Empresa de SC é condenada por negar uso de nome social a mulher trans candidata a emprego

Magistrado considerou que conduta afronta princípio constitucional da dignidade humana

Redação ND Florianópolis

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Uma empresa que atua no ramo de cartões de desconto foi condenada a pagar indenização de R$ 10 mil por danos morais após ter se negado a contratar uma mulher transgênero candidata a vaga de emprego. A decisão foi da 3ª Vara do Trabalho de Florianópolis e cabe recurso.

Empresa alegou que no sistema deveria constar o nome registrado nos documentos vinculados ao CPF – Foto: Lucas Sampaio/Arquivo/NDEmpresa alegou que no sistema deveria constar o nome registrado nos documentos vinculados ao CPF – Foto: Lucas Sampaio/Arquivo/ND

A empresa alegou que a recusa estaria relacionada a uma suposta impossibilidade técnica de registro do nome social nos sistemas corporativos.

Após passar pelas três fases do processo seletivo, a mulher foi selecionada. O impasse aconteceu na etapa seguinte: quando recebeu os documentos da candidata, nos quais consta ser transgênero, a empresa desistiu de contratá-la.

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De acordo com a mulher, ainda em processo de alteração das documentações, a recusa teria sido justificada pela impossibilidade de registrar no sistema corporativo o seu nome social.

Ela também foi informada de que internamente até poderia ser chamada como preferisse, mas no sistema da empresa deveria constar o nome registrado nos documentos vinculados ao CPF (Cadastro de Pessoa Física).

Na ação trabalhista, a reclamante alegou que a conduta da empresa teria caracterizado discriminação e crime de transfobia, equiparado ao racismo. Por isso, requereu o pagamento de indenização por danos morais.

Dignidade humana

O juiz Alessandro da Silva considerou o pedido procedente. Ele afirmou que o direito ao uso do nome social por pessoas com identidade de gênero diversa do gênero constante no registro civil está “intrinsecamente relacionada com a observância do princípio da dignidade humana, um dos fundamentos que regem a República Federativa do Brasil, previsto no artigo 1º, III, da Constituição Federal”.

O magistrado acrescentou que, além do amparo constitucional, o uso do nome social também é fundamentado em outros dispositivos, como os que fazem parte do Direito Internacional dos Direitos Humanos e normas infraconstitucionais.

“É um direito das pessoas transgênero e deve ser respeitado por todos, nos ambientes públicos e privados, em atenção às categorias jurídicas da identidade de gênero e dos direitos fundamentais à liberdade de expressão e dignidade da pessoa humana, amplamente albergados por nosso ordenamento jurídico”, sentenciou, acrescentando ainda que o referido direito “não está condicionado à alteração do registro civil”.

O juiz Alessandro encerrou concluindo que, ao decidir não contratar a candidata justamente por supostas impossibilidades técnicas de utilização do nome social, a reclamada causou-lhe dano moral e praticou ato ilícito.

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