Livro reconstitui investigação que levou ao suicídio de reitor da UFSC

Em grande reportagem, jornalista e escritor Paulo Markun conta um dos episódios mais traumáticos de Florianópolis e de Santa Catarina

Receba as principais notícias no WhatsApp

O jornalista e escritor Paulo Markun acaba de lançar “Recurso final” (Objetiva), que reconstitui a investigação da operação Ouvidos Moucos e as circunstâncias que levaram ao suicídio do então reitor da UFSC  Luiz Carlos Cancellier, o Cao, em 2 de outubro de 2017.

Foram dois anos de pesquisas, com leitura das cerca de 20 mil páginas do inquérito da PF e mais de 50 entrevistas, com o objetivo de entender melhor um dos episódios mais traumáticos de Florianópolis e de Santa Catarina.

“Não fiz um libelo,  não é um livro militante, de tomar a defesa de A ou B, e sim de mostrar onde chegou a investigação”, afirma Markun, que viveu durante duas décadas na Capital catarinense a partir do final dos anos 1990.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir

Por quê você resolveu contar essa história?
Conheci o Cancellier superficialmente no final dos anos 1980, na época da campanha do Ulysses Guimarães. Não tinha relação de intimidade nenhuma, mas quando a história aconteceu minha primeira reação- sem ligar o nome à pessoa – foi de choque. Como é que pode um reitor roubar R$ 80 milhões de reais? E depois do suicídio dele, principalmente, percebi que tinha ali uma história a ser investigada mais profundamente.

Capa do livro ‘Recurso final” – Foto: Divulgação/NDCapa do livro ‘Recurso final” – Foto: Divulgação/ND

Embora a impressa tenha falado bastante da história, achei que era um assunto que merecia uma investigação. A editora se interessou e pude trabalhar dois anos. Só de inquérito policial são mais de 20 mil páginas.

O que o leitor pode esperar?
É um roteiro de uma tragédia pessoal marcada pelo clima que o Brasil estava vivendo na época. No caso da UFSC e do Cancellier houve uma soma de circunstâncias.

O ponto número 1 é que a investigação já começa com uma premissa: investigar uma ação que estaria acontecendo na UFSC usando o mesmo modus operandi manifestado nas universidades do Rio Grande do Sul e do Paraná.

O segundo fato é que isso foi agravado por disputas internas e em relação aos quais o reitor tinha muito pouco movimento. Além disso, havia um clima, há quatro anos, em que todo mundo era visto como suspeito até prova em contrário.

Foi uma conjugação de fatores que levou à operação, que a mídia – num primeiro momento – “comprou” tal como estava sendo apresentada: uma falcatrua de R$ 80 milhões. Que era todo o dinheiro investido  no EAD (ensino à distância) em todo o tempo de execução do programa.

Jornalista e escritor Paulo Markun – Foto: Divulgação//NDJornalista e escritor Paulo Markun – Foto: Divulgação//ND

Como essa reconstituição foi feita?
Não fiz um libelo, não é um livro militante, de tomar a defesa de A ou B, e sim de mostrar onde chegou a investigação, que ficou longe de mostrar que haveria uma quadrilha maquiavélica operando na universidade. Acho que qualquer ação jornalística que generalize as acusações relativas a instituições não é o melhor caminho.

Isso vale para a imprensa, mas também para o Ministério Público, Polícia Federal e  universidade. O resumo dessas 20 mil páginas de inquérito revela muito pouco para além de questões administrativas mal resolvidas, do tal jeitinho brasileiro, que não são defensáveis, mas que não justificam a prisão, revista íntima e a execração pública.

Livro resgata a investigação da operação Ouvidos Moucos e as circunstâncias que levaram ao suicídio do então reitor Luiz Carlos Cancellier,  em outubro de 2017 – Foto: Divulgação/NDLivro resgata a investigação da operação Ouvidos Moucos e as circunstâncias que levaram ao suicídio do então reitor Luiz Carlos Cancellier,  em outubro de 2017 – Foto: Divulgação/ND

Na sua opinião, quais os principais legados do episódio?
O ato absolutamente radical do reitor de cometer o suicídio, tão espetaculoso e planejado por alguns dias, teve uma repercussão que resultou numa alteração da legislação e mudança parcial de atitudes da PF em outras operações – inclusive na UFSC. Não tiveram mais aquele caráter espetaculoso, com a colaboração da mídia, de alguma maneira.

Lembro que colegas nossos em Santa Catarina, na entrevista coletiva sobre o assunto, tiveram a postura de contestar a versão oficial sobre as prisões e valores, por exemplo. Mas muitos veículos reproduziram tudo, até com algum exagero, respaldados pelo que a Polícia Federal dizia. O episódio é muito demonstrativo de um momento que nem sempre tínhamos os cuidados necessários na investigação.