Família pede pena máxima para Leonardo, julgado nesta terça por matar Gabriella Custódio

Leonardo Natan Chaves Martins, acusado de matar com um tiro a então companheira, sentará no banco dos réus nesta terça-feira (27); defesa trabalhará com a tese que o tiro foi acidental

Luana Amorim* Joinville

Receba as principais notícias no WhatsApp

A foto pendurada na parede da sala de estar mostra quem era Gabriella Custódio Silva: uma menina alegre, divertida e que amava a família.

As lembranças do sorriso contagiante se misturam ao sentimento de dor que a irmã, Andrezza Custódio Silva, sente diariamente ao relembrar o fatídico dia 23 de julho de 2019. O caso finalmente ganhará um desfecho nesta terça-feira (27), quando o réu acusado pela morte de Gabriella será julgado em Joinville, no Norte do Estado.

Gabriella foi morta com um tiro no peito Gabriella foi morta com um tiro no peito em Joinville no dia 23 de julho de 2019 – Foto: Redes Sociais

A jovem, de apenas 20 anos, foi morta com um tiro na região do tórax, no Distrito de Pirabeiraba, em Joinville, no Norte do Estado. O acusado pelo crime é Leonardo Natan Chaves Martins, que era companheiro de Gabriella na época.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir

Ele foi preso dias após o crime, em 9 de agosto. Desde então, aguarda o julgamento no Presídio Regional de Joinville.

“Ela era muito alegre, muito viva”

Sentada no sofá da sala, Andrezza relembra como era a convivência com a irmã. Segundo ela, Gabriella era uma pessoa alegre e que sempre estava com um sorriso no rosto.

“A gente chegava na casa dos meus pais e ela começava a buzinar para fazer bagunça. Meu pai até dizia ‘olha a bobona tá chegando’. E era sempre assim, sempre alegre”, conta.

Andrezza ainda guarda lembranças da irmã – Foto: Luana Amorim/DivulgaçãoAndrezza ainda guarda lembranças da irmã – Foto: Luana Amorim/Divulgação

O companheirismo com a irmã foi algo que só aumentou no decorrer dos anos. Quando os pais, que moravam em Joinville, resolveram se mudar para Penha, a irmã não pensou duas vezes em chamar Gabriella para morar com ela e o marido.

“Nós sempre estávamos juntas. As vezes tinha briga de irmã, por causa de roupa por exemplo, porque ela era muito vaidosa. Mas era coisa normal”, conta.

O “reencontro” com Leonardo

O réu e a vítima se conheciam desde criança. Segundo Andrezza, os dois iam juntos para a escola e, na adolescência, chegaram a namorar, mas nada duradouro.

O reencontro efetivo entre os dois ocorreu em outubro de 2018. Andrezza conta que eles não se viam há algum tempo, até que um dia Gabriella foi buscar a irmã no trabalho e eles se encontraram em uma sinaleira. Foi aí que começaram a conversar e engataram um relacionamento em dezembro daquele ano.

Início da preocupação

Cinco meses depois, o casal alugou uma casa e passaram a morar juntos. Em um primeiro momento, a irmã achou que estava tudo bem e que a jovem estava feliz com a nova fase. Porém, após um episódio durante uma festa de aniversário, a preocupação começou a surgir.

“Um dia fiz uma festa surpresa para o meu marido e, como não tinha carro, pedi para ela buscar algumas coisas para mim. Quando chegou, ela estava chorando e muito nervosa. Perguntei o que estava acontecendo: ‘o Leonardo não quer ficar’, e eu ‘como assim não quer ficar?’. E ela falou que ele tinha sujado a calça e por isso não queria”, relata Andrezza.

“Então eu fui, com a Gabriella, para falar com ele, pedindo para ficar. Foi quando ele começou a xingar a minha irmã e eu disse: ‘nunca mais você fala assim dela’. Depois daquele dia, já fiquei com um pé atrás”, relembra.

Apesar disso, Andrezza não imaginava que, alguns meses depois, uma ligação mudaria para sempre a vida dela e da família.

O dia do crime

Andrezza tinha acabado de sair do trabalho e ido com o marido a uma lanchonete, próxima ao local que morava. Antes de ir, conversou com a mãe, que se mostrou preocupada no telefone em relação a Gabriella. Porém, a filha a tranquilizou dizendo que ela devia estar em casa, vendo algum filme.

“Quando a gente estava na lanchonete, meu pai me ligou dizendo para irmos para o hospital, que o Leonardo tinha dado um tiro na Gabriella, mas não sabia de mais nenhuma informação. Voltei para casa, para pegar o carro, achando que ela estava viva. Porém, quando cheguei, uma amiga me ligou perguntando ‘é sério que a Gabi morreu?’. Foi ai que eu soube que ela estava morta”, conta a irmã, enquanto segura as lágrimas.

Irmãs eram próximas e se falavam praticamente todos os dias – Foto: Arquivo pessoal/NDIrmãs eram próximas e se falavam praticamente todos os dias – Foto: Arquivo pessoal/ND

Os dois estavam na casa dos sogros quando o disparo ocorreu. Em depoimento, o réu alega que mostrava a arma para a namorada, quando o objeto teria “disparado sozinho”.

Após o disparo, Leonardo teria colocado o corpo da companheira no porta-malas e a levado até o hospital, onde a deixou em uma maca e fugiu para São Francisco do Sul. No caminho, teria jogado a arma no Canal do Linguado – apesar de buscas, o objeto, assim como os celulares da vítima e do acusado, nunca foi encontrado.

Em depoimento, ele alegou que o disparo foi acidental e teria ocorrido enquanto mostrava a arma para a companheira. A perícia, porém, identificou que a pistola foi apontada na direção da vítima por conta do trajeto do projétil e de uma marca na parede.

Após manifestação do MPSC (Ministério Público de Santa Catarina), Leonardo foi denunciado por homicídio doloso duplamente qualificado: além de feminicídio, também foi enquadrado na qualificadora de surpresa.

Família espera por pena máxima

Ainda com as lembranças e a dor diária pela perda da jovem, a família espera com ansiedade pelo julgamento de Leonardo. A princípio, a sessão ocorreria em março, mas devido à pandemia do novo coronavírus foi adiada por duas vezes.

Agora, após 1 ano e três meses de espera, Leonardo sentará no banco dos réus nesta terça-feira (27), às 9h, no Fórum da Comarca de Joinville. Os familiares esperam que ele saia do tribunal com a pena máxima.

“Eu sei que é difícil. Mas a gente espera que ele seja condenado. Primeiro porque é revoltante saber que uma pessoa que matou outra vai sair daqui a menos de dez anos e poderá ter muita coisa que era o sonho da minha irmã. E segundo, eu, do fundo do meu coração, não acho que ele vai mudar ou que está arrependido, e isso pode acabar com ele fazendo outra vítima. A Gabriella sofria, a gente não sabia, mas ela sofria”, finaliza Andrezza.

Defesa defenderá tese de disparo acidental

Em entrevista à NDTV, os advogados de defesa do réu, Deise Kohler e Jonathan Moreira dos Santos, informaram que vão trabalhar com a tese de que o tiro foi acidental. Além disso, eles alegam que o crime não tem características suficientes para ser enquadrado como feminicídio.

“Nós temos provas dentro do processo de testemunhas que estiveram com o casal no dia dos fatos, que dizem que estava tudo tranquilo e normal. Eles saíram da casa deles e foram pra casa da mãe, que fica próxima ao local, também em um ambiente de harmonia”, explica Jonathan.

O advogado conta, ainda, que em nenhum momento Leonardo teve a intenção de assassinar a companheira e que ele não teria fugido após deixar Gabriella no hospital.

“Ele não teria fugido do hospital, ele teria ido buscar um documento da Gabriella. Nesse meio tempo, ele entrou em contato com o pai, que o levou até São Francisco do Sul.  A intenção do Leonardo era permanecer ao lado da mulher, mas o pai teve um papel importante para o desaparecimento dos celulares e da arma, tanto que ele respondia por fraude processual”, conta.

Leosmar Martins, pai de Leonardo, também respondia por posse ilegal de arma no processo. Porém, ele foi encontrado morto no dia 16 de fevereiro, às margens da BR-280. Duas pessoas foram indiciadas pelo crime, que segundo a Polícia Civil, não tem relação com a morte de Gabriella.

Em relação as brigas, apontadas inclusive pela família, Deise afirma que foram “eventos isolados” e que não eram habituais entre o casal.

“Os dois se davam bem, sempre estavam juntos, saiam para curtir, conviviam de forma harmônica. Uma das características do feminicídio é a violência doméstica, que não existia no casal. O feminicídio é um crime de ódio e essa violência não resta no processo”, disse.

Por fim, a expectativa da defesa é de que haja o entendimento de que o crime é um homicídio culposo – sem intenção de matar. “Não há nenhuma prova de feminicídio. A expectativa da defesa é de que ele saia da porta da frente”, finaliza Jonathan.

*Com informações do repórter Juan Todescatt, da NDTV

Tópicos relacionados