desta segunda-feira (21) – Foto: Amoris/Divulgação/ND

O professor do Museu da Capitânia dos Portos de Florianópolis, Jules Marcelo Rosa Soto, explica que a caixa, na verdade, se trata de fardos do ciclo da borracha de 1942 a 1945. “São pelotas de látex tipicas do ciclo da borracha, oriundas de um naufrágio não identificado”, alega.

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Soto conta ainda que houve um primeiro ciclo, até 1900, e um segundo ciclo, que perdurou a 2ª Guerra Mundial. “Elas foram muito comuns no primeiro ciclo da borracha, entre 1880 até 1912, depois disso tivemos um ciclo bastante curto, que tem a ver com esse tipo de pelota, entre 1942 a 1945, justamente o período da guerra”, diz.

O professor contextualiza, explicando que quando o Brasil entra no confronto, os fardos são exclusivos de aliados e eram transportadas por diversos navios mercantes pelo mundo todo.

Fardo pode ter mais de 60 anos – Foto: @naragentil/Instagram/Reprodução/NDFardo pode ter mais de 60 anos – Foto: @naragentil/Instagram/Reprodução/ND

Segundo ele, as “caixas misteriosas” já foram encontradas em praias na África, na Ásia, na costa dos Estados Unidos e na costa da América do Sul e Caribe. O motivo para o material durar mais de 60 anos é justamente estar no oceano. “Fora do mar, o látex natural dura muito pouco enquanto disposto ao tempo, porque teria que ser vulcanizado”, explica.

“Então, essas pelotas são muito provavelmente oriundas de naufrágios. Contudo, não temos como inferir ou afirmar que se trata de um naufrágio nazista. Muito mais provável que seja de um navio aliado levando a borracha, justamente, para os Estados Unidos, onde o esforço de guerra era maior”, finaliza Soto.

Borracha natural era valiosa

A borracha transportada em fardo era utilizada durante o período da Segunda Guerra Mundial na fabricação de pneus, roupas de soldados e outros utensílios importantes. A borracha foi, durante um período, um material escasso e caro, devido a sua importância.

A moradora se aproximou e percebeu que se tratava de um objeto de látex – Foto: Ana Luisa Correa/Divulgação/NDA moradora se aproximou e percebeu que se tratava de um objeto de látex – Foto: Ana Luisa Correa/Divulgação/ND

A borracha natural é obtida a partir do látex da seringueira, que é nativa da América do Sul, mas também cultivada na Ásia. Com a escassez do insumo durante a Segunda Guerra, diversas empresas e governos correram em busca da sintetização da borracha.

Atualmente, 70% da borracha é de origem sintética, obtida a partir de derivados do petróleo, e possui um custo muito menor do que a borracha natural.

Relembre o caso

Um objeto misterioso deu o que falar entre os moradores da praia dos Ingleses, na região Norte de Florianópolis. Uma espécie de “caixa”, envolta de couro e com diversos tecidos dentro, surgiu boiando no mar na manhã do último dia 21.

É possível observar no vídeo que o objeto é retirado com esforço e está repleto de musgo e crustáceos, o que pode indicar que o objeto está há muito tempo no mar.

Curiosa, a população envolvida no achado tratou de abrir o item com as próprias mãos. A “caixa” continha uma espécie de tecido emborrachado com similaridades de couro antigo.

Foram chamados os guarda-vidas, a Guarda Municipal e, posteriormente, a Capitania dos Portos retirar da água e analisar o objeto. A guarnição disponibilizou uma viatura para transportar e encaminhar a caixa para o quartel da Marinha do Brasil.

Fardo de látex é o segundo em SC

No Brasil, desde 2018, se fala sobre essas “caixas misteriosas”. O material foi encontrado no litoral nordestino, paulista, gaúcho e catarinense. Em Santa Catarina, o fardo encontrado em Florianópolis é o segundo exemplar do Estado, em setembro de 2022 foi achado um em Imbituba, na região Sul.

Segundo o projeto, este foi o primeiro registro do exemplar no Estado – Foto: PMP-BS/Divulgação/NDSegundo o projeto, este foi o primeiro registro do exemplar no Estado – Foto: PMP-BS/Divulgação/ND

De acordo com o PMP-BS (Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos), o fardo encontrado em setembro foi o primeiro a ser registrado no Estado e, após consultas a especialistas e a documentos, confirmou-se que é o mesmo modelo achado em outras regiões do Brasil.

Sendo assim, o novo registro amplia a área de ocorrência dos fardos na costa brasileira, já que a primeira aparição foi em 2018 no litoral do Nordeste. Em 2021, apareceram também diversos exemplares na Bahia, Sergipe e Alagoas.

13 caixas de material emborrachado foram recolhidas em praias do Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco – Foto: Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho/Divulgação/ND13 caixas de material emborrachado foram recolhidas em praias do Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco – Foto: Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho/Divulgação/ND

Este ano, os objetos também apareceram, pela primeira vez, em São Paulo, na praia de Itanhaém, e em ao menos nove cidades do litoral pernambucano desde o início de novembro.

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