O médico Antonio Teobaldo Magalhães Andrade, de 64 anos, que atuou em Joinville, no Norte de Santa Catarina, foi condenado a mais de 12 anos de prisão por estuprar uma paciente no posto de saúde do bairro Iririú, zona Leste da cidade. A sentença foi, na verdade, de 12 anos e cinco meses e 10 dias de prisão em regime fechado.
Médico Antonio Teobaldo Magalhães Andrade foi condenado por estuprar paciente; há outras denúncias contra ele – Foto: Internet/Divulgação NDO médico, que trabalhava como clínico geral pelo município e também em um hospital privado de Joinville, foi preso no dia 01/10/2021 no bairro Boa Vista, zona Leste, por suspeita de estupro. Agora, portanto, foi condenado. Ele também responde por estupro de uma adolescente (estupro de vulnerável) na Bahia.
Além disso, a delegada Claudia Cristiane Gonçalves de Lima, titular da Dpcami (Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso), informou que há outros inquéritos abertos e em fase final de diligências.
SeguirSão eles: inquérito de estupro no posto do Iririú; IP de violação sexual mediante fraude também no posto do Iririú; e um inquérito de importunação sexual e de tentativa de violação sexual mediante fraude em um supermercado e meios virtuais. Por isso, a pena final de Antonio Teobaldo Magalhães Andrade poderá ser aumentada.
O Ministério Público de Santa Catarina, por meio da 1ª Promotoria de Justiça da Comarca de Joinville, ajuizou ação penal contra o médico. Segundo o promotor, o médico teria se aproveitado da fragilidade emocional da vítima.
O médico Antonio Teobaldo Magalhães Andrade segue na penitenciária de Joinville.
Prisão do médico ocorreu dia 01/10/2021 no bairro Boa Vista, zona Leste de Joinville. – Foto: Foto: Polícia Civil/DivulgaçãoO que diz a defesa
A reportagem do Portal ND+ entrou em contato com um dos advogados do médico. O advogado Leandro Gornicki Nunes se restringiu a dizer que, no prazo legal, “será interposto o recurso de apelação buscando anulação da sentença por cerceamento de defesa e absolvição por ausência de provas.”
Relembre os relatos das vítimas:
“Ele tirou a minha máscara e fez tudo que quis comigo e eu infelizmente congelei”. A lembrança do dia 5 de agosto de 2021 não será apagada da memória da mulher de 28 anos que foi estuprada por um médico em uma unidade de saúde de Joinville, no Norte de Santa Catarina.
Professora, ela está afastada do trabalho desde que o estupro aconteceu e ela denunciou o caso tanto ao município como à Polícia Civil.
Ela conta que estava com crises de ansiedade e depressivas e era a primeira vez que procurava atendimento na unidade de saúde do bairro Iririú.
“Eu fui muito bem recebida na unidade. Eu estava muito mal, chorando e todas as profissionais foram atenciosas. Aguardei para ser atendida confiando que eu ficaria melhor”, lembra.
Quando entrou no consultório, a vítima estranhou a disposição das cadeiras, mas não imaginava o que aconteceria depois que o médico trancou a porta.
“Eu não vi maldade porque eu nunca imaginei que isso aconteceria. Ele sentou e tinha uma cadeira ao lado dele. Sentei na frente, normalmente e ele começou a me perguntar tudo até que ele levantou e disse, exatamente isso, com essas palavras: o que você está precisando é de alguém que cuide de você e eu vou cuidar de você”, recorda.
A partir daí, o pesadelo da professora começou. Ela conta que ele tirou a máscara dela e “fez tudo que quis comigo, você pode imagina”, diz com a voz embargada.
“Eu infelizmente congelei. Eu gritava por dentro, ouvia meu grito, mas não conseguia falar. Ele parou a hora que quis, recolocou a minha máscara e sentou como se nada tivesse acontecido”, fala.
O médico a ameaçou. Ex-militar, ele usou ainda do poder de médico para amedrontá-la.
“Ele pegou a minha ficha, todos os meus dados e disse que eu estava nas mãos dele e disse: daqui não sai”, conta.
No dia seguinte, ela foi à delegacia e registrou o caso, além de denunciá-lo ao município.
“Eu fui no dia seguinte, ainda demorei, ele achou que eu não faria isso, soube que ele fez com outras, mas ninguém havia denunciado. Pensei muito na minha filha”, diz.
O pesadelo do estupro, o medo da ameaça e a tortura psicológica não saem da memória da professora.
“Tive que fazer corpo de delito, tomar remédio pra tudo. Foi uma terceira tortura. A primeira tortura com ele, a da denúncia ao relembrar tudo, a do hospital. É uma tortura constante”, lamenta.
Ela reforça que a denúncia é um meio de evitar que outras mulheres passem pelo mesmo pesadelo e, ao saber da prisão, o que sentiu foi alívio.
“Na psiquiatria você já pega pessoas muito vulneráveis e se eu puder evitar que uma pessoa passe por isso, vai ter valido a pena denunciar. Eu só quero justiça. O ato em si foi feito, não tem como voltar atrás, mas o que eu puder fazer para a justiça ser feita, vou fazer até o último minuto da minha vida”, finaliza.
Mulher de 27 anos, outra vítima de estupro, ainda hoje precisa tomar remédios. – Foto: Reprodução vídeo NDTV“Ato sexual é a salvação”, dizia médico a outra vítima
Outra vítima do médico procurou o Grupo ND e fez outro relato chocante contra ele.
A mulher de 27 anos conta que conheceu o profissional que atuava na época como médico de uma rede de supermercados. Isto foi há cerca de oito anos.
Quando ela ficou mal por causa da morte dos avós e de uma doença grave da tia, pediu recomendação ao médico.
O profissional disse que ele mesmo cuidaria dela, já que tinha acabado de fazer uma especialização em psiquiatria. A data da primeira consulta foi junho de 2019.
“Ele me medicou por uma doença que não tinha: esquizofrenia. Só vomitava e dormia. Ele fez um laudo, mas eu não era esquizofrênica, nunca fui. Só estava passando por um momento de tristeza por ter perdido meus avós e minha madrinha com câncer em caso terminal. Normal a tristeza. Só estava buscando ajuda para isso”, relata a vítima.
Já na próxima consulta, em julho, houve o estupro.
“Ele me beijou na segunda consulta. Não entendi muito bem, empurrei ele e depois daquilo só aceitava ser atendida em locais públicos. Em uma consulta em uma doceria, em público, tentou me abraçar e deixou mensagem no WhatsApp dizendo que o ato sexual com ele (o médico) seria minha salvação através da psicoterapia de Freud”, recorda revoltada.
“Não aconteceu porque, mesmo sob efeitos de todos os medicamentos, eu ainda conseguia ter discernimento.”
Mesmo assim, a mulher ficou tão fragilizada que em agosto daquele ano ingeriu mais de 140 comprimidos fortíssimos, uma atitude drástica, desesperada.
“Dei entrada na UTI. Fiquei em coma de seis a oito dias. Não me lembro exatamente. Quando eu acordei, a primeira pessoa que estava na minha frente era ele (o médico). Eu tive uma parada cardíaca.”
A mulher disse, ainda, que tinha medo das consultas porque se sentia coagida. Porém, ela dependia do SUS.
“Teve um dia que ele me pediu para passar aqui no posto do Iririú (Joinville)”, lembra.
“Já não estava mais habituada a ter consultas com o médico em locais fechados, mas me senti segura por ser um posto de saúde público em Joinville. ”
“Quando entrei no consultório e ele fechou as persianas me apavorei porque me recordei da segunda consulta que ele me beijou. Ele voltou a dizer que eu era esquizofrênica. Comecei a chorar. Foi quando ele disse que eu não tinha mais condições de trabalhar e que iria me aposentar”, conta a vítima, lembrando que tem o laudo do posto de saúde do Iririú.
Ela conta se sentiu alívio quando viu a notícia da prisão do médico. “Fiz essa denúncia não foi por mim. Foi porque eu tenho uma filha e tenho irmã. Foi nelas que pensei. Eu sobrevivi. E quem não sobreviveu? E quem vai ter danos irreparáveis para o resto da vida?”, questiona.
Muito abalada ao relembrar, a vítima disse que faz tratamento e terá de tomar medicamento para o resto da vida.
“Mesma coisa que a morte, perdi um pedaço de mim. Quando a gente procura um profissional é para salvar, não para matar a gente. Foi o que ele fez. Eu quase morri”, chora.
Mensagens de whatsapp, vídeos, laudos, receitas, tudo está anexado ao processo judicial.
“Espero que ele (o médico) nunca mais saia da prisão e espero que outras mulheres tenham coragem de denunciar porque ele é uma pessoa influente, que tem poder aquisitivo alto. Na época que denunciei a minha mãe teve de fechar nossa casa com câmeras porque paravam carros estranhos. Tivermos muito medo. Mas minha mãe não me deixou desistir, me fez denunciar”, recorda a mulher, que fez boletim de ocorrência na Delegacia de Mulher ainda em 2019.