Médico preso por estupros em SC e BA se passava por tenente do Exército e psiquiatra

Mesmo sem formação e sem patente há 36 anos, Antônio Teobaldo usava títulos, inclusive para amedrontar uma das vítimas

Foto de Bárbara Siementkowski

Bárbara Siementkowski Joinville

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médico Antônio Teobaldo Magalhães Andrade foi preso na última sexta-feira (14), em Salvador, após ser condenado por estupros em Joinville, em 2021, e Uruçuca (BA), em 2010. Além desses crimes, Antônio Teobaldo acumulava diversas outras irregularidades no seu nome, como processos administrativos e uso de patente, mesmo sem vínculo com o exército.

Médico foi preso em Salvador, na Bahia, nesta sexta-feira (14) – Foto: Record/Reprodução/NDMédico foi preso em Salvador, na Bahia, nesta sexta-feira (14) – Foto: Record/Reprodução/ND

Penas por estupro em Uruçuca (BA) e Joinville, no Norte de SC

Antônio Teobaldo de 68 anos atuou como médico por cerca de 40 anos. Ele foi condenado em segunda instância e teve a prisão decretada por um estupro em 2021, que aconteceu em Joinville, cidade do Norte catarinense.

Mais tarde também foi condenado em primeira instância por um abuso em 2010, em Uruçuca (BA), de uma menina de 13 anos, na época. As duas penas somadas ultrapassam 27 anos de prisão. Ele estava foragido, mas foi preso na sexta-feira (14).

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Processos administrativos na Prefeitura de Joinville

Entre 2018 e 2021, Teobaldo atendeu na UBSF (Unidade Básica de Saúde da Família) Leonardo Schilickmann, no Iririú, zona leste da cidade. Ele sofreu cinco processos administrativos na Prefeitura de Joinville e acumulou 35 reclamações de pacientes. Entre as reclamações, estão denúncias de conversas de cunho sexual e religioso durante as consultas.

Ainda conforme a Prefeitura de Joinville, o médico Antônio Teobaldo Magalhães Andrade foi exonerado por conveniência da administração em 19 de agosto de 2021, quando a denúncia foi feita.

Já em 20 de setembro de 2021 foi instaurado um Processo Administrativo que foi concluído em 5 de agosto de 2024, determinando a penalidade de demissão.

No Diário Oficial da última segunda-feira (10), foi publicada uma nova demissão, como penalidade decorrente da conclusão de um outro processo administrativo que ainda estava em andamento, referente a fatos ocorridos quando o servidor ainda estava em exercício.

A prefeitura explica que, conforme legislação, cada penalidade de demissão incompatibiliza o servidor para nova admissão em cargo público, pelo prazo de cinco anos.

Neste caso, considerando a publicação da nova demissão nesta segunda-feira (10), Teobaldo ficará impedido de retornar ao município por cinco anos.

“Importante esclarecer que o rompimento de vínculo do servidor, seja por exoneração ou por demissão, não impede a responsabilização quanto a fatos ocorridos durante o período em que o servidor estava em atividade efetiva. Neste sentido, ainda estão em andamento outros dois processos administrativos envolvendo o mesmo ex-servidor”, informou a prefeitura em nota.

Uso irregular de patente de tenente

Teobaldo se apresentava como Tenente Médico Antônio Teobaldo, patente que ele utilizou, inclusive, para amedrontar uma das vítimas para que ela não o denunciasse.Entretanto, conforme apurado pela reportagem do Domingo Espetacular, da RECORD, ele não tem mais nenhum vínculo com o exército brasileiro.

Ele foi oficial médico temporário no exército em 1985, onde atuou como auditor e chefe de enfermarias e alcançou o posto de primeiro-tenente. Entretanto, já perdeu a patente há 36 anos.

Antônio Teobaldo perdeu a patente há 36 anos – Foto: Redes Sociais/Reprodução/NDAntônio Teobaldo perdeu a patente há 36 anos – Foto: Redes Sociais/Reprodução/ND

Falsa especialidade em psiquiatria

Além disso, Antônio Teobaldo carregava o título de especialista em psiquiatria, porém, conforme apurou a RECORD, o CFM (Conselho Federal de Medicina) afirmou que o médico nunca foi psiquiatra.

Em 2019, ele entrou com um processo pedindo o reconhecimento da especialidade, mas não foi deferido. O juiz afirmou na época que o médico não havia apresentado todos os documentos necessários.

Segundo a advogada das vítimas, Ana Paula Nunes, Teobaldo não era contratado para ser psiquiatra no posto de saúde. “Um absurdo ele exercer uma atividade em que ele não era lotado para isso”, explicou.

Ainda, segundo a Prefeitura de Joinville, Teobaldo teve três contratos temporários, mas nenhum deles como psiquiatra. Em nota, a prefeitura esclareceu que “ele era contratado como clínico geral e nunca foi contratado e nem atendeu como psiquiatra”.

Antônio usava a patente “tenente”, porém não tem mais vínculo com o exército há 36 anos – Foto: Record/Reprodução/NDAntônio usava a patente “tenente”, porém não tem mais vínculo com o exército há 36 anos – Foto: Record/Reprodução/ND

Antônio Teobaldo tentou concorrer a vereador em 2024

Após ser condenado pelos crimes, Antônio Teobaldo Magalhães Andrade ainda tentou concorrer ao cargo de vereador em Itabuna, na Bahia, pelo PMB (Partido da Mulher Brasileira).

O Ministério Público Eleitoral da Bahia pediu o indeferimento da candidatura a vereador do médico, que foi aceito pela Justiça Eleitoral. O juiz André Luiz Santos Britto determinou o indeferimento com base em dois aspectos: pela condenação criminal por órgão colegiado pelo crime de estupro de vulnerável e pelo não preenchimento do requisito do período mínimo de domicílio eleitoral.

Conforme a Lei da Ficha Limpa, entre outros fatores que causam a inelegibilidade, está a condenação por crimes contra a dignidade sexual após decisão transitada em julgado ou proferida por órgão judicial colegiado, caso da condenação em Santa Catarina.

Médico condenado por estupro tentou concorrer ao cargo de vereador na Bahia – Foto: TSE/DivulgaçãoMédico condenado por estupro tentou concorrer ao cargo de vereador na Bahia – Foto: TSE/Divulgação

Relembre o caso

Antônio Teobaldo foi condenado em 2022, pelo crime que aconteceu em outubro de 2021 na UBSF (Unidade de Saúde da Família) Leonardo Schilickmann do bairro Iririú, zona Leste da cidade. O médico foi condenado pelo crime ainda em 2022, mas pôde recorrer em liberdade após decisão do STJ.

Pouco mais de dois anos depois, o mesmo tribunal confirmou a sentença e manteve a condenação. Dessa forma, em 18 de fevereiro, o Tribunal de Justiça de Santa Catarina expediu o mandado de prisão do médico.

Antônio também foi condenado por outro estupro cometido em 2010 contra uma adolescente de 13 anos, em Uruçuca, na Bahia. A sentença foi deferida apenas em 2024 pela Vara Criminal da cidade.

Preso em Salvador, nesta sexta-feira (14), ele estava foragido desde fevereiro, quando o mandado de prisão foi expedido. No momento da prisão, Antônio tentou se esconder no sótão da casa em que foi encontrado, mas não teve sucesso.

Ele será transferido para Joinville, no Norte catarinense, onde iniciará o cumprimento da pena. A ação de captura foi realizada com o apoio do Departamento de Inteligência da Polícia Civil da Bahia.

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