As irmãs mais importantes da literatura mundial

Anne, Charlotte e Emily Brontë publicaram obras-primas num período em que as mulheres eram praticamente proibidas de escrever

Pâmela Schreiner Florianópolis

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Tão corajosas quanto as heroínas de suas histórias, três irmãs revolucionaram a literatura no século XIX e quebraram a barreira do machismo no mercado editorial. Anne, Charlotte e Emily Brontë ousaram escrever romances numa época em que mulheres eram praticamente proibidas de compartilhar os próprios pensamentos.

As meninas nasceram em um pequeno vilarejo de Yorkshire, na Inglaterra, e foram criadas pelo pai, após a morte da mãe. As três tinham apenas um irmão vivo, Patrick Brontë, que era extremamente talentoso para a literatura e a pintura. Mesmo com poucos recursos, o pai possuía uma biblioteca recheada, que se transformou em refúgio para as crianças.

Anne, Charlotte e Emily viveram na Inglaterra do século XIX e encontraram um refúgio na literatura – Foto: Internet/Divulgação/NDAnne, Charlotte e Emily viveram na Inglaterra do século XIX e encontraram um refúgio na literatura – Foto: Internet/Divulgação/ND

As irmãs se apaixonaram pelos livros ainda na infância. As palavras viraram o passatempo predileto e as três passavam horas inventando histórias e mundos imaginários. Com dificuldades financeiras, Anne, Charlotte e Emily, depois de tentarem carreira como governantas e até professoras, investiram profissionalmente na escrita e começaram a publicar contos.

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A saga das irmãs no mercado editorial

Na Inglaterra vitoriana, mulheres escritoras eram casos raros. Esperava-se que elas ocupassem posições de pouca importância, aprendessem a tricotar e a ditar as tarefas de uma casa e apresentassem comportamento submisso e educado. Ao mesmo tempo, homens muitas vezes desprezíveis alcançavam posições relevantes e determinavam as regras da sociedade.

O mercado editorial abria pouco espaço para mulheres e por isso as irmãs publicaram a primeira coletânea sob os pseudônimos de Acton, Currer e Ellis Bell, em 1846. A única característica que remete às autoras é a letra inicial de cada nome.

O livro, no entanto, foi um verdadeiro fracasso: vendeu no máximo quatro exemplares. Apesar disso, as irmãs não desanimaram e continuaram escrevendo, até finalizarem os primeiros romances. Após várias tentativas de encontrar uma editora, Charlotte negociou a publicação de “Jane Eyre”, ainda sob o pseudônimo de Currer Bell, em 1847.

Os três livros mais famosos das irmãs já ganharam inúmeras edições no Brasil – Foto: Pâmela Schreiner/NDOs três livros mais famosos das irmãs já ganharam inúmeras edições no Brasil – Foto: Pâmela Schreiner/ND

O romance atingiu sucesso quase imediato, mesmo com um enredo que subvertia os padrões da época. “Jane Eyre” coloca mulheres e homens em pé de igualdade e retrata, por meio da sua protagonista, a busca pela independência feminina. A trama foi até adaptada para o teatro e lotou uma famosa casa de Londres.

Anne e Emily publicaram os primeiros livros no mesmo ano, porém não tiveram tanto êxito quanto o romance da irmã.

“O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily Brontë, até causou polêmica por conta do estilo narrativo, dos personagens problemáticos e da saga de amor e ódio do casal de protagonistas.

Já “Agnes Grey”, de Anne Brontë, vendido em conjunto com a obra de Emily, acabou esquecido em meio à repercussão dos outros livros.

A revelação da identidade e a vida trágica

Independente da fama, a identidade das irmãs continuou sendo um segredo, até que começou a levantar dúvidas entre editores e leitores.

Uma confusão em 1848 motivou as três a revelarem que eram mulheres e muitos não acreditaram. Após assumirem as publicações, Anne, Charlotte e Emily tiveram contato com outros autores e aperfeiçoaram ainda mais a escrita.

Mesmo vivendo em um local pacato, as irmãs cruzaram os limites do seu próprio espaço e escreveram histórias intensas e por vezes desconfortáveis, com personagens ambíguos, que nem sempre terminam o livro com o tradicional “felizes para sempre”. Com tramas que provocam debates até hoje, as três retrataram com maestria as dúvidas que permeiam qualquer ser humano.

A vida, entretanto, não reservava boas surpresas para a família Brontë. Logo após voltarem de uma viagem a Londres, as três se depararam com o irmão à beira da morte, vítima de tuberculose. A doença também vitimou Emily e Anne, que ainda conseguiu lançar mais uma obra, “A Inquilina de Wildfell Hall”, em 1849, e morreu pouco depois.

Charlotte viveu por mais seis anos até também morrer por tuberculose. Ela publicou outros dois romances, “Shirley”, em 1849, e “Vilette”, em 1853, além de uma novela.

As mortes precoces podem ser explicadas pelas condições precárias do vilarejo onde a família morava, uma combinação de clima severo, comida escassa, água contaminada e falta de saneamento básico.

Apesar das vidas curtas, as irmãs deixaram obras-primas eternas, que são grandes clássicos da literatura mundial. Duas delas eu já tive o prazer de ler: “Jane Eyre” e “O Morro dos Ventos Uivantes” (e “A Inquilina de Wildfell Hall” é a próxima da lista).

O feminismo de “Jane Eyre”

O primeiro livro publicado por uma das irmãs conta a história de uma órfã, da infância até a idade adulta. É um romance de formação, um tipo de obra em que o enredo central é o processo de desenvolvimento de um personagem – emocional, física e psicologicamente. Charlotte criou uma protagonista determinada, que não deixa outras pessoas decidirem o seu futuro.

Jane Eyre é uma protagonista forte e determinada, que busca a independência, principalmente financeira – Foto: Capa Martin Clared/Universal Studios/Divulgação/NDJane Eyre é uma protagonista forte e determinada, que busca a independência, principalmente financeira – Foto: Capa Martin Clared/Universal Studios/Divulgação/ND

O romance aborda as dificuldades que Jane enfrenta ao longo da vida. Quando criança, foi maltratada pela tia e pelos primos, por ser considerada uma intrusa na família. A menina é mandada para um internato, onde permanece por vários anos até conseguir um emprego como governanta na casa do Sr. Rochester. Jane acaba se apaixonando pelo patrão, mas o amor não é tão simples quanto parece.

A protagonista tem total consciência de suas qualidades e defeitos. Não se deixa levar pela paixão e até resiste ao romance por se sentir em desvantagem social e financeira comparada a Rochester. Porém a personagem não se conforma com o que é esperado dela. Com muita força de vontade, busca a independência e a igualdade de gênero, tentando sempre evitar que a sociedade imponha limitações pelo fato de ser mulher.

“Jane Eyre” pode ser considerado um romance feminista e acredita-se que é baseado em memórias da própria Charlotte, que também passou anos em um internato. A autora denuncia o machismo da época e até o modelo educacional adotado pela sociedade, que ensinava mulheres a apenas baixarem a cabeça para o que diziam os homens.

Os personagens abomináveis de “O Morro dos Ventos Uivantes”

O único romance de Emily Brontë tem um enredo trágico. Acompanhamos a história de amor, obsessão e vingança de Catherine Earnshaw e seu irmão adotivo Heathcliff. Ela é filha de um rico proprietário de terras, que após uma viagem traz para casa um órfão que passa a conviver com a família, mas é desprezado por todos, exceto por Catherine.

Catherine e Heathcliff vivem uma história de amor, ódio e vingança – Foto: Capa Principis/Paramount Pictures/Divulgação/NDCatherine e Heathcliff vivem uma história de amor, ódio e vingança – Foto: Capa Principis/Paramount Pictures/Divulgação/ND

A relação entre os dois começa na amizade, porém logo se transforma em paixão. Tudo muda quando o patriarca morre e o irmão de Catherine assume a propriedade. Ela acaba casando com outro e Heathcliff deixa o local, com muito rancor e frustrações no coração, prometendo vingança à família que tanto o maltratou.

O livro chocou a crítica quando foi publicado. A sociedade considerou a obra imoral e inadequada para a época, por conta da linguagem vulgar, dos personagens por vezes detestáveis e das temáticas pouco tradicionais, como inveja, incesto, ciúme e adultério. Emily criou uma atmosfera sombria e dramática, com ambientação inspirada na própria vila onde morava.

A autora colocou muitas características do estilo gótico na obra: o cenário é melancólico, acontecem eventos infelizes e há até aparições fantasmagóricas. É um livro difícil de digerir. Não espere torcer pelos personagens, mas sim duvidar e até repudiar suas atitudes. Não há vilões e nem mocinhos, mas protagonistas complexos que despertam compaixão e repulsa ao mesmo tempo.