Editais de fachada: como contratos públicos facilitaram esquemas de corrupção em Florianópolis

Esquema revelado pela polícia civil na terça-feira (3) resultou na prisão de um pastor e de um ex-secretário municipal da capital catarinense por desvio de verbas em contratos públicos

Foto de Vivian Leal e Beatriz Rohde

Vivian Leal e Beatriz Rohde Florianópolis

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O esquema de corrupção, revelado pela operação “Pecados Capitais”, desencadeada pela Polícia Civil de Santa Catarina na terça-feira (3), usou editais públicos e favoreceu entidades para desviar verbas públicas, que seriam destinadas à assistência social em Florianópolis. O entendimento consta no inquérito policial que detalha a ofensiva, ao qual a reportagem do ND Mais teve acesso.

Fraudes em contratos públicos e desvio de verbas teriam ocorrido nos anos de 2020 e 2022, diz Polícia Civil Fraudes em contratos públicos e desvio de verbas teriam ocorrido nos anos de 2020 e 2022, diz Polícia Civil – Foto: PCSC/ Divulgação/ ND

Duas pessoas foram presas por envolvimento nas irregularidades: o ex-secretário adjunto da Assistência Social, Jeferson Amaral da Silva Melo, e o ex-dirigente de duas entidades que administravam projetos, Marcos André Pena Ramos. Eles são apontados como os responsáveis por arquitetar as ilicitudes.

Projetos sociais foram favorecidos, aponta investigação

Conforme o inquérito, houve articulação, dentro da Secretaria de Assistência Social, para garantir a atuação do Nurrevi (Núcleo de Recuperação e Reabilitação de Vidas) para prestação de serviços ao projeto Passarela da Cidadania, e do Instituto Aminc (Amor Incondicional), terceirizada que atuava no projeto do Restaurante Popular.

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Marcos André Ramos era diretor do Nurrevi e, posteriormente, tornou-se vice-presidente do Aminc. Ambas as instituições atuaram nos projetos entre 2020 e 2022, tendo recebido o equivalente a R$ 40 milhões da Prefeitura de Florianópolis.

A investigação mostrou que o ex-secretário adjunto teria sido o responsável por escolher o Nurrevi para assumir a gestão da Passarela da Cidadania. Em troca, teria sido favorecido com inúmeros privilégios, como a indicação de pessoas para trabalhar no projeto, participação em decisões e, ao que tudo indica, recebido valores como forma de retribuição.

Jeferson Melo e Marcos Ramos foram presos por suspeita de participação em esquema de desvio de verbas de projetos sociais em Florianópolis Jeferson Melo e Marcos Ramos foram presos por suspeita de participação em esquema de desvio de verbas de projetos sociais em Florianópolis – Foto: Redes sociais/Reprodução/ND

Auditoria em contratos públicos expôs irregularidades, diz PCSC

O desvio de verbas pelo pastor e ex-dirigente das entidades, Marcos André Pena Ramos, chegou a ser descoberto por uma auditoria interna. Na ocasião, um acordo foi firmado entre a Prefeitura de Florianópolis e o Nurrevi para a devolução de quase R$ 1 milhão.

A gerente financeira e o presidente do núcleo assinaram o acordo. Interrogada na delegacia, a gerente afirmou que havia sido coagida a assinar o documento e que nunca desviou dinheiro da instituição, destacando que Ramos ordenava o depósito de quantias em seu favor.

Já o presidente do Nurrevi, parente de Ramos que também é investigado, declarou durante uma conversa informal que os desvios ocorreram na gestão do pastor. O inquérito especula que ele também tinha conhecimento da corrupção em Florianópolis, visto que as prestações de conta foram assinadas pelo presidente.

Restaurante Popular de FlorianópolisO inquérito sobre corrupção em Florianópolis apontou irregularidades na gestão do Restaurante Popular – Foto: Leo Munhoz/ND

Vale lembrar que o Nurrevi e o Aminc, juntos, receberam cerca de R$ 40 milhões do município. Com um patrimônio incompatível com a remuneração, Marcos André Pena Ramos é apontado como o principal beneficiado pelos superfaturamentos.

Apesar de tentar ocultar os bens, as autoridades verificaram que o pastor e ex-dirigente acumula propriedades que ultrapassam o valor de R$ 5 milhões se somadas.

Contrapontos

Prefeitura

Em nota, o a Prefeitura de Florianópolis informou que “até o momento, as informações que chegaram à prefeitura são de que a operação se trata de fatos ocorridos entre 2020 e 2022, antes da administração atual”. Topázio Neto assumiu o cargo em abril de 2022, quando Gean Loureiro renunciou para concorrer ao governo do Estado.

A administração destaca ainda que “a atual gestão já havia aberto uma auditoria interna em relação à entidade que administra o restaurante popular, punindo-a, inclusive, determinando devolução de recursos”, diz a nota.

ONGs

O Nurrevi informou, em nota, que “confia integralmente nas autoridades policiais e judiciais, acreditando que os fatos serão esclarecidos de maneira completa e transparente”.

Disse também que “já disponibilizou toda a documentação sob sua guarda” e “permanece à disposição das autoridades competentes em fornecer quaisquer informações adicionais que possam contribuir para o devido esclarecimento”.

O Aminc não retornou às tentativas de contato da reportagem, mas o espaço segue aberto para eventuais manifestações.

Defesas dos investigados

A defesa de Melo informou que ainda não possui procuração para se manifestar em nome do ex-secretário, mas a situação está sendo avaliada pelos advogados.

A defesa de Ramos não foi localizada pela reportagem, mas o espaço está aberto para quaisquer manifestações.