Pastora e empresária de BC é perseguida por ex-marido com 23 boletins de ocorrência

Cansada de ser ridicularizada, Fernanda Paiva resolveu expor as violências e ataques que vêm sofrendo há meses

Foto de Grazielle Guimarães

Grazielle Guimarães Itajaí

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A violência contra a mulher extrapola os limites de classe social e raça e a empresária Fernanda Paiva, que atua no ramo de empreendimentos de luxo de Balneário Camboriú no Litoral Norte de Santa Catarina, é prova disso.

Mesmo com mais de 23 boletins de ocorrência registrados contra o ex-marido, duas medidas protetivas, um mandado de prisão contra o agressor e um segurança particular 24 horas contratado por Fernanda, o ex marido ainda segue ameaçando e atacando a mulher.

Os dois foram casados por 10 anos e estão separados desde o início de 2021, desde então, o ex-marido já invadiu a casa e a empresa da mulher, têm ameaçado e manchado a imagem dela publicamente e para os clientes de Fernanda.

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“Estou desde março sendo ridicularizada, ameaçada de levar um tiro, ele não apenas me ridiculariza, como ataca a minha fé, fala mal do meu cabelo, fala que na minha igreja acontecem orgias e que eu sou um tipo de prostituta gospel”, diz Fernanda.

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    Ex-Marido de Fernanda ataca não apenas a mulher como a fé dela de forma pública na internet - Reprodução Internet
    Ex-Marido de Fernanda ataca não apenas a mulher como a fé dela de forma pública na internet - Reprodução Internet
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    Os ataques continuam mesmo após um mandado de prisão contra o ex-marido - Reprodução Internet
    Os ataques continuam mesmo após um mandado de prisão contra o ex-marido - Reprodução Internet

Os ataques na internet têm respingado no filho mais novo do casal. “Ele publica os ataques no Facebook, os colegas do meu filho vêm e fazem bullying com ele, brincadeiras de mau gosto”, conta a empresária.

Esta é a primeira vez que a empresária fala para a imprensa. Cansada de ser ridicularizada, Fernanda não teve outra saída a não ser expor o caso. “Já que meu nome esta sujo e sendo ridicularizado. Resolvi expor pra contar minha versão e tentar ser ouvida pelas autoridades”  .

A empresária fala das dificuldades e do machismo enraizado até mesmo no sistema que deveria proteger e assegurar os direitos das mulheres. “Toda parte de denúncia já é uma violência. Mesmo eu sendo uma pessoa esclarecida, passei por inúmeras dificuldades. O síndico do meu prédio proibiu os funcionários de depor sobre o caso, ele invadiu minha casa, levou um carro que estava no meu nome e ainda assim, teve parecer favorável por parte da Justiça para ficar com o veículo”, disse Fernanda.

Fernanda Paiva é empresária e atua no ramo de empreendimentos de luxo em Balneário Camboriú – Foto: Reprodução InternetFernanda Paiva é empresária e atua no ramo de empreendimentos de luxo em Balneário Camboriú – Foto: Reprodução Internet

A empresaria reconhece sua posição social e ainda assim se assusta com a morosidade do processo. “Mesmo sendo uma pessoa esclarecida, vejo que a opção que a justiça dá é ou você largar tudo e fugir ou ficar a mercê do processo andar ou não. Fico imaginando as mulheres que não têm a mesma posição social que eu, por isso os números de violência contra a mulher são tão assustadores”, destaca a empresária.

Leis não efetivas

Fernanda comenta que para ela as leis seriam excelentes se fossem mais efetivas. “Eu fui inúmeras vezes na delegacia da mulher em Balneário Camboriú e elas dizem que têm inúmeros processos de violência e eu não sou mais importante que as outras mulheres. Mas eu continuo sofrendo violência, não física, mas emocional e moral”, diz Fernanda.

A empresária completa. “É louvável o trabalho que Balneário Camboriú tem feito no combate a violência contra a mulher, até mesmo com casa de apoio para vítimas carentes, mas no meu caso o sistema não me protege das inúmeras violências que venho sofrendo. Mesmo com mandado de prisão contra meu ex-marido, ele segue me atacando publicamente”, diz a empresária.

De acordo com Fernanda, o mandado de prisão só foi emitido, após um cliente dela interceder pelo caso. “Um cliente conhece a juíza que estava com meu processo e intercedeu pelo meu caso, só ai que meu processo começou a andar, ainda assim em passos lentos”.

Em nota, a AMC (Associação dos Magistrados Catarinenses) explica que processos com pedidos relacionados à violência contra a mulher recebem prioridade absoluta e são analisados com urgência por todos os magistrados responsáveis pelas varas com tal competência.

“Neste caso específico, o processo teve trâmite regular e a prisão preventiva foi decretada logo após pedido formulado pelo Ministério Público, dentro dos prazos estabelecidos pela legislação, sem qualquer interferência externa”, diz a entidade.

Sistema sobrecarregado

Inara Drapalski, delegada da DPCAMI (Delegacia de Proteção a Criança, Adolescente, Mulher e Idoso) de Balneário Camboriú conta que reconhece o caso de Fernanda, mas que a delegacia tem inúmeros outros processos que envolvem a segurança imediata da vítima.

“Atendemos inúmeros casos de violência todos os dias e temos que priorizar os processos que envolvem a segurança física imediata da vítima. Nossa DPCAMI não registrou nenhum caso de feminicídio em 2021, atuamos de forma efetiva com botão de pânico e uma integração com todos os sistemas além de conscientização inclusive com agressores”, destaca Inara.

A delegada completa explicando que há um protocolo de avaliação de risco das vítimas. “Temos um protocolo a seguir para que casos mais graves seja priorizado. Nosso volume de trabalho é imenso. Neste caso específico [da Fernanda] ainda não localizamos o autor para a prisão, mas o que está ao nosso alcance está sendo feito”, disse.

Casos semelhantes

Em 2021, o MPSC (Ministério Público de Santa Catarina) pediu mais de 10 mil medidas protetivas a mulheres vítimas de violência. Para que as leis e medidas de proteção, o Ministério Público busca investir na integração de todas as instituições de segurança.

“O MP tem implementado várias ações interinstitucionais, para que a rede de proteção possa melhor atender a vítima de violência doméstica, como a rede Catarina, com parceira com a PM e o sistema do formulário de avaliação de risco que será lançado dia 10 próximo, em conjunto com o TJSC e a Polícia Civil , que será fundamental para instruir e agilizar a concessão e monitoramento das protetivas”, explica Cristiane Rosália Maestri Böell,  Procuradora de Justiça e coordenadora do GEVIM.

O descumprimento de medidas protetivas e a prisão dos acusados tem se tornado um grande desafio para as forças de segurança e justiça do Estado. “Há um grande número de medidas protetivas deferidas. O descumprimento tem levado a várias prisões e condenações, principalmente após a alteração legislativa que passou a prever que o descumprimento de ordem que defere medida proteção de urgência é crime”.

O ND+ entrou em contato com ex-marido de Fernanda, mas até às  10h40 desta sexta-feira (3), não teve retorno.

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