O comportamento virtual de um estabelecimento de Criciúma, no Sul do Estado, tem chamado a atenção na internet. O Garten Pub, bar que foi aberto no início de fevereiro no município, e reaberto no meio de junho de 2021, é um sucesso de engajamento com o público com o uso de uma linguagem “inusitada”, para dizer o mínimo.
O slogan “não é mais puteiro, mas continua uma zona”, já introduz toda a “auto depreciação” que o bar utiliza como propaganda. E tudo isso com um agravante cômico que é muito bem aproveitado pelo bar: antigamente um prostíbulo funcionava no mesmo espaço.
Bar de Criciúma brinca com o próprio fracasso em publicações na internet – Foto: Reprodução/InstagramAo abrir o site do Garten Pub, o internauta se depara com uma frase muito bem destacada na página principal: “Aqui não é puteiro”.
SeguirNo Instagram, os proprietários publicam prints de conversas com os clientes, onde o tom de deboche predomina. Mas o bar faz questão de lembrar que “o puteiro fechou, agora somos um pub decente”.
Em suas publicações na internet, o bar aposta em criticar o próprio trabalho. Ele expõe que “copiou o cardápio” dos outros, que o local é um “fracasso” e divulga uma comunicação depreciativa com os clientes, como “felizmente hoje não abre”.
Má reputação e pouco movimento foram combustível para estratégia arriscada
Dorindi Eller Júnior, que se denomina como “estagiário de marketing” do Garten Pub, conta que o bar abriu com uma estratégia comum, como qualquer outro, mas não estava dando certo.
“Estamos abertos há três meses e meio. Durante os dois primeiros estávamos adotando uma estratégia de marketing bem ‘paz e amor’, divulgando o cardápio, a casa, as cervejas e as bandas, como todo mundo faz. Foi um fracasso. Só aparecia meia dúzia de gatos pingados achando que lá ainda era uma casa de entretenimento masculina. E o puteiro já fechou há quase três anos”.
Dessa forma, os proprietários viram a necessidade de tomar medidas para tentar salvar o bar.
“Buscamos conversar com várias agências de marketing sobre esse problema. Todas diziam que seria um processo demorado desvincular a imagem do local com o antigo estabelecimento. Foi nesse momento que pensamos em mudar a forma de comunicação. Sabíamos que seria arriscado. Porém pior do que estava não ia ficar”, revela Dorindi.
“Fiz um teste em agradecer o fracasso de uma promoção que fizemos. O engajamento já foi enorme. Logo depois lancei um informativo que ali não era mais um puteiro. Essa publicação teve um alcance fora do normal”, salienta o “estagiário de marketing” do Garten Pub, que passou a adotar um novo e ousado estilo de comunicação com a clientela.
Confira algumas das publicações do bar:
“Sair da curva” gera conexão e identidade
Tudo isso, teoricamente, iria contra o “manual” de como promover uma marca, certo? Não necessariamente.
De acordo com a professora de Publicidade e Propaganda da Univali (Universidade do Vale do Itajaí), Daniella Cristina Rebelo, essa é uma estratégia utilizada para se diferenciar dos demais estabelecimentos.
“O objetivo é se destacar, sair da curva. Na hora de se diferenciar, as marcas têm explorado isso para gerar mais conexão com o público alvo”, explica.
Dorindi Eller Júnior cita que passou a usar das “fraquezas” do estabelecimento como uma força de comunicação.
“Como o local estava mal falado na cidade por nunca ter ninguém, resolvemos usar esse ponto negativo como outro ponto para gerar engajamento. Também notamos que a maioria das casas usam os mesmos métodos politicamente corretos e carinhosos. Fazendo perder a autenticidade. Um exemplo são os nossos drinks, ao invés de usar frases motivacionais, usamos frases de fracassos”, exemplifica.
A professora da Univali destaca que tudo é uma questão de entender o seu público.
“O ponto chave é entender o público alvo como estratégia, gerando a partir da mensagem uma identidade. A gente tem a Netflix, por exemplo, que tem um tom de voz específico, que eu diria que é debochado, voltado para o humor”, pontua.
A coordenadora e consultora de marketing Carolina Dornelles menciona que o investimento na interação com os clientes por meio digital é cada vez mais frequente nos dias de hoje, mas nem sempre há uma estratégia correta.
“É muito comum nos depararmos com marcas utilizando as redes sociais como mais um canal de venda, anunciando diariamente seus produtos ou serviços sem uma estratégia adequada ao seu público-alvo”.
Ela explica, ainda, que existe até um conceito que pode se encaixar na “auto depreciação” da marca.
“As redes sociais são canais de relacionamento, e estratégias que envolvem humor e identificação com o público geram o que chamamos de Marketing Reverso. Ou seja, o cliente se identifica tanto com o posicionamento do negócio que a venda ocorre de forma orgânica e natural”.
Segundo o “estagiário de marketing” do Garten Pub, a tática tem funcionado. Ele comemora que os clientes “estão entrando na brincadeira, e não se sentem ofendidos”.
Mas afinal, o engajamento gera lucro?
Daniella Rebelo salienta que o engajamento gerado a partir desta comunicação é um ponto muito positivo, mas o fator de retorno nos lucros do bar precisa ser analisado.
“Para além disso, precisamos ainda entender se isso de fato traz resultado. É legal que as pessoas falem, que traga engajamento, mas o grande desafio no momento é entender se os resultados virtuais vão se concretizar no real. É um super tema para pesquisas científicas”.
De acordo com os proprietários do pub, a reação imediata aos novos métodos de comunicação foi muito satisfatória. Porém, Dorindi Júnior ressalta que será necessário fidelizar os clientes para que todo o trabalho seja recompensado.
“O movimento deu uma boa melhorada. O que não era difícil, já que vivia vazio [risos]. Sabemos que esse momento do ‘boom’ das redes sociais vai passar, tem muita gente curiosa vindo conhecer. Agora é o momento ideal para cativar o nosso público e formar uma clientela”, finaliza.