Após nove anos do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, e 10 dias de júri- o maior da história do Rio Grande do Sul – as sentenças dos réus foram definidas: cada um deles foram condenados a ficar entre 18 e 22 anos na prisão. O incêndio aconteceu em Santa Maria em 27 de janeiro de 2013.
Julgamento aconteceu quase 9 anos após o incêndio da boate Kiss – Foto: Tiago Coutinho/MPRS/Divulgação/NDAcompanhado de perto pela imprensa, depoimentos marcantes foram registrados ao longo do Júri. As partes compareceram no no Foro Central I de Porto Alegre entre os dias 1° e 10 de novembro de 2022. O ND+ relembra os momentos mais marcantes de cada dia de julgamento.
Depoimentos das vítimas
Uma das pessoas que prestou depoimento foi a ex-funcionária da cozinha da boate, Kátia Siqueira. Ela contou nunca ter recebido treinamento sobre incêndio para trabalhar na Kiss e afirmou que “com tudo isso que eles fizeram, tentaram matar a gente”.
SeguirOutra vítima foi Kelen Giovana Leite Ferreira, que agora tem 28 anos e estava na boate Kiss para o show, quando se tornou vítima do incêndio. Além de perder as duas amigas que a acompanhavam, a jovem tem marcas de queimadura pelo corpo até hoje e perdeu um dos pés na tragédia.
Emanuel Pastl tinha 19 anos quando aconteceu o incêndio. Com queimaduras de terceiro grau pelo corpo e problemas no pulmão, o jovem ficou internado por 10 dias. No hospital, foi atendido pela enfermeira Mirélle Bernardini, com quem se casou e tem uma filha de 2 anos.
Construção com espuma inflamável
Outro depoente foi o engenheiro Miguel Ângelo Teixeira Pedroso, de 72 anos, que disse ter desaconselhado o uso de espumas durante reforma da Kiss.
“Existe um material que se utiliza para tratamento acústico, um tipo de elastômero, que é a espuma que não é inflamável. Existe uma marca que a gente usa que tem essa característica, que não é inflamável, que é segura”, disse o engenheiro.
As sessões do terceiro dia se encerraram com o depoimento do DJ Lucas Cauduro Peranzoni, que estava no local durante o incêndio. Após receber atendimento psicológico, o depoente relembrou momentos da tragédia que causou a morte de 242 pessoas e deixou 636 pessoas feridas: “Surgiu uma bola de fogo e, depois, uma nuvem preta muito densa”.
Segundo Lucas, um extintor foi usado por aqueles que estavam perto do palco logo que notaram o incêndio. Os que estavam na festa não foram avisados. Como conhecia a boate, ele conseguiu deixar o local a tempo de se salvar, mas o DJ acredita que quem não conhecia teria dificuldades de sair.
Discussão no tribunal
Uma discussão entre o juiz e um advogado marcou o terceiro dia de julgamento. O bate-boca começou durante o depoimento do empresário Daniel Rodrigues da Silva, que vendeu os fogos de artifício usados na boate Kiss.
As discussões no Júri começaram quando o advogado de defesa, Jean Severo, perguntou sobre uma loja que pertencia a testemunha e foi fechada em 2015. “No que isso é relevante?”, questionou Daniel.
O advogado insistiu que a resposta era importante, sem explicar o motivo, afirmou que a resposta era obrigatória. A testemunha disse: “não vou responder, não sou obrigado”.
Após este momento, os tons de vozes aumentaram no tribunal e o juiz Orlando Faccini Neto precisou intervir, exigindo respeito. “Só um minuto, doutor, aqui não é competição de quem grita mais alto. Se for, eu falarei mais alto”.
A banda
Integrantes da banda também prestaram depoimento. Luciano Bonilha, réu e produtor, chegou aos prantos enquanto dizia: “Não sou assassino”. Em conversa com a imprensa, ele também declarou que “se me condenar tira a dor deles [família], me condenem”.
O ex-técnico de sonorização Venâncio da Silva Anschau trabalhava na noite dos shows e reconheceu que errou ao desligar os microfones no momento do início do incêndio.
Familiares das vítimas
Familiares das vítimas estiveram presentes durante todo o julgamento. Durante a fala do ex-prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer, ao criticar o inquérito policial e tentar isentar a prefeitura, eles se levantaram e deixaram a sala em forma de protesto.
A saída também aconteceu durante a sessão do 10º dia, quando a advogada Tatiana Borsa apresentou uma suposta carta psicografada. A defesa do músico Marcelo de Jesus dos Santos defendeu que as palavras eram de uma das vítimas – que morreu no incêndio.
Por que os condenados pelo incêndio na boate Kiss não foram presos?
Após a leitura da sentença e determinação da prisão pelo juiz Orlando Faccini Neto, entre as 17h e 18h desta sexta-feira (10), o advogado dos réus apresentou um habeas corpus preventivo. Com isso, a prisão foi automaticamente suspensa e será analisada pelo colegiado.
No julgamento da boate Kiss, foram condenados os ex-sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr e Mauro Londero Hoffmann, o vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos, e o produtor musical Luciano Bonilha Leão.