Operação Mensageiro: ex-secretário nega propina, mas diz que recebeu ‘ajuda’ de R$ 70 mil

Ex-secretário de Administração e Fazenda de Lages, Eroni Delfes, réu na investigação, foi ouvido pelo TJSC; prefeito Antônio Ceron (PSD) também é julgado

Felipe Kreusch, Gabriela Ferrarez e Mafê Salinet Florianópolis

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O ex-secretário Serviços Públicos de Meio Ambiente de Lages, Eroni Delfes Rodrigues, confirmou que recebeu R$ 70 mil da Versa Engenharia, antiga Serrana, mas negou que eram propina, e sim uma “ajuda” para financiar campanha política. Réu na Operação Mensageiro, ele foi ouvido em audiência do TJSC (Tribunal de Justiça de Santa Catarina) nesta terça-feira (18).

“Em parte as denúncias são verdadeiras”, disse o ex-agente público em audiência.

Operação Mensageiro: ex-secretário nega propina, mas diz que recebeu R$ 70 mil em 'ajuda'Eroni Delfes, réu da Operação Mensageiro, foi ouvido em audiência nesta terça-feira (18) – Foto: Felipe Kreusch/ ND

A Operação Mensageiro investiga o esquema criminoso que teria ocorrido em diversas cidades catarinenses, em que agentes públicos são acusados de receber propina em troca de favorecimento em licitações de serviços na coleta de lixo.

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O ex-secretário está preso no 4º BPM em Florianópolis e foi escoltado por policiais até Lages para ser ouvido pelo TJSC.

‘Talvez na época eu estava fazendo um caixa dois’, fala secretário

No interrogatório, Delfes afirmou que não declarou o dinheiro que recebeu para utilizar na campanha de quando se candidatou a vereador de Lages em 2020.

“Para mim não era ilegal, hoje eu vejo que talvez, na época, eu estava fazendo um caixa dois”, afirmou ao tribunal.

Ainda segundo o secretário, durante a pré-campanha, o dinheiro recebido pela Serrana era para, entre outras coisas, comprar cestas básicas e butijões de gás “para quem precisava” entre potenciais eleitores.

O ex-secretário afirmou que o dono da Serrana — cujo nome não pode ser divulgado em função de um acordo de delação premiada — aceitou doar o dinheiro para a campanha, mas nunca perguntou para onde o dinheiro estava sendo destinado, mesmo quando Delfes desistiu de ser candidato antes das eleições.

Delfes diz que, após a desistência, ele continuou recebendo o dinheiro por meio do “mensageiro”, apontado pelo MPSC como responsável pela entrega de propinas, sem qualquer questionamento do dono da Serrana, suposto benfeitor.

No depoimento, o ex-secretário afirmou que o dinheiro era utilizado para pagar as “contas de casa” de outro candidato à vereador na época, que não se elegeu.

Ex-secretário diz que foi ‘às cegas’ para primeiro encontro com ‘mensageiro’

Eroni Delfes confirmou os encontros com o “mensageiro”,  feitos em maioria no estacionamento de uma farmácia em Lages. No entanto, ele afirma que a primeira vez que recebeu o contato do homem — cujo nome não pode ser divulgado em função de um acordo de delação premiada —  não sabia do que se tratava.

Isso porque, segundo o ex-secretário, o dono da Serrana ligou informando que topava doar para a campanha, mas não deu mais detalhes. De acordo com o réu, dias depois, ele recebeu uma ligação de uma pessoa que afirmava que precisava encontrar com ele no estacionamento da farmácia para uma entrega.

No depoimento, Delfes alegou que encontrou com o “mensageiro” sem saber do que se tratava.

“Então o senhor topou encontrar com um cara aleatório, no estacionamento de uma farmácia, para receber uma encomenda que o senhor não sabia o que era?”, questionou o MPSC. “Sim, exatamente Excelência”, respondeu Delfes.

Além de Eroni Delfes, o prefeito de Lages, Antônio Ceron, e o ex-secretário de Administração e Fazenda do município, Antônio Arruda, também iriam depor nesta terça-feira.

Teste comprova caligrafia de envelope de propina

A gerente financeira da Serrana Engenharia confirmou que é sua a letra em envelope de propina encontrado na casa do ex-secretário de Meio Ambiente de Lages, Eroni Delfes Rodrigues.

Segundo depoimento ao TJSC (Tribunal de Justiça de Santa Catarina), desta terça-feira (18), ela realizou teste de caligrafia, que atesta a veracidade da informação. No entanto, ela não explicou mais detalhes.

Gerente da Serrana afirma que letra de envelope encontrado em cada de ex-secretário é dela – Foto: Divulgação/NDGerente da Serrana afirma que letra de envelope encontrado em cada de ex-secretário é dela – Foto: Divulgação/ND

O funcionário da Serrana explicou o motivo de a empresa pagar propina à vários agentes públicos de Lages.

“Ficou mais cômodo, porque assim todos os agentes que poderiam travar o trabalho da Serrana estavam recebendo propina, e não fariam isso”, afirmou na audiência.

Além disso, o delator detalhou o quanto a Serrana estava infiltrada na prefeitura. Segundo o funcionário, um texto entregue por ele para o município era transferido para papel timbrado e imediatamente se tornava um documento oficial.

A Serrana também assumiu papéis no setor técnico de licitações, que segundo o funcionário, não possuíam conhecimento o suficiente. Então, a Serrana tinha o poder de inabilitar empresas ou responder pedido de impugnação de concorrentes.