Durante uma hora concedida para a réplica do Ministério Público, o promotor Ricardo Paladino apresentou provas na tentativa de mostrar ao corpo de jurados que durante todo o processo a defesa foi construída em cima de mentiras. “O Leonardo fez tudo, ele levou os celulares, a arma, o carregador, tudo”, salientou. “Ele abandonou ela lá. Esse é o termo correto, abandono”, complementou.
Promotor Ricardo Paladino fala no Tribunal do Júri e mostra depoimentos aos jurados – Foto: Luana Amorim/NDGabriella Custódio Silva foi morta em julho de 2019. Ela foi atingida com um tiro no peito e deixada em um hospital de Pirabeiraba, na zona Norte de Joinville. Leonardo Natan Chaves Martins é acusado de homicídio qualificado por feminicídio e por dificultar a defesa da vítima.
O promotor trouxe depoimentos de amigos, do pai, da mãe e do próprio acusado, mostrando as contradições das versões e, ainda, tentou mostrar aos jurados que a ocultação dos celulares e da arma foi, justamente, uma “tática” utilizada pela defesa para tentar sustentar a tese de tiro acidental, uma vez que, para Paladino, a apresentação tanto da arma como dos celulares provaria que o tiro foi proposital e que tudo que aconteceu depois foi pensado para esconder a culpabilidade do réu.
Seguir“A vida dele era muito mais errada do que eu tenho tempo para demonstrar aqui”, disse o promotor. “Eles não vão ter o direito a uma sentença se os senhores acolherem a tese de homicídio culposo”, falou enquanto apontava para a família de Gabriella, muito emocionada durante todo o julgamento. “Ele vai sair daqui livre, como vocês”, complementou.
Com a desqualificação de homicídio doloso, Leonardo pode sair do Tribunal do Júri em liberdade, uma vez que já cumpriu mais de um ano da pena aplicada a homicídio culposo.
Em depoimento apresentado aos jurados e feito dias após o crime, a mãe de Leonardo questiona a atitude do próprio filho. “Não tinha a necessidade de ele fugir. Ele deveria ter ficado no hospital”, falou ao delegado Eliéser Bertinotti, responsável pela investigação.
Paladino ressaltou, inúmeras vezes, que todo o curso do processo e a tese aplicada pela defesa não passaram de “mentiras. Eu acho um absurdo o que se fez nesse processo até hoje. Mentiras, ocultação, destruição de provas. A hora que eu acabar hoje, a Gabi não vai falar”, ressaltou.
A hora dedicada à réplica terminou com a apresentação e um vídeo. Vozes, inúmeras vozes de mulheres pedindo socorro à Polícia Militar, em situação de violência, arrancaram lágrimas da família de Gabriella que, ouviu do promotor: “Eu fiz o que pude”.
O ND+ está acompanhando todo o julgamento desde o início da manhã desta terça-feira (27).
“O Ministério Público está trabalhando com a falta de provas”, diz defesa
A tréplica da defesa de Leonardo também ocupou uma hora de explanação e, nos 60 minutos, houve discussão acalorada entre advogado e Marco Aurélio Marcucci, advogado da família. O advogado Jonathan Moreira dos Santos mostrou aos jurados um vídeo publicado por Marcucci, no qual ele fala sobre o trato de armas. A defesa alegou que o vídeo corrobora a versão de que armas podem, sim, ter problemas e provocar disparos acidentais.
“Vocês não sabem nada de arma. Estão induzindo o júri ao erro. Pare de mentir”, disparou Marcucci. O debate precisou ter a intervenção do juiz Gustavo Aracheski. Após os ânimos se acalmarem o debate seguiu e a tese da defesa continuou sendo de disparo acidental.
Defesa sustentou que tiro foi acidental e trabalhou na tentativa de desqualificar o feminicídio – Foto: Luana Amorim/ND“Desde o primeiro depoimento, Leonardo diz que estava com o dedo levemente no gatilho. Se ele tivesse feito tudo como o Ministério Público pediu, ainda assim ele estaria sentado respondendo a esse processo. Não há provas e o Ministério Público tem que ser franco em admitir que não há provas. Estão trabalhando com a falta de provas”, falou o advogado Pedro Wellington Alves. “Ele vai carregar a culpa pelo resto da vida dele. Justiça não é colocar o Leonardo atrás das grades por 15, 20 anos por um tiro acidental”, ressaltou.
Relembre o caso
O crime ocorreu no dia 23 de julho, no Distrito de Pirabeiraba, em Joinville. Após o disparo, Leonardo colocou o corpo da jovem no porta-malas do carro e a levou até o Hospital Bethesda. Gabriella já chegou morta na unidade.
Após deixar a namorada em cima de uma maca, Leonardo fugiu para São Francisco do Sul e, no caminho, teria jogado a arma usada no crime no Canal do Linguado.
Em depoimento ele alegou que o disparo foi acidental e teria ocorrido enquanto mostrava a arma para a companheira. A perícia, porém, identificou que a pistola foi apontada na direção da vítima por conta do trajeto do projétil e da marca na parede. Gabriella estava na casa dos sogros quando foi atingida.
Leonardo será julgado por homicídio qualificado por feminicídio e por usar recurso que impossibilitou a defesa da vítima.