‘Doloroso’: jovem denuncia estupro por professor de canto em Joinville

Caso aconteceu em 2018 e, após quatro anos, Justiça inocentou o réu alegando falta de provas

Juliane Guerreiro Joinville

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“Como mulher, eu me senti presa nas mãos do criminoso. Ele faz o crime e decide se vai se arrepender ou não, enquanto eu sigo com meu psicológico destruído”. O relato forte, dito em meio às lágrimas, é de Madalena*, moradora de Joinville, no Norte de Santa Catarina.

Madalena expos caso na internet após absolvição do suspeito – Foto: ReproduçãoMadalena expos caso na internet após absolvição do suspeito – Foto: Reprodução

Era 8 de dezembro de 2018 quando ela saiu de casa, à época com 23 anos, rumo a uma aula de técnica vocal oferecida por um professor particular no bairro Glória. Ela vinha fazendo as aulas há três meses, mas naquele dia tudo mudou.

Na noite anterior, Madalena havia ido a uma festa e estava abalada por uma situação pessoal envolvendo o relacionamento com o então namorado. Ao chegar à aula, o professor ofereceu bebida alcóolica, uma prática comum nas aulas dele, que “estimulava os alunos a perderem a timidez”.

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“Nesse dia eu falei que não queria, que não estava bem, mas ele insistiu. Ele é carismático e eu confiava, então bebi. Ele estava preparando os copos e disse que tinha levado algo a mais. Foi até a mochila, pegou, fez o copo. Então eu comecei a passar mal”, relembra Madalena.

A aula começava às 14h e teria duração de uma hora. Era por volta de 14h40 quando Madalena olhou para o relógio pela última vez. Segundo ela, às 17h56 o professor chamou pessoas próximas para ajudar a socorrê-la.

A dor das memórias – ainda que incompletas

O que aconteceu depois só veio à tona em flashes horas depois e, ainda assim, não é uma memória completa. Madalena se lembra do professor passando a mão em seus cabelos e em suas partes íntimas.

Depois lembra de estar passando mal, com o corpo jogado sobre as próprias pernas dentro de um carro a caminho do hospital. Lembra da enfermeira perguntando se tinha tomado algo a mais além do álcool diante do estado em que estava.

“No dia seguinte acordei bem mal. Senti uma coisa ruim dentro de mim e comecei a chorar”. Junto ao então namorado, percorreu alguns hospitais até ser atendida, passar por atendimento psicológico e receber os medicamentos necessários em casos de abuso sexual.

“Falei que lembrava dele passando a mão em mim, mas não do ato sexual em si. Na calcinha tinha fluídos de sêmen”, conta. Madalena registrou boletim de ocorrência e um laudo pericial comprovou que houve conjunção carnal.

Outro laudo também apurou que havia esperma na calcinha que ela usava no dia. O exame toxicológico foi feito apenas três dias depois, com resultado negativo para substâncias toxicológicas.

“Eu não tive um bom tratamento em nenhum lugar. A delegacia não foi um espaço acolhedor, me senti mais humilhada, colocavam a minha palavra em dúvida, ‘como uma mulher não sabe se teve relação’?”, relembra.

Sentença desoladora quatro anos depois

Em fevereiro deste ano, quatro anos após o caso, a Justiça decidiu que o professor é inocente. Segundo a sentença, como o homem não assumiu e não teve interesse em fornecer material para comparação com o sêmen encontrado na calcinha, não é possível confirmar a autoria do crime.

“O fato de beber na aula não foi isolado, era costume os alunos e professor beberem no local. Isso afasta, em princípio, a ideia de que a bebida foi oferecida deliberadamente para deixar a vítima inconsciente, o que seria um indicativo de abuso”, diz o texto.

E complementa, em outro trecho: “o indicativo de que (a vítima) teve relação sexual recente e possuía vestígios de esperma em sua roupa íntima indicam relação sexual recente, mas não vinculam inequivocadamente o réu ao fato”.

O Ministério Público, que denunciou o professor pelo crime de estupro de vulnerável, uma vez que Madalena não pode oferecer resistência pelo estado de embriaguez, recorreu. Para ela, a sentença fez com que a dor fosse revivida.

“A partir do momento em que a gente nasce mulher, a gente vai ser julgada pelo resto da vida como ser inferior, que não tem nenhum direito. Não tem brecha para absolvição, a brecha foi que ele não confessou e não deu DNA”, reclama.

Joinvilense expos o caso na internet – Foto: Internet/ReproduçãoJoinvilense expos o caso na internet – Foto: Internet/Reprodução

Após a sentença, ela decidiu expor o caso na internet como uma forma de lidar com as próprias dores e também alertar outras mulheres. “Eu passei por um momento de negação e culpa, sei o quanto é doloroso guardar. Pensei que não posso guardar isso pra mim porque vou estar ajudando não só esse criminoso como todos que fazem isso”, destaca.

O promotor responsável pelo caso, Marcelo Mengarda, preferiu não comentar a sentença, já que o processo está em segredo de Justiça.

O advogado de defesa do réu, que não foi identificado pois foi absolvido em primeira instância, se posicionou em nota:

“A defesa aproveita a oportunidade para manifestar que a versão que a denunciante passa não é a que consta do processo. Infelizmente não posso apresentar as versões corretas e provadas, pois o processo é sigiloso. Se o juiz responsável pelo caso abrir o sigilo poderemos nos manifestar de maneira mais completa e temos a convicção de que todos perceberão, em consonância com o entendimento do juiz de direito, de que o relato da denunciante é falso. Lamentamos que essa pessoa tente por vias próprias, com base em sensacionalismo, reverter uma decisão judicial baseada na melhor técnica do Direito”.

*Madalena é o nome fictício usado no perfil criado pela joinvilense na internet.

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