MP denuncia dois empresários e dois ex-diretores do porto de São Francisco do Sul

MPSC apresentou denúncia contra suposta organização criminosa que fraudava licitações do Porto de São Francisco do Sul

Raquel Schiavini Schwarz Joinville

Receba as principais notícias no WhatsApp

Após o Grupo ND trazer à tona uma série de denúncias de supostas fraudes nas licitações da SCPar Porto de São Francisco do Sul, entre outras irregularidades, o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) apresentou formalmente a denúncia contra seis pessoas.

Entre os denunciados, estão dois empresários, dois ex-diretores do porto de São Francisco do Sul e mais duas pessoas ligadas às empresas envolvidas.

Segundo o MP, eles integram uma suposta organização criminosa que teria fraudado licitações para o controle de pragas animais no porto.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir
porto de são francisco do sul Em março deste ano, o Porto de São Francisco do Sul contratou a Alfa Imunização por mais de R$ 2,1 milhões para controle de pragas – Foto: Divulgação/Secom/ND

A denúncia foi ajuizada com base em uma investigação conjunta entre o Ministério Público, por meio da 2ª Promotoria de Justiça da Comarca de São Francisco do Sul, e 4ª Delegacia de Polícia Especializada no Combate à Corrupção – 4ª DECOR, sob o comando do delegado Lucas Almeida.

Nesta segunda-feira (16), ao receber a denúncia, o juízo da Vara Criminal da Comarca aceitou a denúncia e declarou que não incide sigilo sobre o processo e os documentos que o instruem autorizando a divulgação do caso. Inclusive, o juiz já começou a citar os réus para que prestem esclarecimentos dentro de dez dias.

Na ação, o promotor de Justiça Diogo Luiz Deschamps aponta que Diego Machado Enke e Sérgio Poliano Villarreal ocupavam, na época das supostas fraudes, os cargos de diretor-presidente e diretor de Operações e Logística, respectivamente, da sociedade SCPar Porto de São Francisco do Sul, empresa de economia mista responsável pelo porto.

Fraude na dispensa de licitação

Nesta condição, contrataram, em março deste ano, por R$ 2.109.561,50, a empresa Alfa Imunização e Serviços, sem licitação alegando caráter emergencial. A empresa executaria serviços de desinsetização, desratização, controle de larvas em coleções de águas paradas e controle da fauna sinantrópica nociva (pombos) nas dependências do porto. 

No entanto, o porto já tinha conhecimento há pelo menos cinco anos da situação precária do Terminal Graneleiro e da necessidade do controle de pragas e, portanto, não justificaria a dispensa de licitação só em março de 2020.  Outro indício de ilegalidade apontado pelo promotor é a duplicidade na contratação do mesmo serviço.

Além disso, há indícios de favorecimento das empresas Alfa Imunização e Serviços e CRP Comércio de Papel de Transporte LTDA em outros contratos com o porto, fatos que estão sendo investigados de forma mais aprofundada.

As empresas pertenciam aos empresários Cristiano Panstein e seu pai, Silvestre Panstein – presidente e vice-presidente do diretório estadual do Partido Patriota.

Cristiano é o responsável legal pela CRP e Silvestre – junto com a companheira, Rosa Beatriz Bairros Rodrigues – seria o responsável de fato e de direito da Alfa Imunização – empresa que está em nome da irmã de Rosa, Maria Aparecida Bairros Rodrigues. Maria receberia um “salário” para ser laranja da empresa, assinala o promotor.

Juntas, as empresas teriam recebido irregularmente cerca de R$ 480 mil dos dois então diretores do porto, que teriam agido motivados por vantagens indevidas de diversas naturezas, inclusive mediante suposto apoio político e financeiro, com trocas de influência para se manterem na administração portuária.

“Foi feito o pagamento em desconformidade com o contrato. A motivação do pagamento é o que a gente ainda vai investigar: se foi propina ou acordo para direcionamento da licitação”, explica o promotor Diogo Deschamps.

Os seis réus foram denunciados pelos crimes de fraude à licitação e quatro deles – Silvestre Panstein, Maria Aparecida Bairros Rodrigues, Diego Machado Enke e Sérgio Poliano Villarreal – também por organização criminosa.

Pai e filho continuam presos

Pai e filho estão presos preventivamente desde o dia 29 de outubro, quando foi deflagrada a operação “Pombo de Ouro”, resultante de mais de cinco meses de investigação liderada pelo promotor Diogo Luiz Deschamps  e delegado Lucas Almeida.

Na sexta-feira (13/11), eles tiveram uma liminar em habeas corpus negada pelo Poder Judiciário. Com o recebimento da denúncia, os réus terão direito à defesa e ao contraditório no curso da ação penal.

Os crimes que pesam contra cada um

  • Diego Machado Enke (ex-diretor presidente do Porto): fraude à licitação e organização criminosa.
  • Sérgio Poliano Villarreal (ex-diretor de Operações do Porto):fraude à licitação e organização criminosa.
  • Silvestre Panstein (responsável pela Alfa Imunização):fraude à licitação e organização criminosa.
  • Cristiano Panstein (responsável pela CRP): fraude à licitação.
  • Maria Aparecida Bairros Rodrigues (receberia um “salário” para ser laranja da Alfa): fraude à licitação e organização criminosa.
  • Rosa Beatriz Bairros Rodrigues (esposa de Silvestre): fraude à licitação.

No entanto, novos crimes poderão ser imputados aos investigados.

“Especificamente, estamos investigando outras fraudes de licitação envolvendo os mesmos grupos empresariais, supostos pagamentos indevidos desses contratos e lavagem de dinheiro decorrente dessas vantagens indevidas”, complementa o promotor.

Agora, com o início da ação penal, a investigação quer entender mais a fundo a origem da relação entre os ex-diretores do porto com os empresários, se há vinculação política, entre outras suspeitas.

Contrapontos

  • A reportagem procurou todos os citados na denúncia, bem como a SCPar Porto de São Francisco do Sul, mas não recebeu retorno até o fechamento desta reportagem.
  • Rosa Beatriz Bairros Rodrigues atendeu à ligação da reportagem, mas limitou-se a dizer “não tenho nada a falar, meu advogado já está resolvendo a situação”.
  • Maria Aparecida Bairros Rodrigues entregou o celular à Justiça. A reportagem tentou contato pelas redes sociais, mas não obteve retorno.