Três homens, entre eles um médico que atua em Joinville, foram denunciados pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) por estupro coletivo. Os outros dois homens seriam empresários. O inquérito da Polícia Civil foi concluído, em 3 de julho de 2022, pelo delegado Pedro Alves, da Dpcami Joinville.
Caso de estupro coletivo foi denunciado pela 9ª Promotoria de Joinville e agora tramita na 1ª Vara Criminal de Justiça – Foto: Carlos Jr./NDA promotora Adriane Nicoli Graciano, da 9ª PJ, promotoria que atua nas áreas criminal e execução penal, ofereceu a denúncia. A reportagem do Portal ND+ teve acesso à informação de que o MP ofereceu a denúncia, mas não conseguiu detalhes porque o processo segue em segredo de Justiça.
O processo foi encaminhado à 1ª Vara Criminal de Justiça de Joinville e a expectativa é pelo recebimento e posterior condenação dos, agora, três réus.
SeguirRelembre o caso
Segundo relato da vítima, uma jovem de 20 anos à época, no dia 19 de outubro de 2019 ela foi a uma boate em Joinville na rua Visconde de Taunay e foi apresentada a um médico bem conhecido na cidade. Lá, ela e os amigos fizeram uso de bebida alcoólica, mas cada um em sua taça.
No dia seguinte, sem recordação do que havia acontecido, acordou sem roupas em uma cama com dois homens desconhecidos.
Ela relata que guardou segredo por quase dois anos, teve de tomar remédios, fazer terapia, parar de trabalhar…
“Foram quase dois anos que eu levei para passar por cima de toda a vergonha, de toda a sensação de culpa, de todos os transtornos que isso me causou e ter a força para estar aqui contando para vocês. Não foi fácil, eu tomei remédio, eu fiz terapia, eu quase reprovei nas matérias da faculdade, eu tive que parar de trabalhar, eu me submeti a uma relação abusiva por medo de não ter ninguém do meu lado e ninguém mais querer nada comigo, eu quase entrei para o alcoolismo. Tudo isso por conta de pessoas que acham que ter poder e dinheiro as tornam imunes de qualquer coisa. Tudo isso por conta de pessoas que podem e tem condições de terem o que quiserem, mas preferem fazer o proibido, o que está fora do alcance delas. Tipo drogar uma menina de 20 anos para fazer o que quiserem com ela e tirarem fotos e vídeos para postar em grupinho de amigos como se fosse um prêmio”, desabafou.
Na manhã seguinte ao abuso sofrido, continua, ela conta que vestiu suas roupas e saiu do quarto procurando a bolsa. Isto por volta das horas do domingo. Quando chegou na sala, estavam algumas pessoas entre elas duas mulheres sentadas no sofá e dois homens dançando e de óculos de sol.
“Eu não conhecia ninguém e não fazia ideia de como tinha ido parar ali.”
A jovem, então, desceu do apartamento, que seria do médico que ela conheceu na boate, pegou um Uber e foi para casa.
“Os flashes começaram a vir na minha cabeça, eu lembrava de estar na cama sem conseguir me mexer direito, um homem muito velho na minha frente e outro entrando pela porta entreaberta e tentando tocar nos meus seios, e eu chorava e pedia para parar…”, segue o relato.
Após dormir e se recompor, ela contou que foi ao hospital, disse que tinha sofrido abuso sexual. Lá, fez um exame PCR e recebeu guias de exames de doenças sexualmente transmissíveis. Ela foi até a farmácia e comprou uma pílula do dia seguinte.
Ela relata, ainda, que procurou um advogado criminal, que a orientou registrar boletim de ocorrência. Ela foi à delegacia, mas perdeu a coragem.
“Ora, como uma menina como eu ia denunciar um médico extremamente conhecido, com um poder aquisitivo muito mais alto que o meu? Que chance que eu tinha contra esse cara? Qual a chance que eu tinha de a sociedade inteira me julgar, dizer que eu que mereci porque provavelmente estava bêbada?”, questionou-se.
No entanto, no fim da tarde criou coragem, foi à delegacia e registrou um Boletim de Ocorrência. À época, quem abriu o inquérito na DPCAMI foi o delegado Vinícius Ferreira. Depois, com a saída de Vinícius, foi dado sequência ao procedimento com o delegado Pedro Alves.
Por fim, a jovem disse que decidiu denunciar para pedir justiça para ela e para todas as mulheres que sofrem abuso.
“O que eu tive que sofrer, o que eu tive que enfrentar, justiça nenhuma vai trazer de volta. E acreditem, situações como essa trazem marcas na nossa vida que jamais vão embora. A gente convive, a gente aceita, a gente supera. Mas jamais vão embora. Jamais somem. Hoje, eu entendo que eu poderia estar bêbada, eu poderia estar nua na frente de qualquer pessoa, mas isso não dá o direito de ela fazer o que bem entender comigo, não dá.”
OS RELATOS




Foto: reprodução da página Relatojoinville criada pela vítima de estupro