Testemunha olha para réu e se emociona ao relembrar chacina em creche de SC: ‘ouvi gritos’

Um metalúrgico vizinho da creche em Saudades, no Oeste de Santa Catarina, onde aconteceu a chacina, contou o que viu quando entrou no local

Foto de Caroline Figueiredo e Willian Ricardo

Caroline Figueiredo e Willian Ricardo Chapecó

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A segunda testemunha de acusação a falar no julgamento do homem acusado pela morte de três bebês e duas professoras na chacina em uma creche de Saudades, no Oeste de Santa Catarina, foi um metalúrgico vizinho da escola de educação infantil.

Ele prestou depoimento no início da tarde desta quarta-feira (9) no Fórum de Pinhalzinho e se emocionou ao olhar para o réu.

julgamento do réu da chacinaTestemunhas e vítimas da chacina são ouvidas durante a tarde. – Foto: TJSC/Divulgação/ND

O homem contou no tribunal que trabalhava na manhã daquele dia 4 de maio de 2021 quando ouviu gritos vindos da creche. Correu para ver do que se tratava e foi barrado por uma pessoa dizendo que alguém estava matando dentro do educandário.

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“Vi uma professora pulando a janela”, revelou. O metalúrgico não pensou duas vezes, e com uma barra de ferro nas mãos, para se defender caso fosse agredido, entrou na creche para tentar ajudar.

Foi então que se deparou com o acusado. A testemunha afirmou que o jovem estava lúcido e não esboçava sentimentos.

Julgamento ocorre no Fórum de Pinhalzinho. – Foto: Valéria Cenci/NDMaisJulgamento ocorre no Fórum de Pinhalzinho. – Foto: Valéria Cenci/NDMais

Para evitar novas agressões, a testemunha disse que bateu com a barra de ferro na adaga, jogando-a para longe do rapaz. Apesar de toda a situação, o metalúrgico contou que o acusado parecia tranquilo, não se abalou e não demonstrava dor.

No fim de seu depoimento, a testemunha pediu ao juiz se podia olhar para o réu. Com os olhos voltados para o rapaz, o questionou falando o nome dele [do acusado].

O advogado de defesa interferiu alegando que não poderia haver contato entre eles. A testemunha ficou muito emocionada e precisou ser amparada.

Da mesma forma, a mãe do acusado – sentada próximo de onde o filho está – chorou, abaixou a cabeça e ficou muito emocionada durante os relatos, principalmente quando o metalúrgico revelou que no dia da chacina pediu ao acusado de quem ele era filho.

O ND+ não irá publicar fotos do rosto do assassino, tampouco destacar o nome dele ao longo da cobertura. Também não irá mostrar o rosto das vítimas. A decisão editorial foi feita em respeito às famílias e ao ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), além de não compactuar com o protagonismo de criminosos.

O dia da chacina

O pacato município de Saudades, distante a 42 km de Chapecó, nunca mais foi o mesmo depois do fatídico 4 de maio de 2021, quando a creche Pró-Infância Aquarela foi alvo do ataque brutal de um jovem de 18 anos.

Armado com uma espécie de espada, o rapaz invadiu a escola de educação infantil e matou três bebês, com idades até 1 ano e 9 meses, uma agente educacional, de 20 anos, e uma professora, de 30. A chacina completou dois anos em maio de 2023 e teve repercussão internacional.

Conforme a Polícia Civil, o jovem — que morava na cidade — dirigiu-se de bicicleta à creche, localizada na área urbana do município. Ao entrar no local, começou a atacar a professora que, embora ferida, correu para uma sala onde estavam quatro crianças e uma funcionária da escola, na tentativa de alertar sobre o perigo.

Chacina deixou a comunidade de Saudades perplexa. – Foto: Willian Ricardo/NDChacina deixou a comunidade de Saudades perplexa. – Foto: Willian Ricardo/ND

O rapaz atacou, então, as crianças que estavam na sala e a funcionária. Duas meninas de menos de dois anos e a professora que sofreu o ataque inicial, morreram no local. Outra criança e a funcionária morreram depois no hospital.

Após a chacina, o jovem deu golpes contra si e foi internado. O acusado teve a prisão preventiva decretada no dia 5 de maio de 2021, um dia após o crime, e responde processo por cinco homicídios qualificados, por motivo torpe, cruel e em ação que impossibilitou a defesa das vítimas.

Além disso, é réu por 14 tentativas de homicídio. Ele recebeu alta no dia 12 de maio e foi levado ao Presídio em Chapecó, onde permaneceu preso até a data do júri. Segundo a investigação da Polícia Civil, o jovem planejou o crime e tinha consciência do que estava fazendo quando invadiu a creche.

O delegado Jerônimo Marçal Ferreira, responsável pela investigação do caso, informou, à época da chacina, que o acusado confessou o crime. Marçal ainda disse que a agente educacional e a professora foram heroínas ao impedir que o jovem fosse para outras salas, conseguindo com êxito, mesmo que feridas, evitar o pior.

Durante a investigação, que contou até com o apoio da Embaixada dos Estados Unidos, mais de 20 pessoas foram ouvidas, tendo o próprio acusado prestado depoimento no dia 10 de maio, enquanto ainda estava internado, sob custódia policial, no Hospital Regional do Oeste, em Chapecó. A polícia também apreendeu aparelhos eletrônicos e dispositivos pertencentes ao jovem.

No dia 14 de maio de 2021, os delegados realizaram uma coletiva de imprensa após o fim do inquérito, detalhando, entre outras coisas, que o jovem teria escolhido a creche pela fragilidade das vítimas, que tinha plena consciência do que fez e que foi um crime premeditado durante 10 meses.

Os relatórios dos dados e das informações encontradas nos aparelhos eletrônicos do réu demonstram que, durante o período em que planejou o ataque, ele participou de fóruns de discussão na internet sobre crimes violentos e pesquisou serial killers.

Exame de insanidade mental foi negado

A defesa do acusado pediu exame de insanidade mental, mas a Justiça negou três pedidos nos dias 25 de maio, 23 de junho e 7 de julho de 2021.

No dia 5 de agosto, durante uma audiência online, o juiz decidiu ouvir o jovem presencialmente. No dia 24 do mesmo mês, durante a oitiva do acusado, o advogado de defesa apresentou um laudo particular e o juiz Caio Lemgruber Taborda deferiu o pedido para a realização do exame de insanidade mental, o qual foi realizado pela Polícia Científica de Blumenau.

O laudo foi concluído no dia 19 de outubro de 2021 e o juiz solicitou mais detalhes ao perito. A partir disso, o juiz decidiu no dia 2 de fevereiro de 2022 que a questão da insanidade mental será definida no júri.

No dia 7 de fevereiro a defesa questionou em primeira instância a decisão e pediu um novo exame de insanidade mental. O pedido foi negado. Em 1º de maio a defesa entrou com novo recurso pedindo um novo laudo, a Justiça negou a solicitação no dia 28 de junho.

No dia 11 de outubro, o juiz decidiu que o caso iria para juro popular no dia 9 de agosto.