Empresários da construção civil de Florianópolis, que preferem não se identificar, entraram em contato com o Grupo ND para informar que também foram lesados pelo corretor de imóveis Nilton Weber, indiciado por estelionato pela Polícia Civil de Joinville. O golpe imobiliário tem sido denunciado em várias reportagens pelo Grupo ND.
Parte do currículo entregue na construtora em Florianópolis. Foto: Reprodução documentos/Divulgação NDO empresário conta que no dia 19 de março deste ano, Nilton Weber o procurou dizendo que estava se mudando de Curitiba para Florianópolis a fim de atuar no ramo imobiliário, pois já contava com larga experiência.
“Apresentou currículo, disse que estava procurando uma nova oportunidade no mercado imobiliário, que já tinha 30 anos de experiência nessa área, que já havia sido construtor, que tinha igreja, que já fez muito trabalho social, que tinha cinco filhos e a mulher estava passando por alguns problemas emocionais. Ele falou até que já foi presidente de uma cooperativa de crédito”, relata o dono da construtora.
Seguir“Fui muito convincente, era bom de conversa”, frisa.
Os construtores (sócios), então, mostraram alguns empreendimentos em Florianópolis para Nilton Weber e acabaram o contratando como gerente.
Inclusive, lembra o empresário, nas primeiras conversas Nilton teria dito que não estava entrando só pelo dinheiro porque havia recebido comissão de uma permuta feita em Itapema, cerca de R$ 800 mil.
“Ele nos disse que estaria tranquilo, que queria mostrar seu valor, que trabalha sob a verdade, sinceridade e faria acontecer”, continua.
Na segunda-feira, dia 21/3/2022, Nilton Weber apareceu na construtora às 7 horas “bem vestido, com terno…”, lembra o empresário.
“Chegou citando nomes de pessoas famosas, dizendo que tinha contatos e que faria grandes negócios, sempre com uma conversa muito convincente.”
Horas depois, Nilton Weber já falava em venda de dez apartamentos para uma única pessoa entre outras propostas que havia recebido, segundo o construtor.
No segundo dia de trabalho, Nilton chegou pedindo uma ajuda financeira, conta o dono da construtora.
“Ele perguntou se eu poderia antecipar o salário porque estava com um dinheiro bloqueado. Seria só uma ajuda de custo imediata”, lembra.
Nilton também pediu ao dono da construtora que comprasse as passagens para trazer as filhas e a esposa de Curitiba para Florianópolis. O empresário, então, fez o que ele pediu, acreditando na palavra do funcionário que recém havia contratado.
Inclusive, Nilton aplicou treinamentos comportamentais dentro da empresa porque no currículo havia listado como uma de suas habilidades dar “treinamento de equipe, motivação”.
Nilton foi apresentado a alguns clientes da construtora e passou a manter contato com alguns, inclusive, pedindo dinheiro.
“Em um dos casos, Nilton pediu para ficar na casa de um dos clientes até que a família se estabelecesse em Florianópolis.” A reportagem falou com esse cliente, que também prefere não se identificar, mas que confirmou que realmente “ajudou Nilton Weber cedendo a casa por alguns dias para a família e pagou algumas contas.”
Até aí seria apenas uma ajuda inicial para Nilton e família se estabelecerem na nova cidade. Tanto que a própria construtora conseguiu, por meio de imobiliária parceira, alugar uma cobertura na praia dos Ingleses para a família de Nilton ficar.
Na semana seguinte, o empresário ficou sabendo que Nilton tinha pegado dinheiro emprestado de um dos clientes. Também descobriu que Nilton havia comprado um carro por R$ 78 mil alegando que o dele havia fundido o motor e estaria esperando reembolso. “Só que descobrimos depois que esse carro era alugado”, relata o dono da construtora.
Nilton Weber, continua o construtor, mais uma vez o enganou quando disse que tinha vendido apartamentos para algumas pessoas famosas no Rio de Janeiro.
“Eu teria de ir no Rio de Janeiro só fechar o negócio que já estava tudo alinhavado. Acreditando, fui para o Rio de Janeiro. Uma pessoa que seria comparsa de Nilton lá no Rio me recebeu e me apresentou para algumas pessoas famosas, mas elas não sabiam nada de apartamentos. Foi aí que comecei a pescar algumas inconsistências no ar, vi que as histórias não batiam”, conta o empresário.
Voltando do Rio do Janeiro, o empresário percebeu que Nilton Weber havia criado conflitos internos dentro da empresa.
“Ele inventava histórias, criava contextos mentirosos, fez os sócios brigarem dentro da empresa. Me fez demitir várias pessoas. Em uma semana, minha empresa virou de pernas para o ar por causa das intrigas e das mentiras que Nilton Weber contou”, recorda o empresário.
“Transformou minha vida num inferno”, continua o construtor.
A gota da água, lembra o empresário, foi quando um cobrador de Nilton apareceu na obra. “Esse homem estava cobrando um processo judicial de um caso de Itajaí onde Nilton teria pegado cerca de R$ 230 mil emprestado de um agiota”, informou.
Depois disso, Nilton apareceu de volta na construtora e foi demitido após 18 dias de “trabalho”.
“Você mentiu, não pise mais aqui”, disse o empresário a Nilton.
Nilton Weber em Joinville em uma igreja que havia aberto em 2019. – Foto: Divulgação ND“Aí ele começou a chorar na minha frente, me mostrou um áudio da filha dizendo que não tinha o que comer em casa. Então, peguei R$ 750 que tinha na carteira e dei para ele dizendo que era para comprar comida e levar para família”, relembra o construtor.
Depois disso, ainda segundo o empresário, Nilton teria criado um grupo de Whatsapp com os clientes e passou a falar mal da construtora para os clientes.
“Já entreguei mais de 1300 apartamentos, sempre fiz as coisas certas. E esse cara chega e faz isso”, esbraveja o empresário, que já reuniu os clientes para esclarecer os fatos.
“Fiz uma reunião com todos e descobri que alguns haviam sido lesados por Nilton Weber, emprestaram dinheiro…”
Abaixo, um dos comprovantes de empréstimo feitos para Nilton Weber.
Transferência bancária – Foto: Reprodução/NDNo início dessa semana, o dono da cobertura dos Ingleses que havia sido alugada para a família de Weber mandou uma mensagem para a empresa dizendo que a família havia se mudado da noite para o dia. Teria ido morar em Canasvieiras, também na Capital.
O dono da construtora falou à reportagem que conseguiu alertar em tempo alguns clientes que estavam quase caindo na lábia de Nilton Weber. “Ele dizia aos clientes que a comissão era para ser depositada direto na conta dele. Nisso, os clientes também começaram a desconfiar”, conta.
Agora, os empresários, assim como outras pessoas lesadas pelo indiciado por estelionato esperam por justiça.
“Estou morando de aluguel. Minha mulher está depressiva”
Em Joinville, outra vítima procurou a reportagem do Grupo ND. Moisés Vicente, 72 anos, conta que tinha uma casa na rua Limeira, no bairro Boa Vista.
Casa negociada com Nilton Weber. Família perdeu a casa, o terreno e hoje está morando de aluguel – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação NDComo a esposa de Moisés queria sair de onde estava porque a casa era muito grande (mais de 200 m2) e queria morar em um geminado em outro bairro, Moisés acabou permutando a casa com Nilton, que prometeu fazer um geminado de alto padrão na rua Rocha Pombo, no bairro Iririú. Isso foi há cinco anos. O geminado seria entregue dentro de um ano e seis meses.
A casa foi demolida e a família foi morar de aluguel até o que o geminado ficasse pronto.
“Se passaram três anos e nada. Ele dizia que era para esperar, que estava passando por problemas. Até que ele sumiu e perdemos o contato”, relata Moisés.
Já em 2020, Moisés conta que Nilton o levou para visitar uma obra que seria dele no bairro Saguaçu onde ele mostrou um começo de um geminado de alto padrão. Seriam construídos três.
“Ele nos perguntou se queríamos. Como gostamos muito do bairro, aceitamos o negócio e ficamos esperando nosso tão sonhado geminado novinho”, conta Moisés.
Moisés, então, assinou um documento autorizando Nilton Weber a vender o terreno.
“Nilton disse que precisava de dinheiro para terminar nosso geminado e, para isso, teria de passar nosso terreno para o nome de um empresário que, em troca, iria fornecer todo o material de construção necessário. Eu, na boa fé, fui lá e assinei”, relata Moisés, que desde então nunca mais conseguiu falar com Nilton Weber.
“Eu botei ele na Justiça. Minha mulher está depressiva. Situação difícil demais. Saí da minha casa ampla, que era boa, para morar de aluguel”, finaliza entristecido e indignado Moisés, mais uma vítima do corretor.
ND+ procurou a Polícia Civil de Santa Catarina, que até o fechamento desta reportagem, às 20h31, não havia se manifestado. A assessoria de imprensa destacou, porém, que está em busca de uma posição sobre o caso.
Geminado inacabado na Rua Clemens Schmidt, outra obra de Nilton Weber em Joinville – Foto: Carlos Júnior/NDContraponto
Mais uma vez, a reportagem tentou contato com Nilton Weber sem sucesso.