Fazendas de cliques ‘contaminam’ redes sociais, radicalizam informalidade e criam robôs humanos

18/06/2022 às 07h00

Plataformas recrutam usuários para engajar perfis com likes e comentários, ganhando décimos de centavos por interações

Maria Fernanda Salinet e Ana Schoeller Florianópolis

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Atraídos pela promessa que garante “dinheiro sem sair de casa usando suas redes sociais” e compelidos por uma grave crise econômica e empregatícia no Brasil, “robôs humanos” se submetem, em troca de centavos de reais por interação, a uma rotina extenuante frente a telas de smartphones e computadores com o intuito de curtir, comentar e engajar perfis de influenciadores, empresas e marcas em busca de relevância nas mídias digitais.

“Robôs humanos” se submetem a uma rotina extenuante frente a telas de smartphones e computadores – Arte: Gil Jesus/ND“Robôs humanos” se submetem a uma rotina extenuante frente a telas de smartphones e computadores – Arte: Gil Jesus/ND

As chamadas fazendas de cliques, expressão que surgiu do sudeste asiático para designar “centrais” com pessoas de várias localidades curtindo e comentando em redes sociais com o objetivo de gerar engajamento aos clientes que contratam o serviço, operam por meio de plataformas que oferecem serviços de impulsionamento, além de compra e venda de seguidores de forma “automatizada”. Os trabalhadores, por sua vez, executam milhares de tarefas com perfis verdadeiros e falsos nas redes sociais.

Segundo o professor da UEMG (Universidade do Estado de Minas Gerais) e coordenador do Laboratório de Trabalho, Saúde e Processos de Subjetivação, Matheus Viana, a precarização do trabalho é uma das duras faces dessa indústria crescente e classificada por muitos pensadores como “uberização digital”.

Além da grande insegurança financeira, este trabalho repetitivo e com ganhos incertos provoca um profundo desgaste psicológico. “Eles trabalham o tempo todo. Os momentos de descanso e ócio não existem mais e qualquer hora pode ser usada para concluir as tarefas”, diz Viana.

O professor, que pesquisa o segmento há três anos, escreveu o artigo “Heteromação e microtrabalho no Brasil” onde afirma que, ainda seja difícil definir o perfil dos trabalhadores das fazendas de cliques, há “distintos marcadores de classe, gênero e raça que caracterizam os as pessoas que operam nestes plataformas brasileiras e globais”.

É o que reforça o professor e pesquisador Rafael Grohmann, que coordena o DigiLabour, laboratório de pesquisa da UniSinos, em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul.

“Nos grupos de Facebook, quem pede por ajuda são mulheres. Também vimos em outros países, na Colômbia e Venezuela, um perfil semelhante dos grupos, que é o histórico de trabalho informal.  Pessoas que optam por esse tipo de trabalho que já atuavam na informalidade antes. Uma já foi catadora de latinhas, por exemplo”, explica.

“Porta do inferno”

A baixa escolaridade é uma característica marcante dos trabalhadores das fazenda de cliques se comparada a de outras plataformas de microtrabalho. “É o que chamo de porta do inferno: elas [as plataformas] radicalizam, atualizam e renovam uma informalidade do trabalho no Brasil, com traços de mercados ilegais e pirataria”, afirma Grohmann.

Entre as maiores plataformas do segmento no mundo estão a Dizu, que recebeu 1,3 milhão de visitas individuais em junho de 2021, seguida da GanharNoInsta (1,2 milhão), SigaSocial (276 mil), Kzom (190 mil) e Everve (67 mil) no mesmo período.

Viana conta ter se assustado quando, em uma das entrevistas para sua pesquisa, conversou com uma mãe que acordou de madrugada para amamentar seu filho e começou a executar as tarefas para “aproveitar o tempo livre”.

A angústia de precisar trabalhar a todo o momento revela que os ganhos com este tipo de trabalho, para a maioria, não são considerados complementos de renda, mas o principal sustento das famílias.

“Parece ser ponto pacífico entre os trabalhadores que as tabelas de preços difundidas pelas empresas não se traduzem em realidade. A insatisfação atinge seu auge quando os pagamentos demoram a ser efetivados ou quando há os denominados golpes das plataformas (expressões usadas pelos membros dos grupos)”, diz Viana.

Já Grohmann aponta que “o trabalho por plataforma chega em economias arrasadas e se aproveitando de crises. As pessoas, então, acabam vendo naquilo uma alternativa”.

Dependentes das máquinas

A renda de quem trabalha com fazenda de cliques é extremamente variável e incerta. A equação é: se a rede social percebe números de interações acima do normal, suspende os perfis. Com isso, ocorre o bloqueio do pagamento realizado pelas plataformas, ou seja, o trabalho do mês inteiro pode ser perdido.

“Há quem tenha 200 perfis, estude muito para entender os algoritmos das redes sociais, tenha bons computadores para operar bots e possa, assim, receber R$ 2 mil no fim do mês. Outras pessoas, que fazem um tipo de investimento amador, trabalham oito horas por dia e conseguem R$800”, explica Viana.

O ND+ conversou com dois homens que trabalham para uma fazenda de cliques. Um deles, de 22 anos, mora no interior de Pernambuco e sustenta toda a família, de quatro idosos, com pouco mais de R$ 2 mil. Ele diz que alimenta cerca de sete mil perfis no Instagram e usa bots (robôs) oferecidos pelas próprias plataformas para acelerar os ganhos.

Outro trabalhador, de 20 anos, mora no Rio de Janeiro e trabalhava como assistente de veterinário, mas foi demitido pouco antes da pandemia. Hoje os R$ 2,5 mil que recebe com o trabalho digital são sua principal fonte de renda.

Trabalhadores das fazendas de cliques ganham décimos de centavos por interação nas redes sociais – Arte: Gil Jesus/NDTrabalhadores das fazendas de cliques ganham décimos de centavos por interação nas redes sociais – Arte: Gil Jesus/ND

O professor Matheus Viana detalha que “para efeitos de ilustração, a plataforma GanharNoInsta paga R$ 0,006 para cada ação de ‘seguir’ e R$ 0,003 para ‘curtir’. Para receber R$ 60 por dia, o trabalhador deveria fazer 10 mil ações de seguir ou 20 mil de curtir”.

Esse número de interações só seria possível se o trabalhador utilizasse entre 20 e 40 contas simultaneamente. “Considerando os bloqueios cada vez mais frequentes de contas e os problemas corriqueiros com os bots, atingir essa cifra diária se revela dificilmente praticável. Os trabalhadores, portanto, imitam as máquinas, porém também dependem delas.”

Mercado paralelo

No sudeste asiático este fenômeno é observado há anos. No Brasil não é possível identificar quando este tipo de trabalho iniciou, mas desde a pandemia é perceptível o crescimento da atividade.

Outro fenômeno que se forma a partir das fazendas de cliques é o mercado paralelo que movimenta os próprios trabalhadores. Para burlar as regras das redes, os usuários realizam a venda de robôs e contas falsas que parecem reais — com ao menos 15 seguidores e cinco publicações — para continuar a interagir nos perfis.

“Esse mercado paralelo abastece todos que trabalharam com até 200 contas e oferecem contas bots para rodar”, explica Grohmann. Os preços de cada conta iniciam a partir de R$ 1,50.

Quem contrata o serviço

A contratação dos serviços pode envolver perfis com milhões de seguidores e até com algumas centenas. Durante as pesquisas do professor Matheus Viana foram encontrados desde de pequenos estabelecimentos comerciais e restaurantes a políticos e celebridades.

Pessoas públicas e grandes artistas que estão iniciando nas redes sociais usam o serviço para angariar mais seguidores ou mesmo para “bombar” alguma publicidade, como a venda de um produto, por exemplo. Então, são contratados comentários e curtidas em uma única publicação, por exemplo, afirma Matheus Viana.

“Na primeira hora de postagem é possível encomendar algumas centenas de comentários recomendando o produto”, ressalta.

Victor Rangel, proprietário da agência de marketing Ninho Digital, e que trabalha com influenciadores, afirma que há o risco de se ter a conta suspensa pela contratação de cliques.

“No último ano, três pessoas nos buscaram por terem suas contas bloqueadas após usar o serviços de fazendas de cliques. Eram pequenos influenciadores que estavam tentando um crescimento muito rápido”.

Mas, de acordo com Rangel, os influenciadores maiores estão se protegendo da compra de seguidores porque buscam mais interações reais para aumentar o cachê.

“Com pessoas reais a entrega é melhor, com melhor taxa de conversão. A fazenda de cliques pode parecer momentaneamente boa, mas as agências olham outras coisas na hora da contratação”, completa.

Blogueiros que fingem métricas

Para conseguir ganhar patrocínios e serem cada vez mais chamados a fazerem publicidade em redes sociais como o Instagram, por exemplo, influenciadores digitais precisam apresentar relatórios de métricas. E o mercado de influência gira em torno de volume, ou seja, métricas muito significativas.

A parceria comercial entre as marcas e os influenciadores e artistas se mantém ou se desfaz de acordo com o alcance, a visibilidade, o engajamento e a influência que estas pessoas retornam para as empresas que as contratam.

Estes relatórios de métricas contabilizam quantas curtidas, compartilhamentos e seguidores na web um perfil tem. Sendo assim, com as métricas em mãos, as marcas decidem quem irá representá-las e atrair mais consumidores para aquele determinado produto.

Leticia Mulinari Gnoatton, advogada e mestre em Direito pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), explica que os influenciadores ou empresas burlam as métricas quando contratam as fazendas de cliques. A estratégia funciona da seguinte forma:

Um blogueiro contrata uma plataforma de fazendas de cliques para engajar um post publicitário ou o seu próprio perfil. Assim, ganha likes, comentários e seguidores supostamente reais, mas que, na verdade, são interações vindas de bots humanos. Esse falso engajamento gera um relatório de métricas infladas. Desta forma, a marca que contrata este blogueiro acredita que ele realmente tem tamanha influência e o contrata.

A estratégia abre espaço para o seguinte questionamento: “seria esta prática uma propaganda enganosa?”.

“É complicado entendermos o que é propaganda porque as redes sociais mudaram tudo. Em outro viés, a compra de engajamento para venda de espaços publicitários também pode ser considerada uma fraude. Eu contrato várias empresas para bombar meu perfil. Quando meu perfil está bombando eu entrego o relatório dele. Vamos imaginar que eu tenho 10 mil comentários e 10 mil curtidas. Digo que tenho um alto engajamento com seguidores que, na verdade, não vai atingir ninguém porque os dados estão falsos. Isso é uma perda gigantesca de dinheiro para as empresas”, explicou a advogada.

Apesar dos riscos, segundo Victor Rangel, da NinhoDigital, hoje as marcas contam com recursos que as protegem mais deste tipo de prática. “O mercado se adaptou e está buscando novas maneiras.” Segundo Rangel, o número de seguidores ainda é relevante, assim como a interação, mas há mais fatores levados em conta que fazem o mercado se autorregular.

Trabalho repetitivo e com ganhos incertos provoca profundo desgaste psicológico – Arte: Gil Jesus/NDTrabalho repetitivo e com ganhos incertos provoca profundo desgaste psicológico – Arte: Gil Jesus/ND

“A gente tem algumas ferramentas que analisam o score, contas fakes, fator de corte, taxa de interação com links, cliques. Quando as marcas lançam alguma campanha, e dependem dela, a gente analisa as taxas de venda, o histórico desse influencer, a taxa de alcance, de impressões, mas como a gente tem esse índice, isso acaba por terra eliminando muito perfis de índice muito alto, com muitas contas fake dentro do perfil. Há ferramentas que analisam o índice de qualidade dos seguidores também, assim, se protege”, explica.

Leticia Mulinari explica que os problemas relacionados às fazendas de cliques estão atrelados, justamente, ao modelo de negócio das plataformas digitais. Para ela, enquanto a forma de rentabilizar das redes sociais for a mesma, estaremos enxugando gelo neste contexto e o modelo de negócios seguirá propício a fraudes.

“Enquanto não tivermos pressão dos mercados, a gente vai continuar tendo esse problema”, citou a advogada.

Sem impedimentos

A Lei Nº 12.965, de 23 de abril de 2014 estabelece princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da internet no Brasil. Sancionada pela então presidente à época Dilma Rousseff, a norma traz algumas disposições sobre proteção de dados.

No entanto, o Marco Civil da Internet oferece uma disposição que impede esse tipo de ação (como as feitas nas fazendas de cliques), explica Gnoatton. A afirmação diz respeito ao conjunto de leis que não estabelece, por exemplo, que vender uma interação falsa para conseguir dinheiro contém uma irregularidade. Ou que a criação de diversos perfis é errada.

“O que temos de vedação são as normas internas dessas próprias plataformas. Vender curtidas não é ilegal. O que é ilegal, do ponto de vista da plataforma, é ter vários perfis. Como eles não colocam dados de pessoas reais não é falsidade ideológica. A mesma ideia de um livro, quando se escreve um livro e cria um “nome” para aquele escritor”, explicou a especialista em direito.

Implicações legais e o futuro das fazendas de cliques

A precarização do trabalho levanta dúvidas sobre a responsabilidade das plataformas de cliques. O procurador do Trabalho do MPT (Ministério Público do Trabalho) Renan Kalil explicou que seria preciso fazer uma avaliação para cada caso, então, só assim realizar alguma medida.

“Pelos relatos que aparecem na imprensa, os ganhos parecem ser muito baixos e, por conta disso, os trabalhadores das fazendas de cliques são expostos a jornadas intensas. Para avaliarmos quem responsabilizar seria necessária uma investigação dentro de um inquérito. Em uma eventual irregularidade, a empresa que oferece esse serviço seria a primeira a ser chamada para ser regularizada”, explicou Kalil.

O procurador explicou, ainda, que para buscar responsabilização seria necessário apurar quem de fato controla a atividade. Pelo menos do ponto de vista trabalhista. O PL das fake news, por exemplo, estabelece algumas regras da impossibilidade de ter contas controladas por robôs. Isto está dentro da política de uso das redes sociais e não das leis trabalhistas.

Já em relação ao papel das redes sociais, Victor Rangel avalia que elas devem continuar combatendo firmemente as contas fakes para não prejudicar o engajamento dos influenciadores com seguidores reais. No entanto, ele pondera que “o processo é muito lento para conseguir derrubar [as contas falsas], esse suporte ao usuário precisa melhorar. Nós somos consumidores deles, por isso, o suporte ao usuário é muito importante”.

Sobre o futuro, os pesquisadores dizem que é difícil prever o que vem a seguir. Para Victor Rangel, enquanto houver mercado, haverá a compra de seguidores, mas deve diminuir com as barreiras tecnológicas criadas pelas mídias sociais.

A reportagem do ND+ procurou o Instagram para comentar com combate o avanço das fazendas de cliques, mas não houve retorno até a publicação da matéria.

O Tik Tok disse, em nota, “que valoriza a autenticidade e, como deixamos claro em nossas Diretrizes da Comunidade, a prática de spam e interação falsa são ações proibidas e os vídeos identificados são removidos”.

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