Uma operação da Polícia Federal contra empresários que teriam compartilhado mensagens com teor golpista em grupos de WhatsApp movimentou Santa Catarina nesta terça-feira (23).
Entre os alvos da operação, que cumpre oito mandados de busca e apreensão em cinco estados, estão dois empresários conhecidos em Santa Catarina: Luciano Hang, da Havan, e Marco Aurélio Raymundo, o Morongo, fundador da Mormaii.
Operação cumpre oito mandados de busca e apreensão em cinco Estados – Foto: Moisés Stuker/NDTVLuciano Hang se posicionou em relação ao cumprimento de mandados em sua residência em Balneário Camboriú, no Litoral Norte de Santa Catarina, e em Brusque, na sede administrativa da Havan, no Vale do Itajaí.
SeguirPor meio de nota, ele disse que foi surpreendido nesta manhã, às 6h, enquanto trabalhava na sede das lojas e teve seu telefone celular recolhido pela Polícia Federal.
Também afirmou estar “tranquilo, pois estou ao lado da verdade e com a consciência limpa. Desde que me tornei ativista político prego a democracia e a liberdade de pensamento e expressão, para que tenhamos um país mais justo e livre para todos os brasileiros”.
Já Morongo, através de sua defesa, disse que “ainda desconhece o inteiro teor do inquérito, mas se colocou e segue à disposição de todas autoridades para esclarecimentos”. Um mandado foi cumprido em um endereço ligado ao empresário em Garopaba, Sul de Santa Catarina.
Além deles são investigados: José Isaac Peres (rede de shopping Multiplan), André Tissot (Grupo Serra), Ivan Wrobel (Construtora W3), José Koury (Barra World Shopping), Meyer Nirgri (Tecnisa) e Afrânio Barreira (Grupo Coco Bambu).
A operação foi deflagrada após ordem do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), e investiga se os empresários teriam defendido estratégias golpistas caso Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ganhasse as eleições deste ano.
A ação é resultado de mensagens trocadas em grupos de WhatsApp pelos alvos, divulgadas em uma matéria do jornalista Guilherme Amado, do portal Metrópoles, em 17 de agosto, com o título: “Exclusivo. Empresários bolsonaristas defendem golpe de Estado caso Lula seja eleito; veja zaps”.
Após divulgação da reportagem, o senador Randolfe Rodregues (Rede-AP) acionou o STF e pediu que as investigações das mensagens e grupos de empresários sejam incluídos no inquérito das milícias digitais, sob a relatoria de Alexandre de Moraes.
A operação é tratada com sigilo absoluto pela Polícia Federal, que como de praxe não divulgou mais detalhes sobre a investigação policial.
O que dizem os outros empresários?
O empresário Afrânio Barreira Filho, da Coco Bambu, divulgou nota em que afirma estar “absolutamente tranquilo”. “Minha única manifestação [no grupo de WhatsApp] sobre o assunto foi um emoji [o desenho de um rapaz aplaudindo os comentários de outros integrantes do grupo] sinalizando a leitura da mensagem [anterior], sem estar endossando ou concordando com seu teor”, comentou, garantindo confiar na Justiça e ser favorável à democracia brasileira. “Nunca defendi, verbalizei, pensei ou escrevi a favor de qualquer movimento antidemocrático ou de ‘golpe’. Assim, sou a favor da liberdade, democracia e de um processo eleitoral justo.”
Em nota, a defesa de Ivan Wrobel classifica como falsa a afirmação de que o empresário defende um golpe de Estado e sustenta que ele teve sua honra e credibilidade abaladas “simplesmente por participar de um grupo de WhatsApp”. “Descendente de uma família polonesa judia, o senhor Ivan sempre soube o perigo que ditaduras podem causar. Cumpre ressaltar que, em 1968 [durante o regime militar], quando aluno do IME [Instituto Militar de Engenharia], foi convidado a se retirar da instituição por ter se manifestado contrário ao AI-5 [Ato Institucional nº 5]”, acrescenta a defesa.
Já a assessoria de Luiz André Tissot informou que, por ora, ele não se manifestará sobre o tema.
O ND+ entrou em contato com os demais empresários citados na reportagem, mas até a publicação desta reportagem não havia recebido retorno. O espaço continua aberto.
Veja a nota da defesa de Luciano Hang na íntegra
O empresário Luciano Hang foi surpreendido na manhã de hoje [terça-feira, 23] com um mandado de busca e apreensão expedido pelo Ministro do STF, Alexandre de Moraes. Luciano estava trabalhando em sua empresa, às 6h da manhã, quando a Polícia Federal o abordou e recolheu seu telefone celular.
O inquérito foi cumprido por causa da matéria publicada na coluna do jornalista Guilherme Amado, do Metrópoles, no dia 17/08, com o título: “Exclusivo. Empresários bolsonaristas defendem golpe de Estado caso Lula seja eleito; veja zaps”.
O empresário reafirma que a matéria foi irresponsável e não retratou a verdade. “Eu nunca falei de STF ou de golpe. O jornalista, de forma leviana e sensacionalista, usou trechos desconexos de conversas e a tirou de contexto”, afirma.
A fala de Luciano no grupo Empresários & Política foi a seguinte: “Mais 4 anos de Bolsonaro, mais 8 de Tarcísio e aí não terá mais espaço para esses vagabundos”, disse se referindo aos políticos conhecidos e que estão há décadas no poder. A mensagem de Luciano foi uma resposta à fala do empresário Roberto Mota, que falava sobre eleições e não sobre poderes.
Segue fala do empresário na íntegra: “Sigo tranquilo, pois estou ao lado da verdade e com a consciência limpa. Desde que me tornei ativista político prego a democracia e a liberdade de pensamento e expressão, para que tenhamos um país mais justo e livre para todos os brasileiros. Eu faço parte de um grupo de 250 empresários, de diversas correntes políticas, e cada um tem o seu ponto de vista. Que eu saiba, no Brasil, ainda não existe crime de pensamento e opinião. Em minhas mensagens em um grupo fechado de WhatsApp está claro que eu NUNCA, em momento algum falei sobre Golpe ou sobre STF. Eu fui vítima da irresponsabilidade de um jornalismo raso, leviano e militante, que infelizmente está em parte das redações pelo Brasil. Segue minha conversa com o jornalista Guilherme Amado, do Metrópoles, na quinta-feira, dia 18/08, próximo às 18h, onde ele mesmo reconhece que eu nunca falei sobre golpe de Estado: