Começou na tarde desta segunda-feira (14) o julgamento no TCE (Tribunal de Contas do Estado) o caso da compra supostamente fraudulenta de respiradores durante a pandemia pelo governo de Santa Catarina.
Responde ao processo na Corte quatro ex-servidores e dois ex-secretários, da Saúde e da Casa Civil. A defesa deles prestaram esclarecimentos aos conselheiros sobre o processo de compra, considerado fraudulento.
TCE realiza nesta segunda-feira, a primeira sessão de julgamento no caso dos Respiradores – Foto: Felipe Kreusch/NDTVEntre março de 2020, em meio ao início da crise da pandemia, a SES (Secretaria de Estado da Saúde) adquiriu 200 respiradores num valor de R$ 33 milhões. Os equipamentos, contudo, nunca foram entregues.
SeguirNa sessão desta segunda (14), apenas os advogados de defesa dos acusados foram ouvidos.
O relator do caso, o conselheiro Adircélio de Moraes Ferreira Júnior, se pronunciou fazendo perguntas às defesas e também solicitou o adiamento da sessão em duas semanas, para estudo e divulgação dos votos dos pares.
Saiba abaixo quem são os investigados e o que diz cada defensor ao TCE.
Carlos Charlie Maia
Com a abertura da sessão, a defesa do então diretor de Licitações e Contratos da Secretaria de Estado da Saúde, Carlos Charlie Maia, foi a primeira a se pronunciar.
Carlos Maia era diretor de licitações da SES em 2020 – Foto: Solon Soares/Agência AL/Reprodução/NDO promotor Noel Antônio Baratieri afirmou que “não há nenhuma conduta de Carlos Maia em relação a estes atos” se referindo às acusações do TCE ao seu cliente (direcionamento ilícito da contratação, ausência de contrato no processo de compra e pagamento antecipado).
Para Baratieri, quem negociou a compra dos equipamentos sem licitação e com pagamento antecipado, mesmo com a “clara impossibilidade de se pagar sem receber os respiradores”, teria sido a então superintendente da Gestão Administrativa da SES, Márcia Regina Jeremias Pauli, e o médico e empresário Fábio Deambrosio Guasti.
“Carlos Maia nunca incluiu nenhum documento, nunca falou em pagamento antecipado. Quem o fez foi a ‘dona’ Márcia, inclusive depois confirmando o recebimento dos equipamentos, com o pagamento antecipado”, afirmou o advogado de defesa.
“Ele foi excluído do processo, não deveria ser assim, mas tudo foi feito via whatsapp entre Márcia e Guasti”.
Márcia Regina Jeremias Pauli
A defesa de Márcia Regina Jeremias Pauli foi a segunda a se pronunciar, e negou o envolvimento da então superintendente de Gestão Administrativa da SES. Segundo o advogado Nelson Juliano Schaefer Martins, Márcia era apenas uma funcionária “intermediária e que atuava a mando e comando do então secretário da Saúde (Helton Zeferino)”.
Marcia Pauli era superintendente de gestão administrativa da SES na época da compra – Foto: Agência Alesc/ND/divulgaçãoPosteriormente, Márcia foi a servidora mais citada pelas sustentações orais dos demais advogados de defesa. Isso porque, segundo eles, era ela que gerenciava os processos de escolha da empresa e da compra dos respiradores, de forma autônoma.
A Corte, por sua vez, questionou a motivação de Márcia ter assinado notas fiscais atestando o recebimento dos equipamentos, que nunca foram entregues.
Segundo a alegação da defesa, ela não poderia ser considerada culpada, já que atuou sob “coação dos seus superiores” e que estes (secretário Zeferino e adjunto), já teriam eximido a culpa da superintendente anteriormente.
Helton Zeferino
Helton Zeferino ocupava o cargo de secretário de Estado da Saúde durante a compra dos respiradores, e ganhou destaque nas acusações na Alesc e no MP.
Já no TCE, no julgamento desta segunda, ele é investigado “pela ausência de informações mínimas acerca da contratação e pela falta de estimativa de preços fidedigna da empresa (para o fornecimento dos respiradores), sem habilitação jurídica e sem capacidade técnica, econômica e financeira, além de sobrepreço na aquisição”, afirma o Tribunal.
Helton Zeferino foi secretário de Estado da Saúde em Santa Catarina durante a pandemia – Foto: Doia Cercal/Divulgação/NDAlém disso, Zeferino é investigado pela ausência de contrato no processo de compra e pelo pagamento antecipado dos ventiladores, que nunca foram entregues. O ex-secretário de Saúde também responde pela ausência de publicação da dispensa de licitação no Diário Oficial.
Quem foi o responsável pela defesa do então secretário foi o advogado Maurício Natal Spilere, que usou a palavra por pouco mais de 20 minutos.
Segundo Spilere, Zeferino apenas dispensou a licitação por conta de um parecer jurídico que apoiava a decisão, e que seu último ato no processo de compra dos respiradores, foi a assinatura da Ordem de Fornecimento 343.
“Nunca houve ordem de pagamento antecipado, e sim pagamento após 30 dias”, afirmou Spilere. Segundo ele, na referida ordem de fornecimento, a condição de pagamento previa a entrega de 100 unidades até 07/04/2020, mais 100 até o dia 30 do mesmo mês, com pagamento 30 dias depois.
Por fim, o advogado de defesa pediu ao Tribunal a não responsabilização de Zeferino, já que o então secretário “não sabia do pagamento antecipado, e não deu a ordem para que ele fosse feito”.
Douglas Borba
O ex-chefe da Casa Civil, Douglas Borba foi o único a advogar em causa própria, ou seja, realizou sua própria defesa na Corte. Segundo ele, foram três anos de silêncio acerca do processo.
Douglas Borba era chefe da Casa Civil de SC durante o escândalo da compra dos respiradores – Foto: Fábio Queiroz/Agência AL/Divulgação/NDSegundo o TCE, Borba é investigado por má conduta em uma eventual concorrência com agentes públicos para direcionamento ilícito da contratação, e também pela responsabilização solidária acerca da não entrega dos respiradores.
De acordo com o acusado, sua última participação em todo o processo de compra aconteceu no dia 23/03/2020, em uma reunião com órgãos reguladores e de controle, que apoiaram a compra dos equipamentos.
Borba foi acusado de ter feito o primeiro contato entre a empresa Veiga Med e o governo do Estado, mas afirmou que mal conhecia a empresa.
“Naquele momento todos (os secretários) recebiam propostas de venda de equipamentos. Eu mandava tudo para o Helton, está no relatório de evidências. Ele então nos disse para centralizar as mensagens na Márcia Pauli. Ali, eu enviei para ela dizendo: ‘não estou filtrando, encaminho tudo que recebo. Vocês depuram’, e ela me responde: ‘perfeito'”, afirma Borba.
Ele ainda afirma que todo processo de escolha, forma e contratação da empresa foi feito de forma livre por servidores da SES, sem pressão alguma da Casa Civil.
Carlos Roberto Costa Júnior e Leila Danielewicz
Por fim, o último advogado de defesa a se pronunciar foi Glauco Artur de Assunção. Ele representa os então servidores Carlos Roberto Costa Júnior e Leila Danielewicz, que respondem pela “ausência de contrato no processo de compra e pelo pagamento antecipado” e “direcionamento ilícito da contratação para aquisição”, respectivamente.
Segundo Assunção, consultores jurídicos da SES, como Carlos Roberto, não tinham como responsabilidade cotar preços, analisar equipamentos ou determinar a ordem de pagamento. “A participação dele era limitada à análise da minuta da dispensa de licitação”, afirmou a defesa.
Já com relação à Leila, o advogado afirma que ela exerceu tarefas “meramente burocráticas, em um primeiro processo de dispensa de licitação”.
Anulação da condenação de Carlos Moisés
O CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) anulou o julgamento do ex-governador Carlos Moisés (Republicanos) no caso dos respiradores em fevereiro deste ano.
Julgamento de Moisés no caso dos respiradores foi anulado e governador afirma: “não tive nenhum envolvimento” – Foto: Julio Cavalheiro/Divulgação/NDDe acordo com o Conselho, o ex-governador Carlos Moisés da Silva não teve garantido o pleno exercício do direito de defesa durante o julgamento do caso.
Segundo o advogado do ex-governador, Luis Irapuan, a Terceira Turma Revisora do Conselho Superior do MPSC (Ministério Público do Estado) analisava a decisão do procurador-geral de Justiça do Estado, Fernando da Silva Comin. O procurador pediu o arquivamento do inquérito civil que apurava o suposto envolvimento de Moisés no processo.
Relembre o caso dos Respiradores
Em março de 2020, a Secretaria de Estado da Saúde efetuou a compra de 200 ventiladores pulmonares, mediante o pagamento antecipado de R$ 33 milhões, em um procedimento realizado por dispensa de licitação em razão da urgência decorrente da epidemia do novo coronavírus. Os equipamentos nunca foram entregues em sua totalidade.
Arte sobre foto ilustrativa de leito de UTI com respirador pulmonar – Foto: Divulgação/NDO contrato polêmico envolvendo a empresa Veigamed e a Secretaria de Estado da Saúde, veio à tona em 2020 e é alvo de investigação na Operação Oxigênio.
Desde então, várias frentes de investigação correm na Justiça e na Assembleia Legislativa. Até o momento, ninguém foi condenado.