“Quando as pessoas veem alguém com vitiligo pela primeira vez, passam a reparar mais nas pessoas que têm a doença. Porque isso marca. Eu quero ser muito visto na internet… Justamente porque quando elas verem alguém com vitiligo não vão estranhar, afinal já conhecem a imagem”.
Foi assim que Diego Kydo Stopassoli Penaforte, 33 anos, natural de São José, descreveu como quer ser lembrado.
Diego Kydo começou a falar sobre o vitiligo nas redes sociais – Foto: Divulgação/internetO produtor de conteúdo e agente dos Correios, que conta com quase 160 mil seguidores na internet, achou uma forma descontraída para falar sobre o vitiligo, doença que descobriu em 2016.
SeguirEm vídeos curtos, ele simula situações do cotidiano, explica o que é a doença e até mostra formas de evitar o preconceito.
Diego descobriu a patologia quando viu uma pequena mancha embaixo dos olhos e outra na ponta do pé. Como estava em um cruzeiro, achou que poderia ser queimadura do sol e só se preocupou quando um amigo o alertou sobre o vitiligo.
“Mas olha, se eu pudesse dar um conselho seria: nunca pesquise sobre nenhum sintoma ou doença na internet. Eu pesquisei e já tinha certeza que estava com sérios problemas” contou, aos risos, sobre a situação de tentar procurar um diagnóstico sem um profissional.
Na primeira oportunidade, ele buscou um médico dermatologista para ter certeza do que era. Instrução que é mais do que recomendada pelos profissionais.
A dermatologista e membro da Global Vitiligo Foundation, Patrícia Paludo, esclarece que o diagnóstico precoce é essencial para o tratamento. “A primeira coisa é ter o diagnóstico. Quanto antes isso é feito, mais chances de melhorar as marcas. Iniciar o tratamento o mais rápido possível é bom para atingir os melhores resultados possíveis”.
A dermatologista explica que o vitiligo é uma doença na maioria das vezes autoimune e causa o surgimento de manchas brancas na pele. “Na nossa pele tem uma camada bem superficial, que é a epiderme e nela tem a nossa melanina, que dá a cor para a pele. No vitiligo, as células de defesa destroem as nossas células de pigmento, então na área atacada a pele não é mais pigmentada”.
É comum que o quadro de vitiligo se inicie logo depois de situações estressantes, mas sempre está atrelado a uma predisposição genética do paciente. “É preciso existir uma combinação de genes para que a doença ocorra. Mas, claro, não é uma relação direta de, por exemplo, se eu tenho, meu filho vai ter”, instrui Patrícia.
Primeiros sinais
Quando Diego notou as primeiras manchas na pele, passava por um momento decisivo na carreira. Havia conquistado um cargo que queria há anos, mas o cotidiano e as exigências eram muito altas. Nesse período, mais manchas surgiam e as que já existiam aumentavam de tamanho.
“Foi quando eu pedi para mudar de área, aí meu stress reduziu e o vitiligo parou de crescer tanto. O emocional é algo que comanda a doença”.
Para o criador de conteúdo, a parte que a doença mais afetou foi a autoestima. “Eu sempre treinei e me cuidei. Me achava a primeira bolacha do pacote, porque a última ninguém quer! Mas quando descobri, me larguei, não cuidava de mais nada. Não me sentia bem comigo”.
Aceitação e exposição
Durante um bom tempo, ficou com dois tratamentos. Um era o acompanhamento médico e, outro, era o pensamento, o sentimento de aceitação.
Até que, em 2020, duas situações o fizeram querer falar mais sobre o assunto. Em uma delas, foi a postagem de uma selfie que deixava as manchas em evidência.
“Foi engraçado porque a galera gostou muito e aquilo me deu um alívio. Foram muitas curtidas e comentários. Muitas pessoas me falavam que não me viam separado do vitiligo, que era algo parte de mim. Faltava só eu acreditar que aquilo era parte de mim. Acho que o primeiro preconceito que eu tive que enfrentar foi o meu”.
A segunda situação foi um vídeo que fez em homenagem a um menininho chamado Arthur, que tinha manchas parecidas com as dele e havia passado por um episódio recente de preconceito. Sem pretensão, Diego postou em suas redes sociais para que o menino visse e o vídeo bombou. Foram milhares de curtidas, comentários e seguidores que passaram a acompanhar as postagens de Diego.
Com a entrada da participante Natália Deodato no reality show Big Brother Brasil, o assunto tem sido tratado com mais frequência. Fator que ajudou no engajamento das redes de Diego e fez com que ele participasse de parcerias com os administradores das redes de Natália.
O influenciador reconhece que há um longo caminho a traçar em relação à desconstrução dos preconceitos, mas sente que, com sua visibilidade, está fazendo sua parte. Os seguidores permanecem crescendo, suas caixas de mensagem seguem cheias de dúvidas com pessoas que encontraram suas ‘manchinhas’, como ele chama carinhosamente, e as curtidas são uma forma de reconhecimento pelo seu trabalho.
Diego finaliza seu relato de forma leve, assim como a começou. E reflete o ensinamento de que o primeiro passo para tudo é a aceitação. “Se tu não te amar, não tem como querer que alguém te ame. Porque você não vai estar contente contigo. Ter luz própria, ser confiante de si. Não quero que alguém olhe para mim como um coitado. E o vitiligo? Bom, ele não mostra quem eu sou, ele é só parte de mim”.