Uma corte da Alemanha condenou nesta terça-feira (20), uma ex-secretária de um campo de concentração nazista. A mulher de 97 anos foi condenada a dois anos de prisão com suspensão da pena por acusações de cumplicidade no assassinato de mais de 10 mil pessoas. As informações são da AFP.
Irmgard Furchner foi processada por seu suposto papel no “assassinato cruel e maligno” de prisioneiros no campo de concentração de de Stutthof, na Polônia – Foto: Christian Charisius/AFP/Divulgação/NDEm um dos últimos processos julgados pela justiça alemã sobre o Holocausto, Irmgard Furchner foi processada por seu suposto papel no “assassinato cruel e maligno” de prisioneiros no campo de concentração de Stutthof, na Polônia.
A condenação vai de acordo com o pedido da promotoria do país, que destacou o “significado histórico excepcional” do processo e com um veredicto, sobretudo de caráter “simbólico”.
SeguirIrmgard Furchner, que por ordem do tribunal, teve seu rosto borrado nas imagens publicadas pela imprensa, esteve presente em uma cadeira de rodas durante a leitura da sentença. Ela praticamente não falou durante o processo, apenas nas últimas audiências, quando rompeu o silêncio em dezembro.
“Sinto muito por tudo o que aconteceu”, declarou ao tribunal regional da cidade de Itzehoe, no Norte da Alemanha. Ela é a primeira mulher processada em décadas na Alemanha por crimes cometidos durante o período nazista.
Irmgard tentou escapar no início do processo, em setembro de 2021. Ela fugiu da casa de repouso em que morava e seguiu para uma estação de metrô. Além de outras tentativas de fuga, que resultaram em sua prisão na cidade de Hamburgo, mantendo ela presa por cinco dias.
Os advogados pediram a absolvição da idosa, alegando que as evidências apresentadas durante o julgamento não provaram, sem margem para dúvida, que a mulher realmente tinha conhecimento dos assassinatos.
“Inferno absoluto”
A acusada era uma adolescente quando seus supostos crimes foram cometidos e, por este motivo, foi julgada por um tribunal de menores de idade.
A acusada era uma adolescente quando seus supostos crimes foram cometidos – Foto: Christian Charisius/AFP/Divulgação/NDHistoriadores calculam que 65 mil pessoas morreram no campo que fica próximo da atual cidade de Gdansk, incluindo prisioneiros judeus, guerrilheiros poloneses e prisioneiros de guerra russo-soviéticos, afirmaram os promotores.
Entre junho de 1943 e abril de 1945, Irmgard trabalhou no escritório do comandante do campo, Paul Werner Hoppe. De acordo com a acusação, ela anotou e redigiu as ordens do oficial da SS e entregou sua correspondência durante este período.
Ao longo da audiência, sobreviventes do campo de Stutthof apresentaram relatos comoventes de seu sofrimento. A promotora Maxi Wantzen agradeceu a coragem das testemunhas, incluindo algumas que também compareceram como co-requerentes, e afirmou que estas falaram sobre o “inferno absoluto” vivenciado no campo de concentração.
“Sentem que é seu dever, embora tenham que invocar a dor de maneira repetida para fazer isto”, disse a promotora.
Tempo cada vez mais curto
Maxi destacou aos juízes que o trabalho administrativo da acusada “assegurou o bom funcionamento do campo” e deu a ela “conhecimento de todos os acontecimentos em Stutthof”.
Além disso, ela afirmou que as “condições que ameaçam a vida”, como escassez de alimentos, a falta de água e a propagação de doenças mortais, incluindo o tifo, foram mantidas de maneira intencional e ficaram evidentes de modo imediato.
Embora as péssimas condições do campo e os trabalhos forçados tenham provocado o maior número de mortes, os nazistas também utilizaram câmaras de gás e instalações de execução por fuzilamento para exterminar centenas de pessoas que não eram consideradas aptas para os trabalhos pesados.
A promotora destacou que, apesar da idade avançada da acusada, era importante realizar o julgamento e completar o registro histórico porque os sobreviventes do Holocausto estão morrendo.
Setenta e sete anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, o tempo é cada vez mais curto para levar à Justiça os criminosos vinculados ao Holocausto. Nos últimos anos, vários processos foram abandonados porque os acusados faleceram ou não tiveram condições de comparecer ao tribunal.
A condenação em 2011 do guarda John Demjanjuk, com base no fato de que integrou a máquina de matar do regime de Hitler, estabeleceu um precedente legal e abriu o caminho para vários julgamentos.
Desde então, os tribunais emitiram várias sentenças de culpa por este motivo e não por assassinatos e atrocidades diretamente relacionadas com o acusado.