Um vídeo do encalhe de três baleias na Prainha, em Arraial do Cabo, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, deixou a internet intrigada neste último final de semana. As imagens repercutiram ao mostrar o pânico entre os banhistas, que pensaram se tratar de uma enorme mancha de sangue por conta de um ataque de tubarão.
Baleias encalham em praia no Rio de Janeiro e mancha assusta banhistas – Foto: Twitter/Reprodução/NDA gravação que circula nas redes sociais mostra gritos, correria e uma tentativa de ajuda aos animais. A publicação tinha mais de 8,2 milhões de visualizações e 63,5 mil curtidas até a tarde desta terça-feira (3).
SeguirEU ACORDEI COM UM ATAQUE DE TUBARÃO pic.twitter.com/iu2CYHLWYu
— Ana (@lilskean) December 31, 2022
Confira o vídeo:
Vídeo mostra banhistas em desespero – Vídeo: Twitter/Reprodução/ND
O pesquisador graduado em Ciências Biológicas e doutorando em Fisiopatologia Gabriel Leandro Gomes explicou em seu perfil no Twitter o que acontece de fato no vídeo viral. Ele inicia a thread comentando que a suspeita é que o animal seja uma cachalote (espécie de baleia dentada) do gênero Kogia.
Gabriel diz que o gênero tem duas espécies, mas que é difícil identificar qual é a que aparece no vídeo por serem muito parecidas. “Em algumas notícias, pesquisadores entrevistados dizem ser um cachalote-anão, mas eu não afirmo nada, visto as imagens ruins do animal”, escreve.
O gênero Kogia possui duas espécies, o cachalote-pigmeu (Kogia breviceps) e o cachalote-anão (Kogia simas), como o nome sugere são parentes dos Cachalotes-gigantes porém beeem menores. São espécies de hábitos profundos, comportamento discreto e avistagens raras + pic.twitter.com/wV6E2D3Zp4
— Gabu ?♿ | Cachalote Peregrino (@pilgrimcetus_) January 1, 2023
O que mais intrigou os internautas foi a mancha avermelhada que se forma na água durante a aparição dos animais. Com isso, o pesquisador explica que o gênero, dentro de suas diversas particularidades, possuem no final do intestino uma bolsa que armazena fezes e que, quando assustados, podem liberar essa “nuvem escura” para fugir dos predadores.
“A mancha na água é cocô. Elas possuem um mecanismo parecido com o de lulas e polvos, que soltam tinta”, conta. Ele ainda compartilha um vídeo comparativo de um caso semelhante na África do Sul.
Alguns usuários se questionaram se o correto seria ajudar o animal a tentar voltar ao mar. O pesquisador explica que o correto é não tentar introduzi-los de volta à água quando encalhados, e sim chamar instituições de resgate da região.
Oii Zai!! de forma geral, o correto é não introduzir os animais de volta pra água quando encalhados e sim chamar instituições de resgate da região pq os animais poderiam estar feridos ou doentes e só iriam encalhar em outro local, além disso, o risco de contaminação existe +
— Gabu ?♿ | Cachalote Peregrino (@pilgrimcetus_) January 2, 2023
“Os animais poderiam estar feridos ou doentes e só iriam encalhar em outro local. Além disso, o risco de contaminação existe, pois temos várias doenças em comum entre mamíferos marinhos e humanos, além, é claro, do risco das pessoas se machucarem ou machucarem os animais”, responde.
Ele ainda complementa sobre a existência de “protocolos de primeiros socorros” para esses casos, mas que exigem capacitação. “Cada caso é um caso. Os animais foram introduzidos e não vi notícias de reencalhe. Porém, não sabemos sobre a saúde dos animais nem outras informações importantes para pesquisa e conservação que uma instituição de resgate conseguiria captar”, finaliza.
Se confirmada a espécie cachalote-anão, esta seria a primeira vez que baleia, considerada rara, aparece em Arraial, o que significa um importante registro para a ciência.